Outro lado do paraíso
Julho 16, 2008
Este artigo é sobre uma das passagens mais marcantes da minha vida até o momento. Seguindo conselhos, os nomes das pessoas e locais diretamente envolvidos serão alterados para que os mesmos não sofram algum tipo de retaliação, incômodo ou coisa parecida.
No último dia 17, fui para o Caribe, mais precisamente para a cidade de Cartagena de Índias, Colômbia, patrimônio histórico da humanidade. O lugar é um dos mais bonitos que já vi; são praias, fortificações e construções preservadas, um verdadeiro museu a céu aberto. Sem falar do povo e seus costumes; estes, sem sombra de dúvida, são muito, mas muito parecidos com os nossos. Mas não falarei do paraíso…
Saí do Rio torcendo para que pudesse conhecer algo a mais deste país vizinho, cujas informações desencontradas só aumentam o preconceito e a ignorância em todos nós, brasileiros. Fui convidado para participar como debatedor de uma mesa de controvérsias do Fórum Mundial Social Temático (de 16 a 20 de junho de 2003), cujo tema era: Guerra, economia e desenvolvimento.
No dia 18, saí do hotel com várias coisas na cabeça além da apresentação da instituição da qual faço parte. Confesso que a minha fase, emocionalmente falando, não era das melhores. Mesmo assim, como diz o filósofo Wallid Ismail – tempo ruim o tempo todo. Alguns minutos no trânsito e cheguei ao centro de convenções de Cartagena, onde pude constatar todo rigor e clima “conflitante”: após revista pessoal e detetores de metal, foram 15 longos minutos até que o “terrorista” aqui pudesse ser corretamente identificado e credenciado. Só depois foi possível seguir para o auditório Barahona.
A mesa era composta por acadêmicos da Espanha, Cuba e Colômbia, portanto eu era o único “alienígena”. Posso dizer que o resultado do debate foi além do esperado; foram 3 horas de atividade e a resposta do público presente foi muito boa. Pensem bem, uma língua diferente, um estilo diferente, mas o recado foi dado.
Quando estava indo embora, fui abordado por um casal negro de aparência muito simples. A mulher, que chamarei de Anastácia, foi logo me pedindo desculpas por não falar português. Respondi que não tinha problema e que tentaríamos nos entender. O homem, chamarei de Markus. Ela falou que ambos eram desplazados (desterrados ou deslocados) e, olhando nos meus olhos, aquela mulher de pouco mais de 1 metro e meio se transformou em gigante tal a energia que emanava.
Disse que eu era o único igual a eles naquele evento e que somente eu seria capaz de dar visibilidade ao problema dos desplazados. Aquele pedido mais parecia um pedido de misericórdia, os olhos deles estavam marejados. Aquilo mexeu comigo, mexeu com a minha alma pois mesmo se nada me falassem, eu já estava propenso a ir até o inferno, quanto mais ouvindo o sofrimento da população de um bairro nas cercanias da cidade. Os pedidos de visita e ajuda até então tinham sido ignorados por muitos, pelos mesmos que discutiam à exaustão o tema dos desplazados.
Marquei para o dia seguinte a visita e ambos se mostraram felizes. Anastácia era mais comunicativa, Markus mais calado e eu percebia que analisava a minha fala e o meu interesse. Durante o resto da noite só consegui pensar naquilo e em como seria o dia seguinte. Não iria deixá-los na mão; é característica minha cumprir tudo aquilo a que me proponho.
No dia 19, logo cedo tentei encontrar algum brasileiro a quem pudesse comunicar minhas intenções, mas não encontrei ninguém. E durante o café da manhã conversei com o Ignacio Aziz, da Anistia Internacional, Londres, que se mostrou muito interessado porém tinha compromissos e frisou que, apesar de tudo, eu poderia estar me metendo em uma região de conflito. Aliás, todos que encontrei e com quem especulei sobre o bairro – funcionários do hotel, acadêmicos, colombianos em geral -, todos sem exceção me colocaram parcialmente a par da situação de conflito, sem me passar maiores detalhes de como era o cenário real. O máximo que diziam era que o lugar era perigoso, porém os confrontos estavam na região rural (gravem isso).
