Outro lado do paraíso

Julho 16, 2008

Este artigo é sobre uma das passagens mais marcantes da minha vida até o momento. Seguindo conselhos, os nomes das pessoas e locais diretamente envolvidos serão alterados para que os mesmos não sofram algum tipo de retaliação, incômodo ou coisa parecida.

No último dia 17, fui para o Caribe, mais precisamente para a cidade de Cartagena de Índias, Colômbia, patrimônio histórico da humanidade. O lugar é um dos mais bonitos que já vi; são praias, fortificações e construções preservadas, um verdadeiro museu a céu aberto. Sem falar do povo e seus costumes; estes, sem sombra de dúvida, são muito, mas muito parecidos com os nossos. Mas não falarei do paraíso…

Saí do Rio torcendo para que pudesse conhecer algo a mais deste país vizinho, cujas informações desencontradas só aumentam o preconceito e a ignorância em todos nós, brasileiros. Fui convidado para participar como debatedor de uma mesa de controvérsias do Fórum Mundial Social Temático (de 16 a 20 de junho de 2003), cujo tema era: Guerra, economia e desenvolvimento.

No dia 18, saí do hotel com várias coisas na cabeça além da apresentação da instituição da qual faço parte. Confesso que a minha fase, emocionalmente falando, não era das melhores. Mesmo assim, como diz o filósofo Wallid Ismail – tempo ruim o tempo todo. Alguns minutos no trânsito e cheguei ao centro de convenções de Cartagena, onde pude constatar todo rigor e clima “conflitante”: após revista pessoal e detetores de metal, foram 15 longos minutos até que o “terrorista” aqui pudesse ser corretamente identificado e credenciado. Só depois foi possível seguir para o auditório Barahona.

A mesa era composta por acadêmicos da Espanha, Cuba e Colômbia, portanto eu era o único “alienígena”. Posso dizer que o resultado do debate foi além do esperado; foram 3 horas de atividade e a resposta do público presente foi muito boa. Pensem bem, uma língua diferente, um estilo diferente, mas o recado foi dado.

Quando estava indo embora, fui abordado por um casal negro de aparência muito simples. A mulher, que chamarei de Anastácia, foi logo me pedindo desculpas por não falar português. Respondi que não tinha problema e que tentaríamos nos entender. O homem, chamarei de Markus. Ela falou que ambos eram desplazados (desterrados ou deslocados) e, olhando nos meus olhos, aquela mulher de pouco mais de 1 metro e meio se transformou em gigante tal a energia que emanava.

Disse que eu era o único igual a eles naquele evento e que somente eu seria capaz de dar visibilidade ao problema dos desplazados. Aquele pedido mais parecia um pedido de misericórdia, os olhos deles estavam marejados. Aquilo mexeu comigo, mexeu com a minha alma pois mesmo se nada me falassem, eu já estava propenso a ir até o inferno, quanto mais ouvindo o sofrimento da população de um bairro nas cercanias da cidade. Os pedidos de visita e ajuda até então tinham sido ignorados por muitos, pelos mesmos que discutiam à exaustão o tema dos desplazados.

 Marquei para o dia seguinte a visita e ambos se mostraram felizes. Anastácia era mais comunicativa, Markus mais calado e eu percebia que analisava a minha fala e o meu interesse. Durante o resto da noite só consegui pensar naquilo e em como seria o dia seguinte. Não iria deixá-los na mão; é característica minha cumprir tudo aquilo a que me proponho.

No dia 19, logo cedo tentei encontrar algum brasileiro a quem pudesse comunicar minhas intenções, mas não encontrei ninguém. E durante o café da manhã conversei com o Ignacio Aziz, da Anistia Internacional, Londres, que se mostrou muito interessado porém tinha compromissos e frisou que, apesar de tudo, eu poderia estar me metendo em uma região de conflito. Aliás, todos que encontrei e com quem especulei sobre o bairro – funcionários do hotel, acadêmicos, colombianos em geral -, todos sem exceção me colocaram parcialmente a par da situação de conflito, sem me passar maiores detalhes de como era o cenário real. O máximo que diziam era que o lugar era perigoso, porém os confrontos estavam na região rural (gravem isso).  

Determinado, comuniquei a minha família e passei um e-mail para duas pessoas que além de meus “patrões”, considero meus amigos; falo de Pedro Strozemberg e Carlos Costa. Avisei que iria até uma região de conflito e, se até o dia seguinte pela manhã, não entrasse em contato era porque as coisas não tinham dado certo. 

