gangues rivais ocupam a cidade

Mapa de Compton: gangues rivais ocupam a cidade

Existem milhares de gangues de rua pelo mundo, nos mais diferentes países e das mais diferentes etnias. Aqui vai um pouco da história das duas mais conhecidas: as estadunidenses Crips e Bloods.

Do meio para o final dos anos 60, Los Angeles ainda estava sob a influência da luta pelos direitos civis e por justiça. Uma crescente onda de violência assolava os bairros negros, tendo como marco a revolta popular de Watts (ocorrida em 1965).

Neste cenário conturbado em parte devido à rivalidade entre as gangues do lado leste e oeste, e também pela ausência de serviços básicos como educação e segurança, alguns jovens negros resolveram criar uma milícia de defesa ”quase política” , inspirada nos ”Black Panthers” para lhes trazer a sensação de segurança e para defender a população do seu bairro. Nascia assim os “The Baby Avenues”. Nessa época conhecida como o “ressurgimento das gangues”, os conflitos já não seriam como no passado “inter-raciais”. Passariam a ser “intra-raciais”.

Fim da retórica revolucionária

Logo em seguida os “The Baby Avenues” ficariam conhecidos por “Baby Crips”. Porém, também já existiam ramificações como Inglewood Crips, West Side Crips of Avalon… Algumas versões dão conta de que o nome Crips é em decorrência do filme “Contos da Cripta”. Outras de que o nome era “Cribs” e que teria mudado graças a um grande jornal local que na divulgação de um dos primeiros assassinatos “badalados” trocou o nome para Crips. Mas a retórica revolucionária não resistiu. Devido à imaturidade e à falta de liderança política entre esses jovens, que nunca estiveram aptos para desenvolver uma agenda política eficiente, para promover mudanças sociais na comunidade.

O certo é que o poder e as armas levaram essa milícia que almejava uma forte vigilância e defesa comunitária a buscar vôos mais altos, e a mudar seu objetivo. Em pouco tempo o controle de parte do tráfico de drogas e de armas tinha sido conquistado. Estes passaram a agir exatamente da mesma forma que os principais opressores das suas comunidades.

No começo de 1971, os Crips eram praticamente hegemônicos. Digo praticamente pois os que não seguiam essa cartilha e, portanto, eram considerados inimigos, começaram a se reunir e a partir da reunião de quatro gangues – Pirus, L.A Brims, Bishops e Denver Lanes – a resposta foi criada. Seu nome: Bloods.

Os dois grupos operavam inicialmente em três cidades: Compton, Inglewood e Los Angeles. Em pouco tempo todo o Condado de Los Angeles foi sendo fatiado e delimitado. Os grafites não indicavam apenas os limites. Serviam também para lembrar fatos ocorridos e sinalizavam as ameaças de fatos que ainda viriam a acontecer. Anos depois o gangsta rep também cumpriria essa mesma função.

Desde os anos 80, tanto Crips quanto Bloods já invadiam Nova Iorque, oriundos da antiga Honduras britânica, atual Belize (América Central), de onde seguiam diretamente para a Costa Leste, especialmente Flórida, Carolina do Norte, do Sul, Geórgia, Nova Jérsei e Nova Iorque.

Em 1989, diversas famílias oriundas do Belize chegaram ao bairro nova-iorquino do Harlem e, em pouco tempo, jovens e adultos criaram o Harlem Mafia Crips que foi o primeiro, logo seguido pelos 30’s Rolling Crips, 92 Hoover e 60’s Crips Crips…

O caminho percorrido pelos Bloods não foi muito diferente, com exceção para os componentes. Além dos negros, juntaram-se também hispânicos, brancos, gregos e chineses que formam as gangues Nine Trey Gangsta Bloods, Young Bloods, Valentine Bloods, Mad Dog Bloods, 5-9 Brims, entre outras, cuja união culmina com a United Blood Nation (Nação Unida do Sangue), e que praticamente controla as prisões de Nova Iorque.

A utilização de cores estranhas a determinadas comunidades e/ou a má interpretação dos sinais resultavam em punições implacáveis aos incautos. Quem teve a oportunidade de assistir ao filme As Cores da Violência (Colors) talvez se lembre que o vilão do filme, o Foguete (Rocket), e seus comparsas só se vestiam de azul. Portanto, era uma alusão aos Crips. Mais especificamente aos Playboys, um dos mais temidos grupos Crips nos anos 80.

No filme, determinados posicionamentos não são muito bem explicados. Cabe ressaltar que o filme mostra as gangues através da visão dos personagens/policiais. Portanto, a visão do “opressor” sobre o “oprimido”. Durante o período que esse filme ficou em cartaz ocorreram inúmeros confrontos entre gangues em todo os EUA.

Mas a luta por poder em Los Angeles só foi freada (parcialmente) durante o episódio Rodney King – motorista negro que não cumpriu a ordem de parar o carro durante uma blitz e em decorrência disso foi violentamente espancado por policiais brancos em 1991. A absolvição dos policiais no ano seguinte deu início a uma das maiores insurreições negras das Américas que resultou na morte de 50 pessoas.

A partir daí os Crips e Bloods lançaram um manifesto onde fizeram um pacto de não agressão e, após, entraram em violentos choques com a LAPD (Los Angeles Police Departament – Departamento de Polícia de Los Angeles) e a Guarda Nacional estadunidense.

É bom lembrar que um dos policiais envolvidos nesse episódio teve a companhia, durante as várias etapas do julgamento, de um amigo bastante conhecido das gangues e da cena rep mundial. Seu nome é Eric Wright ou, simplesmente, Eazy E. Na época ainda vocalista do principal expoente da gangsta music, o NWA (Niggaz With Attitude / Crioulos com Atitude), e dono da gravadora Ruthless. Parece que foi ontem: pela TV, no jornal de fim de noite. O policial saindo do tribunal festejando, abraçado ao amigo famoso. Esse mundo é meio louco, né?Passado esse conflito essa união conseguiu render até a criação de um grupo de rep chamado Crips and Bloods. Chegaram mesmo a fazer show em São Paulo. Essa calmaria não significou uma paz completa. Volta e meia acontecem alguns confrontos e o ano de 2002 passou com a possibilidade de a guerra voltar com força total. E assim seguem as violações, roubos de carro, extorsões, assassinatos e principalmente a luta pelo controle do comércio das drogas e armas. E o fornecimento de material humano para as prisões e para os corredores da morte.

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