Determinado, comuniquei a minha família e passei um e-mail para duas pessoas que além de meus “patrões”, considero meus amigos; falo de Pedro Strozemberg e Carlos Costa. Avisei que iria até uma região de conflito e, se até o dia seguinte pela manhã, não entrasse em contato era porque as coisas não tinham dado certo.
Parti para o centro de convenções e um pouco depois da hora combinada encontrei Markus, que ficou feliz em me ver e foi logo perguntando se eu queria mesmo acompanhá-lo. Ele deve ter achado que eu iria pipocar (voltar atrás), mas eu disse que sim. Então, encontramos uma outra mulher, esta bem jovem e bela, que chamarei de Rosa. Saímos os três do centro de convenções e enquanto andávamos, eu olhava para ver se encontrava alguém conhecido para deixar um “rastro”, mas não consegui. Mencionei se iríamos pegar ônibus, eles disseram que não, pois demoraria muito e que, de táxi, eram só uns 20 minutos.
Estando isso decidido, passamos a tentar pegar um táxi e praticamente todos os motoristas se negavam a ir ao local. Após um tempo, um motorista disse que nos levaria até o destino com a condição de nos deixar apenas na estrada. Falei para os dois que tudo bem. Ao entrar no carro, Markus queria que eu fosse ao lado do motorista, mas optei por ir no banco de trás, ao lado da Rosa. Essa escolha se deu pelo fato de que, se houvesse algum imprevisto, eu teria como oferecer algum tipo de reação, pois os dois homens estavam na frente e isso me permitia acompanhar o movimento de todos no carro. Assim fomos.
Enquanto falávamos, eu anotava tudo e observava que a paisagem ia mudando incrivelmente; posso afirmar que o forte de São Filipe é o divisor entre a Cartagena turística e histórica e a real. Fomos seguindo por uma avenida que parecia não ter fim. O tempo passando e na minha cabeça só vinha o pensamento de que tinha me enfiado em uma furada e que não ia prestar.
Afinal, gringo, sem falar o idioma, com três pessoas estranhas, e literalmente todos com quem tive contato anteriormente tentaram me demover da idéia desse “passeio”. O trânsito era muito complicado; vários ônibus coloridos, motonetas, carros, um verdadeiro caos. Lembrava aqueles filmes que mostram Saigon ou Ho chi mim, sabem do que estou falando? E os 20 minutos de táxi foram aumentando e aumentando, a paisagem do lado de fora estava cada vez mais diferente – definitivamente colombianos, mineiros e gaúchos têm um sério problema com distância e tempo, tudo é sempre logo ali… Logo ali depois do fim do mundo.
Enfim, chegamos ao fim da avenida, entramos à direita em um trevo e, a partir de então, só tinha verde, fazendas, plantações. Definitivamente eu estava em uma área rural (lembram do que pedi para gravar anteriormente?). Após um tempo na estrada, posso dizer que meus nervos estavam a ponto de explodir, tal a adrenalina. A cada aproximação de curva, uma idéia nada boa me passava pela cabeça. Enfim, paramos na estrada em um lugar no meio do nada. Ao descer do carro, pude olhar a minha volta e constatar o óbvio: estava no outro lado do paraíso.
Seguimos por um caminho de terra até chegarmos a uma cerca, depois lama, mato, descampado e no meio de uma vegetação, estava parte do bairro; uma ponte de madeira era a entrada. Várias casas de madeira, uma ou outra de tijolos, o coaxar dos sapos era a trilha sonora.
As condições da população eram as piores possíveis: crianças corriam e brincavam na lama, idosos conversavam e todos me olhavam a princípio com apreensão e desconfiança, depois com alegria. Afinal, nunca tinham visto um brasileiro e eu era brasileiro, porém com cara de colombiano, daí a desconfiança inicial. Talvez pensassem que eu era algum tipo de inimigo, sei lá.
E pensar que, dentro do táxi, um dos maiores dilemas era se permanecia com o crachá do Fórum Social Mundial ou se o retirava, pois com o crachá eu era um gringo que poderia ser ou não aceito (entendem?). Sem ele, eu era um colombiano com uma camisa azul e bermuda e a minha dúvida era: e se no local não puder usar camisa azul, pois a cor representa este ou aquele lado (viver no Rio nos habitua a esses pequenos detalhes).
