Vai na fé
Julho 16, 2008
Eram duas horas da manhã de um meio de semana qualquer. Após um dia de trabalho, fui para mais uma reunião. É aquele negócio: papo vai, papo vem e o tempo foi passando. Despeço-me do pessoal, entro no carro e vou para casa. Alguns minutos se passam e percebo que a cidade está tranqüila, sem o ar pesado dos últimos tempos. No som, escuto uma fita com umas músicas do Cólera. Estou muito cansado, sorte que não devo levar mais que 30 minutos até minha casa.
Percebo que existe uma obra no meio da avenida. Reduzo a velocidade e sigo o desvio sinalizado logo à frente, e posso ver carros fechando a rua. Uns com sirenes, outros sem. Confesso que fiquei na dúvida: seria a polícia oficial ou não? O pior é que não tenho como ter certeza e muito menos, se for necessário, armar uma fuga. Só me resta abaixar o farol e acender a luz interna. São mais de dez homens, todos de colete e máscaras. Aos gritos, me mandam parar e descer do carro com as mãos para cima.
Um deles pergunta se eu sou da casa. Respondo que não entendia do que ele falava. O cara queria saber se eu era polícia que nem eles. Respondo que não. Perguntou também se eu era do “mundão” e qual era a minha bandeira. Disse que a minha não era o crime. Então, começou o interrogatório: “De onde você vem? Para onde você vai? O que faz da vida?” Vou falando com educação e atento à movimentação.
Reparo que alguns deles estão portando fuzis AK 47; estes não são muito comuns na polícia oficial. Eles dizem que vão revistar o carro; respondo que sem problema, desde que somente um policial fizesse a vistoria e eu acompanhasse. Nesse momento, ao ouvir as gargalhadas, tive confirmadas minhas suspeições: realmente não era a polícia oficial.
Agora não adianta seguir os procedimentos padrão, verificar o número das viaturas, o nome dos agentes, não tem ouvidoria nem outros organismos que, mesmo precariamente, tentam defender os direitos do cidadão. Me puxam pelo braço e dizem para eu ficar na moral que se eu tivesse limpo não iria pegar nada, que eles não eram de esculachar trabalhador. Fiquei pensando: “Aquilo então era o quê?” Percebo que outras pessoas são abordadas, mandam eu não encarar ninguém e olhar para o chão.
Sou levado até uma ladeira e, depois de um tempo subindo, fui recebido por um cara que reiniciou o interrogatório: “De onde você vem? Para onde vai? O que tu faz da vida?” E lá vou eu, sob tensão, respondendo as mesmas perguntas, sabendo que não podia falar uma vírgula diferente. Ao longe, ouço sons de tiros e gritos.
O tempo foi passando. Não tenho idéia de quantos minutos ou mesmo se foi mais de uma hora. De repente, um cara que parecia o chefe falou: “Vai na fé!”
Vocês não têm idéia da complexidade dessa fala. Pode significar: vai morrer, pode ir embora ou sei lá mais o quê. Não tendo saída, tive que perguntar: “Posso ir embora?” “É, cumpadi, pode sair fora. Aí o ‘fiel’ disse que tu tem umas fitas maneiras lá no carro, só som neurótico. É verdade?” Afirmo que é.
Não é incrível? Enquanto eu estava sob interrogatório, o indivíduo estava escutando minhas fitas. Que filho da puta! Um outro disse que eles estavam ali para pegar os “alemão” e que não tem idéia, se for polícia ou rival vai morrer. Também disse que ali ninguém era ladrão péla-saco, cuzão que apavora o povão, que apavora morador. Ali era o tráfico. Enquanto desço pela rua, vários carros passam por mim com sirenes e homens fortemente armados aos gritos de “Já é! Já é!”
Chego até onde estava a blitz e vejo meu carro parado no mesmo lugar, inclusive com o alerta ligado. Próximo, estava um taxista que deveria ter seus 60 anos. Ele tremia e dizia que foi o pior susto que tinha passado. Olho no interior do carro e vejo que as fitas estavam mexidas mas, a princípio, não faltava nada. Ainda me refazendo do susto, ligo o carro e continuo a caminho de casa. Passado uns quatro quarteirões, o que vejo na minha frente? Carros com sirenes ligadas e vários homens armados. “Merda! O que seria agora?”
Mais uma vez em situação de impotência, abaixo o farol e acendo a luz interna. Recebo o comando de parar. Ao ver os uniformes e vários indivíduos portando colts M-16, constato que é uma blitz da polícia oficial. Um deles me manda desembarcar e pergunta: “É da casa?” Respondo que não entendo a pergunta. “Tu é polícia?” Respondo que não. Pergunta se sou do lado errado. Respondo que não. Enquanto checam meus documentos e o carro é revistado, eles iniciam um interrogatório me perguntando: “De onde você vem? Para onde vai? O que você faz da vida? O que eu estava fazendo naquele local, aquela hora?” Confesso para vocês que me deu vontade de rir. Respondo que tinha acabado de ser abordado em uma blitz e que fiquei retido nela por cerca de uma hora.
Os policiais dizem que estão naquele local há mais de três horas e que não tem nenhuma outra blitz na região. Assim que ele termina de falar, todos podem ouvir sons de tiros, porém continuam falando como se nada tivesse acontecido. Um outro policial se mostra meio confuso e nervoso. Percebo que ele almeja começar uma discussão por qualquer motivo; para evitar mais confusão, digo que todos estão com razão e que eu devia estar ficando maluco.
Falo que estava cansado por um dia estressante de trabalho e pergunto se eles já tinham terminado o trabalho, pois já eram quase 4 horas da manhã. Nesse instante, o policial que estava revistando o carro disse: ”Pô, fita, várias fitas maneiras! Me amarro em Rep e em Hardcore.” Ao ouvir isso, fico pensando: “Tem coisas que só acontecem com determinadas pessoas e eu sou uma delas!” Me devolveram os documentos e pediram desculpa pelo incômodo, dizendo que aquilo era apenas uma medida de segurança para minha própria proteção e que eu não perdi nada, apenas ganhei.
Até agora penso o que eu teria ganho. Afirmam também que estão na “pista” para passar o cerol na vagabundagem, que a deles não é esculachar “marmiteiro” e que eles são do bem. Agradeço a compreensão e pergunto se posso ir embora. E um que parecia comandar a operação me responde: “Vai na fé!”
“Para o sistema, rapper bom é rapper morto” – K.A.R