Parti para o centro de convenções e um pouco depois da hora combinada encontrei Markus, que ficou feliz em me ver e foi logo perguntando se eu queria mesmo acompanhá-lo. Ele deve ter achado que eu iria pipocar (voltar atrás), mas eu disse que sim. Então, encontramos uma outra mulher, esta bem jovem e bela, que chamarei de Rosa. Saímos os três do centro de convenções e enquanto andávamos, eu olhava para ver se encontrava alguém conhecido para deixar um “rastro”, mas não consegui. Mencionei se iríamos pegar ônibus, eles disseram que não, pois demoraria muito e que, de táxi, eram só uns 20 minutos.

Estando isso decidido, passamos a tentar pegar um táxi e praticamente todos os motoristas se negavam a ir ao local. Após um tempo, um motorista disse que nos levaria até o destino com a condição de nos deixar apenas na estrada. Falei para os dois que tudo bem. Ao entrar no carro, Markus queria que eu fosse ao lado do motorista, mas optei por ir no banco de trás, ao lado da Rosa. Essa escolha se deu pelo fato de que, se houvesse algum imprevisto, eu teria como oferecer algum tipo de reação, pois os dois homens estavam na frente e isso me permitia acompanhar o movimento de todos no carro. Assim fomos.

Enquanto falávamos, eu anotava tudo e observava que a paisagem ia mudando incrivelmente; posso afirmar que o forte de São Filipe é o divisor entre a Cartagena turística e histórica e a real. Fomos seguindo por uma avenida que parecia não ter fim. O tempo passando e na minha cabeça só vinha o pensamento de que tinha me enfiado em uma furada e que não ia prestar. 

Afinal, gringo, sem falar o idioma, com três pessoas estranhas, e literalmente todos com quem tive contato anteriormente tentaram me demover da idéia desse “passeio”. O trânsito era muito complicado; vários ônibus coloridos, motonetas, carros, um verdadeiro caos. Lembrava aqueles filmes que mostram Saigon ou Ho chi mim, sabem do que estou falando? E os 20 minutos de táxi foram aumentando e aumentando, a paisagem do lado de fora estava cada vez mais diferente – definitivamente colombianos, mineiros e gaúchos têm um sério problema com distância e tempo, tudo é sempre logo ali… Logo ali depois do fim do mundo.

Enfim, chegamos ao fim da avenida, entramos à direita em um trevo e, a partir de então, só tinha verde, fazendas, plantações. Definitivamente eu estava em uma área rural (lembram do que pedi para gravar anteriormente?). Após um tempo na estrada, posso dizer que meus nervos estavam a ponto de explodir, tal a adrenalina. A cada aproximação de curva, uma idéia nada boa me passava pela cabeça. Enfim, paramos na estrada em um lugar no meio do nada. Ao descer do carro, pude olhar a minha volta e constatar o óbvio: estava no outro lado do paraíso.

Seguimos por um caminho de terra até chegarmos a uma cerca, depois lama, mato, descampado e no meio de uma vegetação, estava parte do bairro; uma ponte de madeira era a entrada. Várias casas de madeira, uma ou outra de tijolos, o coaxar dos sapos era a trilha sonora.

As condições da população eram as piores possíveis: crianças corriam e brincavam na lama, idosos conversavam e todos me olhavam a princípio com apreensão e desconfiança, depois com alegria. Afinal, nunca tinham visto um brasileiro e eu era brasileiro, porém com cara de colombiano, daí a desconfiança inicial. Talvez pensassem que eu era algum tipo de inimigo, sei lá.

E pensar que, dentro do táxi, um dos maiores dilemas era se permanecia com o crachá do Fórum Social Mundial ou se o retirava, pois com o crachá eu era um gringo que poderia ser ou não aceito (entendem?). Sem ele, eu era um colombiano com uma camisa azul e bermuda e a minha dúvida era: e se no local não puder usar camisa azul, pois a cor representa este ou aquele lado (viver no Rio nos habitua a esses pequenos detalhes).

Fui fazendo as perguntas que apareciam e percebi que algumas eram devidamente ignoradas; mesmo assim, eu insistia e me fazia de gringo curioso. Perguntei como era a ação da polícia no local, se ela abusava do poder ou cometia alguma arbitrariedade, já que em Cartagena tem uma propaganda de polícia cidadã, e a resposta foi que a polícia passava dia sim, dia não, ou simplesmente não passava. E que não perturbava os moradores por considerá-los muito miseráveis; já a população tem um respeito pelas autoridades e este não vem do medo simplesmente e sim da vontade de viver em paz.