Fui fazendo as perguntas que apareciam e percebi que algumas eram devidamente ignoradas; mesmo assim, eu insistia e me fazia de gringo curioso. Perguntei como era a ação da polícia no local, se ela abusava do poder ou cometia alguma arbitrariedade, já que em Cartagena tem uma propaganda de polícia cidadã, e a resposta foi que a polícia passava dia sim, dia não, ou simplesmente não passava. E que não perturbava os moradores por considerá-los muito miseráveis; já a população tem um respeito pelas autoridades e este não vem do medo simplesmente e sim da vontade de viver em paz.
Para a melhor compreensão de vocês, leitores, a população do bairro é composta na sua imensa maioria por desplazados e alguns pobres. Para quem não tem noção, os desplazados são vítimas de um genocídio, nem sei como qualificar… Pessoas são expulsas de cidades ou mesmo cidades inteiras são evacuadas com uso da força por dementes de esquerda ou de direita. Para se ter uma idéia, imaginem que um comando do tráfico aqui do Rio invadisse a favela de um outro e obrigasse todos os moradores a saírem dali em um prazo de 3 horas, um dia, sei lá. Imaginaram?
Agora, imaginem estas pessoas vagando sem rumo, sem sua história, sem seus bens, sem nada. Carregando quando muito as roupas do corpo, os filhos ou parentes. O Markus foi desplazado por grupos da direita e teve que sofrer muito junto com seus oito filhos até chegar em Cartagena. Já Anastácia e seus seis filhos foram alvos da esquerda. Muito sofrimento para sobreviver, perde-se tudo para preservar a vida.
Agora, pensem que lá são cidades que sofrem esse tipo de ação. Além de vítimas da violência, os desplazados sofrem com a falta de trabalho, educação e, o que considero pior de tudo, em decorrência de terem sido expulsos dos seus locais de origem, carregam o estigma de pertencerem a algum grupo “ilegal/subversivo”, ou mesmo de serem violentos.
Outro detalhe importante e igual ao Brasil é a questão do racismo. É uma população praticamente invisível. Não sei onde fiz a anotação do número exato de desplazados em toda a Colômbia; é algo extremamente absurdo. São populações inteiras arrancadas de suas terras e espalhadas por todo o país. O Markus e a Anastácia são oriundos do departamento (estado) de Chocó e hoje vivem nos arredores de Cartagena, que é a capital do departamento (estado) de Bolívar. Não tenho noção da distância exata, porém olhando para o mapa da Colômbia e tentando fazer uma comparação com o Brasil, seria como se eles tivessem sido expulsos do Rio e tenham ido parar no Paraná.
Agora que fui lá, afirmo – antes eu apenas achava e/ou especulava, portanto, digo: não importa o lado. Esquerda e Direita é tudo a mesma merda! Ambos subjugam o povo e cometem todos os tipos de atrocidades. Reparem que ainda não estou falando das bandillas (gangues; facções) do tráfico e crimes em geral, que se posicionam de maneira similar. Se bem que em Cartagena paira uma espécie de armistício; todos os grupos estão presentes, porém parece que nenhum quer ter o controle. É estranho, parece coisa para inglês ver, digo, brasileiro.
E pensar que muitos palhaços se enfeitam no Brasil com adereços relacionados a alguns desses grupos ditos libertadores. A estes peço que acordem, e se, além deste equívoco, ainda forem usuários de drogas, saibam que injetam dinheiro na Esquerda e na Direita, sem distinção. São coniventes, digo cúmplices, com o duplo genocídio, o Colombiano e o Brasileiro. Que pelo menos alguns do Hip Hop tenham discernimento e reflitam sobre a gravidade do tema.
Além dos oprimidos, fiquei sabendo que existiam desertores de todos os lados opressores morando no bairro e esses temiam pois agora são alvos dos antigos inimigos e dos ex-amigos, e pensam que serão delatados ou coisa parecida. E aí você percebe que o “viver na merda” é democrático, todos os remanescentes da guerra, opressores e oprimidos, estão juntos em um lugar abandonado, 12.000 pessoas tentado esquecer o passado e recomeçar a vida de uma outra maneira. A situação é tão triste que não soube de nenhum tipo de ressentimento entre os que lá moram, o que seria natural.
