Guerra não declarada

Janeiro 29, 2009

Após ou em meio as tormentas, uma das coisas que mais me deixa orgulhoso e motivado é o fato de saber que diferentes artigos por mim escritos estão sendo usados como peças fundamentais para diferentes trabalhos. Digo isso pois sempre reclamei da carência de textos que subsidiassem pesquisas e trabalhos que envolvem a cultura Hip Hop e suas diferentes nuances.
Saber que estamos gerando fundamentos sem cortes e sem deturpações me traz a esperança de que as coisas mudem. Dentre os vários artigos que volta e meia recebo mensagens de reconhecimento, um dos mais constantes é justamente uma matéria especial publicada em janeiro deste ano no Viva Favela, que reproduzo abaixo. Nele, falo sobre duas corporações do crime estadunidense, falo dos Crips & Bloods, da “Gangland”, digo, de Los Angeles.
É bom saber que as pessoas consideram o texto um verdadeiro mergulho nas entranhas desses grupos, que quer queiram ou não têm parte da sua história confundida com a difusão mundial do Hip Hop.
Fico feliz de estar contribuindo com os trabalhos de várias pessoas de todo o Brasil, é importante saber que muitos consideram este trabalho uma referência para consulta. Espero que as pessoas usem da melhor maneira e assim possamos prosseguir construindo e ajudando a manter viva a nossa história local e universal.
Entao mais uma vez peço que continuem divulgando os artigos e me enviando mensagens sobre outros assuntos abordados, terei a maior satisfação em interagir com vocês leitores.
Muito obrigado e é isso.
Asé.
 
Guerra não declarada
artigo-guerra-11Dentre os vários temas que perpassam o imaginário dos adeptos e aficcionados da cultura Hip Hop, um em especial se destaca: o das gangues, principalmente as estadunidenses. No Brasil é praticamente inexistente algum indivíduo que não tenha tido essa influência, e alguns até conheceram a cultura Hip Hop através de informações que absorveram em filmes como As Cores da Violência (Colors), Os Donos da Rua (Boyz n’ the Hood) e a América do Medo (La Eme). Ou através de artistas como NWA (Niggaz With Attitude), Ice T, CMW (Compton Most Wanted), Eazy E, Dr Dre, Tupac, DOC, Above The Law, King T, Kid Frost, Da Lench Mob, Bone Thugs and Harmony, Dj Quik, Snoopy Dogg Dog e por aí vai.O Hip Hop é um traço muito forte na cultura das gangues. Em contrapartida, as gangues são apenas um dos milhares de traços que compõem o universo Hip Hop. Lembro de inúmeros bate-papos sobre as origens das gangues estadunidenses. Volta e meia tive acesso às mais variadas informações sobre o tema. Lembro uma vez de afirmar que as californianas Crips e Bloods – as mais conhecidas do mundo – não eram simples gangues e sim autênticas organizações criminosas das ruas. Muitos não acreditaram, criticaram, falavam e gangues e sim autênticas organizações criminosas das ruas. Muitos não acreditaram, criticaram, falavam e até hoje ainda falam.
 
 
 

 

Pode parecer incrível, mas muitas pessoas formam a opinião somente por informações visuais de filmes e videoclipes e não buscam se aprofundar no assunto. Se se aprofundassem teriam noção de alguns equívocos que são copiados.
Tanto Crips como Bloods espalharam seus ideais e símbolos pelo mundo. Seja através de processos migratórios ou de filmes, clipes de rep gangsta e também de outros ritmos que servem de trilha sonora para essas gangues negras de Los Angeles, como o Punk Rock, o Hardcore e músicas tradicionais. Posso citar como um bom exemplo a banda de Punk Rock Offspring e seu orgulho Bloods.
Vale lembrar que a vertente do rep, que é o principal veículo de comunicação das gangues, era chamado gangsta. Obteve grande sucesso pelo mundo inteiro com sua glorificação das armas, violência, drogas e autodestruição, atendendo assim em cheio aos interesses da grande indústria que não aceitava o chamado rep político, de denúncia e da busca por direitos.

O gangsta muito contribuiu para a diversificação musical do rep, porém o cerebral, eu afirmo, foi para o espaço! Serviu também para dar uma nova dimensão aos jovens brancos que cultuavam tanto a cultura das gangues, como esta vertente do rep. Estes ficaram conhecidos como wiggaz ou crioulos brancos (existe até um filme chamado Wiggaz, de 2002, que pode ser utilizado como referência). Nos dias de hoje já se fala inclusive dos White Crips.