Para a melhor compreensão de vocês, leitores, a população do bairro é composta na sua imensa maioria por desplazados e alguns pobres. Para quem não tem noção, os desplazados são vítimas de um genocídio, nem sei como qualificar… Pessoas são expulsas de cidades ou mesmo cidades inteiras são evacuadas com uso da força por dementes de esquerda ou de direita. Para se ter uma idéia, imaginem que um comando do tráfico aqui do Rio invadisse a favela de um outro e obrigasse todos os moradores a saírem dali em um prazo de 3 horas, um dia, sei lá. Imaginaram?

Agora, imaginem estas pessoas vagando sem rumo, sem sua história, sem seus bens, sem nada. Carregando quando muito as roupas do corpo, os filhos ou parentes. O Markus foi desplazado por grupos da direita e teve que sofrer muito junto com seus oito filhos até chegar em Cartagena. Já Anastácia e seus seis filhos foram alvos da esquerda. Muito sofrimento para sobreviver, perde-se tudo para preservar a vida.

Agora, pensem que lá são cidades que sofrem esse tipo de ação.  Além de vítimas da violência, os desplazados sofrem com a falta de trabalho, educação e, o que considero pior de tudo, em decorrência de terem sido expulsos dos seus locais de origem, carregam o estigma de pertencerem a algum grupo “ilegal/subversivo”, ou mesmo de serem violentos.

Outro detalhe importante e igual ao Brasil é a questão do racismo. É uma população praticamente invisível. Não sei onde fiz a anotação do número exato de desplazados em toda a Colômbia; é algo extremamente absurdo. São populações inteiras arrancadas de suas terras e espalhadas por todo o país. O Markus e a Anastácia são oriundos do departamento (estado) de Chocó e hoje vivem nos arredores de Cartagena, que é a capital do departamento (estado) de Bolívar. Não tenho noção da distância exata, porém olhando para o mapa da Colômbia e tentando fazer uma comparação com o Brasil, seria como se eles tivessem sido expulsos do Rio e tenham ido parar no Paraná.

Agora que fui lá, afirmo – antes eu apenas achava e/ou especulava, portanto, digo: não importa o lado. Esquerda e Direita é tudo a mesma merda! Ambos subjugam o povo e cometem todos os tipos de atrocidades. Reparem que ainda não estou falando das bandillas (gangues; facções) do tráfico e crimes em geral, que se posicionam de maneira similar. Se bem que em Cartagena paira uma espécie de armistício; todos os grupos estão presentes, porém parece que nenhum quer ter o controle. É estranho, parece coisa para inglês ver, digo, brasileiro.

E pensar que muitos palhaços se enfeitam no Brasil com adereços relacionados a alguns desses grupos ditos libertadores. A estes peço que acordem, e se, além deste equívoco, ainda forem usuários de drogas, saibam que injetam dinheiro na Esquerda e na Direita, sem distinção. São coniventes, digo cúmplices, com o duplo genocídio, o Colombiano e o Brasileiro. Que pelo menos alguns do Hip Hop tenham discernimento e reflitam sobre a gravidade do tema.

Além dos oprimidos, fiquei sabendo que existiam desertores de todos os lados opressores morando no bairro e esses temiam pois agora são alvos dos antigos inimigos e dos ex-amigos, e pensam que serão delatados ou coisa parecida. E aí você percebe que o “viver na merda” é democrático, todos os remanescentes da guerra, opressores e oprimidos, estão juntos em um lugar abandonado, 12.000 pessoas tentado esquecer o passado e recomeçar a vida de uma outra maneira. A situação é tão triste que não soube de nenhum tipo de ressentimento entre os que lá moram, o que seria natural.

Um grupo te expulsou de casa e depois um dos participantes vai morar no mesmo lugar que você. Sei lá, se houvesse tensão seria explicado ou justificado. Mas não. Havia um misto de tristeza e esperança no olhar dos que me receberam. Afinal, segundo eles, tudo isso foi tornado público para os participantes do evento, mas fui o primeiro brasileiro a colocar os pés no bairro.