Um grupo te expulsou de casa e depois um dos participantes vai morar no mesmo lugar que você. Sei lá, se houvesse tensão seria explicado ou justificado. Mas não. Havia um misto de tristeza e esperança no olhar dos que me receberam. Afinal, segundo eles, tudo isso foi tornado público para os participantes do evento, mas fui o primeiro brasileiro a colocar os pés no bairro.
Durante a visita, continuei perguntando sobre situações ligadas à violência e como era à noite em termos de segurança. Me explicaram que existia uma patrulha cívica. Como assim, patrulha cívica, perguntei? Falaram que alguns moradores fazem a vigilância do bairro, usam uniforme e, segundo me informaram, não usam armas apenas cassetetes. Este grupo é mantido com contribuições voluntárias da própria comunidade. E mesmo se a pessoa não ajudar, não ficará sem segurança, digo vigilância.
Enquanto ouvia as explicações, vi uma espécie de sirene em um poste e perguntei do que se tratava. Não obtive resposta. Continuei insistindo e Markus disse que era um sistema de alarme da comunidade; quando dispara, todos saem de casa: homens, mulheres e crianças com paus, pedras, panelas, com o que tiver a mão e não importa a hora. Ele também frisou que aquilo era solidariedade.
Continuamos a andar e sem querer fazer comparações. Mas muitas favelas no Rio seriam um verdadeiro luxo para aquelas pessoas; lá não tem nenhuma iniciativa dos governos municipal, estadual, federal ou mesmo ongs. Não tem um posto de saúde, não tem nada. As únicas iniciativas são promovidas por pessoas como Rosa, Markus e Anastácia, entre outros abnegados, que fazem das tripas coração para levantar a auto-estima dos filhos de desplazados bem como do restante da comunidade. Para ser mais exato, o único organismo que atende o local é estrangeiro, ligado à ONU e mantém o envio de alimentos para as crianças.
Todas aquelas imagens foram sendo misturadas na minha cabeça e eu procurava gravar o máximo possível, já que não tenho máquina fotográfica e muito menos consegui arrumar uma. É difícil descrever; aquele lugar poderia ser em Angola, Palestina, Camboja e até aqui no nosso Nordeste. Porém, o ar da guerra torna o nosso ar muito mais palatável. Muitos insistem em dizer que o Rio está uma Colômbia. Afirmo que isso é um exagero; nossa cidade maravilhosa pode estar no caminho, mas está longe de ser igual. Aliás, podemos até comparar o Rio com Medellín, Calí, mas jamais com um país. Digo que também vivenciamos uma guerra, a que denomino “miojo”, pois é instantânea e quando acabam as escaramuças fica apenas a sensação da violência no ar.
Na Colômbia não. Lá são 40 anos de guerra e a sociedade vive a partir dessa lógica, em que o militarismo é um traço bastante forte, não importa o lado. Se eu pudesse resumir, diria que a guerra na Colômbia é com G maiúsculo. Lá independente do lado, prevalecem a politização e os ideais, esta é uma característica marcante, enquanto no Rio muitos são os alienados, que só atentam para a nossa guerra quando estão inseridos nela ou quando ela ganha os noticiários.
Lá, todos sabem o que acontece e os motivos políticos. Talvez em decorrência disso, percebi uma grande repulsa no que tange respeito às drogas, pelo menos nos locais mais complicados por que passei. Daí também a revolta contra as bandillas (gangues/facções) que infernizam a vida de alguns locais. As comunidades, porém, resistem bravamente, não se intimidando.
Quando falo isso, quero que entendam que, além das guerrilhas de esquerda, pára-militares de direita (confesso que na minha opinião estes grupos são literalmente iguais), existem as bandillas do tráfico, bandillas de ladrões e em último caso os encapuchados (grupos de extermínio), que agem contra todos e, segundo informações, contam com apoio da polícia.
Em Cartagena, não detectei a existência de milícias populares, que em defesa das suas comunidades se confrontam com narcotraficantes, pára-militares, policiais, forças armadas e guerrilheiros. Vale frisar que no passado as milícias eram o apoio urbano às guerrilhas de esquerda; elas eram alinhadas, não aliadas. Porém, nos dias de hoje, estes combates ocorrem inclusive contra guerrilheiros de esquerda ou com outras milícias. Tive a oportunidade de conhecer um dos ex-líderes do MIR – COAR (Movimento Independente Revolucionário – Comandos Armados de Medellín), porém este é outro papo, vai virar artigo também.