Funk e rap   

 

 

artigo-guerra-2Analisando friamente posso dizer que existem muitas semelhanças entre as organizações criminosas negras de Los Angeles e as facções cariocas do tráfico: cores, símbolos, grifes, ostentação, armas… a única diferença real é no que diz respeito à música. Lá o som principal é o rep. Aqui é o Miami Bass ou funk proibidão. Muitos até tentam maquiar e dizer que o pessoal daqui escuta rep. Isso é mentira. Talvez uma meia dúzia escute. E nem com toda a capacidade de criação, manipulação, delírio e fantasia conseguiram até o momento mudar essa realidade. Além disso, em termos de violência, penso que os daqui são “mais criativos” com os seus bondes (ou “drive by” coletivos, dependendo do ponto de vista) e microondas.

Não vou aqui julgar os aspectos negativos. Apenas pretendo contribuir para que pretensos estudiosos e aficcionados tenham a noção das influências dessas gangues e possam pesquisar com mais afinco assuntos que interessam à coletividade Hip Hop. Muitos no Brasil não sabem as origens dos seus trejeitos, gestos, do seu vestuário e muito menos seus significados. Mas lá fora… Cada uma dessas organizações tem suas respectivas cores e marcas.
Cães, tatuagem e dialetos

Os Crips têm como identificação a cor azul e a adoração pela marca de tênis British Knigths (Cavaleiros Britânicos) cujo nome ganha outro significado Blood Killaz (Matadores de Bloods). Já os Bloods utilizam o vermelho. O que muitos não sabem é que bem antes dessas cores ganharem as ruas ainda nas prisões no fim dos anos 50 elas já simbolizavam a Nuestra Familia (Vermelho) e a La Eme (Azul), respectivamente, nos dias atuais, Nuestra Raza (ou Nortenos) e La Eme Original (ou Surenos), que são organizações de origem mexicano-estadunidense.artigo-guerra-3

Para vocês terem uma idéia de como os símbolos e regras são seguidos à risca: um indivíduo que pertence ao Crips jamais falará ou escreverá alguma coisa com a letra “B” . Esta será trocada pelo “C” . O mesmo ocorrerá com um Bloods que nunca utilizará o “C”. Ex: “cigarette muda para bigarette”. E se tiver que escrever alguma coisa com essa letra a mesma será escrita ao contrário, ou riscada, ou ainda transpassada por um tridente apontado para baixo. Existe até uma bíblia própria denominada B. L. O .O .D (Blood Love Overcome Our Depressions, algo como O Amor do Sangue Supera as Nossas Depressões).

Além disso existem expressões que só são usadas por um grupo. Por exemplo, jamais um componente dos Crips artigo-guerra-4escreverá ou falará O.G (Original Gangster – Gângster Original). Ou mesmo chamará um amigo ou amigos de “cachorro” ou “cães” (Dogs), pois ambas são expressões características dos Bloods. Os Crips se tratam um ao outro pelo termo “cuzz” e se auto-intitulam “Gee’s” (Gângsters).

Outros símbolos bastante presentes são os pit bull’s para os Bloods, a Eight Ball (bola preta da sinuca) para os Crips, as tatuagens e os sinais feitos com os dedos e mãos que, juntamente com os dialetos diferenciados, escritas próprias e as cores, são muito importantes para a identificação dos componentes de cada um dos grupos. A principal característica de um Crip é o individualismo.
Já em um Blood o traço principal é a arrogância. Ambas as organizações têm uma verdadeira devoção pelo ódio mútuo, por armas automáticas de assalto e duelos sobre rodas – também conhecidos por Drive By – quando os ataques são feitos a bordo de carros. O grupo de rep CMW (Compton Most Wanted) tem um álbum chamado “Music for drive by” .

Apesar de não comungar das idéias afirmo que musicalmente este é um dos melhores álbuns que já ouvi e seus efeitos são devastadores – não tenho como descrever: procurem e ouçam. Para muitos ter informação e tentar repassá-la é “criar” e ”inventar” . Para mim, pelo contrário, temos o dever de “criar” meios para repassar as informações adquiridas, mesmos se nós não compartilharmos dos pensamentos, pois as histórias devem ou deveriam ser contadas, resgatadas e compreendidas. Mas nem todos têm capacidade ou interesse em fazer isso.
Na minha opinião os Crips e Bloods com o seu ódio e seu extermínio mútuo prestam um grande serviço aos racistas e supremacistas brancos em geral. No final das contas são negros matando negros – iguais sobrepondo iguais.

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Artigo publicado no Viva Favela | Autor: Def Yuri | 22/07/2003 | Seção: Def Yuri