Durante a visita, continuei perguntando sobre situações ligadas à violência e como era à noite em termos de segurança. Me explicaram que existia uma patrulha cívica. Como assim, patrulha cívica, perguntei? Falaram que alguns moradores fazem a vigilância do bairro, usam uniforme e, segundo me informaram, não usam armas apenas cassetetes. Este grupo é mantido com contribuições voluntárias da própria comunidade. E mesmo se a pessoa não ajudar, não ficará sem segurança, digo vigilância.

Enquanto ouvia as explicações, vi uma espécie de sirene em um poste e perguntei do que se tratava. Não obtive resposta. Continuei insistindo e Markus disse que era um sistema de alarme da comunidade; quando dispara, todos saem de casa: homens, mulheres e crianças com paus, pedras, panelas, com o que tiver a mão e não importa a hora. Ele também frisou que aquilo era solidariedade.

Continuamos a andar e sem querer fazer comparações. Mas muitas favelas no Rio seriam um verdadeiro luxo para aquelas pessoas; lá não tem nenhuma iniciativa dos governos municipal, estadual, federal ou mesmo ongs. Não tem um posto de saúde, não tem nada. As únicas iniciativas são promovidas por pessoas como Rosa, Markus e Anastácia, entre outros abnegados, que fazem das tripas coração para levantar a auto-estima dos filhos de desplazados bem como do restante da comunidade. Para ser mais exato, o único organismo que atende o local é estrangeiro, ligado à ONU e mantém o envio de alimentos para as crianças.

Todas aquelas imagens foram sendo misturadas na minha cabeça e eu procurava gravar o máximo possível, já que não tenho máquina fotográfica e muito menos consegui arrumar uma. É difícil descrever; aquele lugar poderia ser em Angola, Palestina, Camboja e até aqui no nosso Nordeste. Porém, o ar da guerra torna o nosso ar muito mais palatável. Muitos insistem em dizer que o Rio está uma Colômbia. Afirmo que isso é um exagero; nossa cidade maravilhosa pode estar no caminho, mas está longe de ser igual. Aliás, podemos até comparar o Rio com Medellín, Calí, mas jamais com um país. Digo que também vivenciamos uma guerra, a que denomino “miojo”, pois é instantânea e quando acabam as escaramuças fica apenas a sensação da violência no ar.

Na Colômbia não. Lá são 40 anos de guerra e a sociedade vive a partir dessa lógica, em que o militarismo é um traço bastante forte, não importa o lado. Se eu pudesse resumir, diria que a guerra na Colômbia é com G maiúsculo. Lá independente do lado, prevalecem a politização e os ideais, esta é uma característica marcante, enquanto no Rio muitos são os alienados, que só atentam para a nossa guerra quando estão inseridos nela ou quando ela ganha os noticiários.

Lá, todos sabem o que acontece e os motivos políticos. Talvez em decorrência disso, percebi uma grande repulsa no que tange respeito às drogas, pelo menos nos locais mais complicados por que passei. Daí também a revolta contra as bandillas (gangues/facções) que infernizam a vida de alguns locais. As comunidades, porém, resistem bravamente, não se intimidando.

Quando falo isso, quero que entendam que, além das guerrilhas de esquerda, pára-militares de direita (confesso que na minha opinião estes grupos são literalmente iguais), existem as bandillas do tráfico, bandillas de ladrões e em último caso os encapuchados (grupos de extermínio), que agem contra todos e, segundo informações, contam com apoio da polícia.

Em Cartagena, não detectei a existência de milícias populares, que em defesa das suas comunidades se confrontam com narcotraficantes, pára-militares, policiais, forças armadas e guerrilheiros. Vale frisar que no passado as milícias eram o apoio urbano às guerrilhas de esquerda; elas eram alinhadas, não aliadas. Porém, nos dias de hoje, estes combates ocorrem inclusive contra guerrilheiros de esquerda ou com outras milícias. Tive a oportunidade de conhecer um dos ex-líderes do MIR – COAR (Movimento Independente Revolucionário – Comandos Armados de Medellín), porém este é outro papo, vai virar artigo também.

Ao sair do bairro, minha cabeça era tomada por inúmeros questionamentos e uma grande vontade. A de que todos nós não deixemos o Rio chegar naquele estado. Vivenciamos uma guerra sangrenta, porém acredito que esta seja reversível ou freável; já no país irmão… E eu estava ali, percebendo os efeitos de uma forte mudança “climática” e pensando que, não muito longe de onde estava, a situação era de total descontrole e trevas. Falo de locais como Carmem de Bolívar, Zambrano, San Racinto, San Juan Nepomuceno e tantos outros, situados a, no máximo, duas horas de Cartagena.