Ao sair do bairro, minha cabeça era tomada por inúmeros questionamentos e uma grande vontade. A de que todos nós não deixemos o Rio chegar naquele estado. Vivenciamos uma guerra sangrenta, porém acredito que esta seja reversível ou freável; já no país irmão… E eu estava ali, percebendo os efeitos de uma forte mudança “climática” e pensando que, não muito longe de onde estava, a situação era de total descontrole e trevas. Falo de locais como Carmem de Bolívar, Zambrano, San Racinto, San Juan Nepomuceno e tantos outros, situados a, no máximo, duas horas de Cartagena.
Nestes locais são intensos os combates de todos contra todos, as disputas são casa a casa, quarteirão a quarteirão. Lá não tem esse papo de – “perdi, chefe!” Ou “não me esculacha não!” Lá quem tá formado está até o fim e em razão disso a proporção é de sete mulheres para cada homem (existem controvérsias com relação a esses números por isso optei por colocar o que foi mais constante). Em toda a minha estada, pude constatar que os policiais, os militares e os outros eram muito jovens.
Ao ir embora, insisti que queria pegar um ônibus, porém sutilmente meus companheiros falaram que não, que demoraria muito e etc… Na estrada, passavam vários caminhões, alguns ônibus e táxis ocupados. Um desses parou e estava com dois homens que perguntaram para onde iríamos. Markus respondeu e foi logo entrando no carro com Rosa. Fui o último a entrar.
Seguimos pela estrada em silêncio. Pela janela, fui vendo o bairro se distanciando sob o entardecer. Me encontrava em um misto de tristeza pelo que vira e felicidade por poder ajudar a dar visibilidade ao problema dos desplazados. Após uns minutos, um dos homens desceu do carro e Markus ficou no seu lugar. O clima ficou menos tenso e a viagem continuou em meio ao caos do trânsito, calor e poeira de algumas obras.
Eu dizia ao Markus que estava cronometrando o tempo de percurso; isso fazia com que todos no carro dessem risadas. Falei que já estávamos em 48 minutos. À nossa frente, o imponente forte de São Filipe, a divisão entre os dois lados do paraíso. Enquanto contemplava a vista, percebi que o trânsito foi ficando cada vez mais lento até formar um engarrafamento. Por entre os carros começaram a passar soldados do Exército, muito bem equipados. Nos outros veículos, as pessoas agiam com uma incrível normalidade.
E foram passando um, dois, dez, vinte, uma porrada de soldados. O motorista disse que achava que era uma manifestação de desempregados. Me causou estranheza, pois nenhum dos militares carregava equipamentos de CDC (controle de distúrbio civil: mascaras de gás, cassetetes, escudos, cachorros e etc.); estavam com fuzis, capacetes, coletes, resumindo não estavam para brincadeira. Ver aquilo me remetia às cenas do filme Missing (Desaparecido). O carro começou a andar lentamente; enfim, pude ver a manifestação que se encontrava encurralada em um pequeno trecho. O motorista seguiu por outro caminho e chegamos nas proximidades do centro de convenções, que parecia ser outro país.
Deixei meus novos amigos no centro de convenções e continuei no táxi rumo ao hotel. O motorista, que até então não tinha falado muita coisa, me perguntou o que eu tinha ido fazer no bairro, e se eu tinha noção de que lá era perigoso. Respondi que tinha ido apenas conhecer. Ele perguntou se eu já tinha ouvido falar nos pára-militares? E que eu vinha de uma área da AUC… e que poderia ter arrumado um grande problema? Até aí ele não tinha me contado nenhuma novidade, a não ser o fato de dizer quem “cuidava” da região.
Confesso que não fui com a cara do sujeito e marquei a cara dele com a mesma precisão que marcou a minha; em bom carioquês, digo que ele estava mandando muita letra torta, era mais fácil falar logo que era de tal grupo e sei lá mais o quê… Chegando no hotel, enfim encontrei outros brasileiros e demais participantes. Como notícia ruim corre rápido, em muito pouco tempo várias pessoas sabiam da minha aventura e acabei sendo contemplado com o apelido de “El Loco”, inclusive pelo amigo do MIR – COAR.
Somente no dia seguinte, meus companheiros na visita abriram o jogo para mim e responderam as perguntas que não tinha sido respondidas, falando inclusive sobre a política vigente. Graças aos deuses, pude apresentá-los a vários participantes do FSMT e perceber o interesse real naquele drama. São tantas coisas que eu poderia despejar neste artigo, tantas impressões sobre tantos lugares que formam o outro lado do paraíso, que nem sei…
Espero que o mundo reconheça e ajude os desplazados, espero que não deixemos o nosso Rio, o nosso Brasil chegar nesse estágio. Espero que um dia uma parcela significativa da cultura Hip Hop não se entorpeça com o lixo estadunidense e passe a ver os nossos próprios problemas, os problemas da América da qual fazemos parte – a América Latina.
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 11/07/2003 | Seção: Def Yuri
Quem refresca…
Julho 16, 2008
Não são nenhuma novidade as questões envolvendo os “jogos de guerra” que acontecem no Rio de Janeiro, muitas coisas são ditas sobre. No entanto… Devemos tentar expor os sentimentos mais ocultos da população com relação a todos esses problemas. Chega de maquiarmos as angústias, o sofrimento. A própria população deve se lembrar que, via de regra, é a sua bunda que está na reta. Não adianta egoísmo, querer viver bem e o próximo, que vive sob uma ditadura rival, que se foda!
Constantemente leio matérias em que moradores de favelas reclamam sobre a violência de grupos externos. Concordo com eles, que essa é uma situação grave, porém pergunto: onde está a solidariedade? Por que quando facções oriundas dessas mesmas comunidades saem para implantar o terror em comunidades próximas, não há reclamação, manifestação?
Por que a grita não é pelos que sofrem? Ou será que a máxima “pimenta nos olhos dos outros é refresco” virou lei? Será que não estão cientes de que, no final, estão todos fudidos, estamos fudidos?
Muitos, ao relatarem o conturbado cotidiano, acabam por se entorpecer com um romantismo equivocado, em que a retratação do que realmente acontece é induzida ou mesmo direcionada (in)conscientemente. Ainda estamos longe de expor a ferida detalhadamente, como diz a letra do Racionais – “quantos terão que morrer para se tomar providência”. Penso que os que sofrem deveriam estar mais coesos na dor; afinal, na maioria todos não são negros? Não são pobres? Todos não são oprimidos? Repito: não adianta querer viver em paz, se todo o entorno está sob a égide de uma guerra desigual.
Não adiantam desculpas e justificativas sobre ações criminosas que visam apenas o lucro e a opressão. Todos os aspectos devem ser analisados, chega de relacionar e justificar atos equivocados com uma identidade do “coitadinho oprimido”, que envereda nessa vida porque não tem um tênis de marca, uma calça maneira, não pode ir ao shopping, ter um carrão ou outras coisas impostas por essa sociedade galgada no consumismo. Nem todos inseridos no(s) crime(s) carregam estas características. Se a teoria do coitadinho fosse verdadeira, milhões de brasileiros esquecidos pelo governo, e até por outros brasileiros, já estariam inseridos no(s) crime(s), e viveríamos em uma autêntica anarquia.
Muitos vão pela fome, revolta, outros pela falta de caráter, anseio por uma vida mansa e desejo de cometer ou de participar de atrocidades. Existem, repito, inúmeras nuances e diferentes grupos sociais envolvidos. O mesmo vale para polícia(s), justiça e etc. A parcialidade vigente nos relatos que encontro beiram a conivência. Opressor é opressor, não tem idéia. As mesmas posturas usadas “academicamente” para amenizar os erros de uns servem de estímulo legal e correto para que outros sigam com a vontade de reverter a situação na marra, e essa “reação” sempre é desmedida, atingindo geralmente quem nada tem a ver.