Nestes locais são intensos os combates de todos contra todos, as disputas são casa a casa, quarteirão a quarteirão. Lá não tem esse papo de – “perdi, chefe!” Ou “não me esculacha não!” Lá quem tá formado está até o fim e em razão disso a proporção é de sete mulheres para cada homem (existem controvérsias com relação a esses números por isso optei por colocar o que foi mais constante). Em toda a minha estada, pude constatar que os policiais, os militares e os outros eram muito jovens.

Ao ir embora, insisti que queria pegar um ônibus, porém sutilmente meus companheiros falaram que não, que demoraria muito e etc… Na estrada, passavam vários caminhões, alguns ônibus e táxis ocupados. Um desses parou e estava com dois homens que perguntaram para onde iríamos. Markus respondeu e foi logo entrando no carro com Rosa. Fui o último a entrar.

Seguimos pela estrada em silêncio. Pela janela, fui vendo o bairro se distanciando sob o entardecer. Me encontrava em um misto de tristeza pelo que vira e felicidade por poder ajudar a dar visibilidade ao problema dos desplazados. Após uns minutos, um dos homens desceu do carro e Markus ficou no seu lugar. O clima ficou menos tenso e a viagem continuou em meio ao caos do trânsito, calor e poeira de algumas obras.

Eu dizia ao Markus que estava cronometrando o tempo de percurso; isso fazia com que todos no carro dessem risadas. Falei que já estávamos em 48 minutos. À nossa frente, o imponente forte de São Filipe, a divisão entre os dois lados do paraíso. Enquanto contemplava a vista, percebi que o trânsito foi ficando cada vez mais lento até formar um engarrafamento. Por entre os carros começaram a passar soldados do Exército, muito bem equipados. Nos outros veículos, as pessoas agiam com uma incrível normalidade.

E foram passando um, dois, dez, vinte, uma porrada de soldados. O motorista disse que achava que era uma manifestação de desempregados. Me causou estranheza, pois nenhum dos militares carregava equipamentos de CDC (controle de distúrbio civil: mascaras de gás, cassetetes, escudos, cachorros e etc.); estavam com fuzis, capacetes, coletes, resumindo não estavam para brincadeira. Ver aquilo me remetia às cenas do filme Missing (Desaparecido). O carro começou a andar lentamente; enfim, pude ver a manifestação que se encontrava encurralada em um pequeno trecho. O motorista seguiu por outro caminho e chegamos nas proximidades do centro de convenções, que parecia ser outro país.

Deixei meus novos amigos no centro de convenções e continuei no táxi rumo ao hotel. O motorista, que até então não tinha falado muita coisa, me perguntou o que eu tinha ido fazer no bairro, e se eu tinha noção de que lá era perigoso. Respondi que tinha ido apenas conhecer. Ele perguntou se eu já tinha ouvido falar nos pára-militares? E que eu vinha de uma área da AUC… e que poderia ter arrumado um grande problema? Até aí ele não tinha me contado nenhuma novidade, a não ser o fato de dizer quem “cuidava” da região.

Confesso que não fui com a cara do sujeito e marquei a cara dele com a mesma precisão que marcou a minha; em bom carioquês, digo que ele estava mandando muita letra torta, era mais fácil falar logo que era de tal grupo e sei lá mais o quê… Chegando no hotel, enfim encontrei outros brasileiros e demais participantes. Como notícia ruim corre rápido, em muito pouco tempo várias pessoas sabiam da minha aventura e acabei sendo contemplado com o apelido de “El Loco”, inclusive pelo amigo do MIR – COAR.

Somente no dia seguinte, meus companheiros na visita abriram o jogo para mim e responderam as perguntas que não tinha sido respondidas, falando inclusive sobre a política vigente. Graças aos deuses, pude apresentá-los a vários participantes do FSMT e perceber o interesse real naquele drama. São tantas coisas que eu poderia despejar neste artigo, tantas impressões sobre tantos lugares que formam o outro lado do paraíso, que nem sei…

Espero que o mundo reconheça e ajude os desplazados, espero que não deixemos o nosso Rio, o nosso Brasil chegar nesse estágio. Espero que um dia uma parcela significativa da cultura Hip Hop não se entorpeça com o lixo estadunidense e passe a ver os nossos próprios problemas, os problemas da América da qual fazemos parte – a América Latina.

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 11/07/2003 | Seção: Def Yuri

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