Proponho que as bandeiras sejam arriadas e que somente os anseios da população que labuta de sol a sol, ou que se mantém íntegra perante o descaso do Estado e dessa sociedade que tem predileção por valores equivocados, sejam levadas em consideração. Essa é a minha opinião, sou partidário da máxima – “quem refresca cu de pato é lagoa”. Repito, as bandeiras devem ser guardadas, o “fanatismo” deve estar momentaneamente freado. Para que a compreensão seja possível e as soluções, digo sugestões, apareçam. Na minha concepção, algo tem que ser feito e o mergulho nas entranhas da justiça, polícias, grupos criminosos e da própria sociedade (incluem-se aí os adeptos da cultura Hip Hop) tem que ser mais profundo, contundente e elucidátorio. As vísceras do problema devem estar expostas sem piedade.
É notório que vivemos em uma ditaduraocracia, em que a censura já não é “tão” oficial; nos dias de hoje, ela opera sob as regras da influência e dos interesses e isso vale para todos os segmentos. Só que o velho Def continua fora de controle. Bom, a pedido dos leitores exponho uma matéria especial sobre duas corporações do crime estadunidense: Guerra não declarada.
“Atitude é oferecer reação, saia de cima do muro, tome posição… levanta a guarda que eu vou te sacudir…”
Música Atitude, grupo Cooperativa (Tito, Def Yuri, Leo).
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 24/06/2003 | Seção: Def Yuri
Dor, perda e renovação
Julho 16, 2008
Agradeço as mensagens dos que me acompanham todas as semanas, cobrando artigos novos. Realmente nunca fiquei tanto tempo sem escrever e confesso que isso me incomoda, já que o mundo e seus problemas não param. Porém, sou um indivíduo normal, que tem alegrias e tristezas. Ultimamente mais tristezas do que alegrias. Minha essência é e sempre será “THAI”, que ensina a transformar aquela mesma porrada que leva à lona em combustível para superar a dor da perda e seguir partindo para dentro.
Confesso, meu coração já se encontrava um tanto embrutecido, e isso é um problema, pois estava me tornando incapaz de externar sentimentos, de chorar e em alguns casos de sorrir com vontade. Às vezes, a alegria é somente um paliativo e não uma solução. Não quero e nem vou entrar em detalhes, apenas estou restabelecendo contato com todos e deixando claro que volto “pior” que antes.
Após as adversidades, prevalecem a obstinação e a essência. Sem essas, já teria me rendido e passaria a vegetar, esperando o epílogo de mais uma história – talvez a minha. Aos que estão em outro plano, saibam, onde quer que estejam, que jamais desistirei e manterei o que pode parecer o meu maior defeito em evidência – querer mudar essa porra de mundo a partir dos meu próprios atos e pensamentos.
Agradeço a uma das pessoas mais importantes da minha vida, por ter me aturado e ao meu irmão(+) como se fôssemos seus próprios filhos, por ser um guerreiro e ter ao lado uma guerreira; desta união vieram os melhores exemplos de confiança, vontade, respeito e amor e estes passarei para meus filhos e netos – quem sabe. Muitos dizem que padrasto não é pai. No meu caso é pai, sim, e enteado é filho legitimado, pois é escolhido, não é imposto. Força aos que compartilham da minha dor, da minha perda e todos os que passam por situação semelhante.
Muito axé e até a próxima semana.
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 06/06/2003 | Seção: Def Yuri
Bandidania – tô fora!
Julho 16, 2008
Espero ver uma revolução na prática, uma revolução que contemple toda a nossa população, assim como muitos indivíduos que lutam e batalham pela cultura Hip Hop. Não falo de ações orquestradas por marionetes que tentam de todas as formas se infiltrar e promover a desordem entre os nossos através de intrigas, atos duvidosos e participações questionáveis. Falo do Hip Hop assumir cada vez mais sua responsabilidade social, e pela compreensão das inúmeras diferenças em nosso meio.
Até quando aceitaremos a infiltração de indivíduos já identificados que não são oriundos da nossa cultura, não sabem nada sobre a nossa cultura, não querem a evolução da nossa cultura e almejam apenas a manipulação, coisas típicas de marionetes de bandidos e opressores em geral? Ao contrário, sempre serão bem-vindos os que chegam para contribuir positivamente, para somar e para ajudar a fazer o bolo crescer.
O Hip Hop do Rio de Janeiro não é reconhecido pela covardia, e sim pela resistência. Já resistiu e resiste a várias modas, perseguições, ataques e preconceitos. Mesmo assim prossegue forte. É muito bom ver um encontro como o da Rede Brasileira de Hip Hop, realizado nos dias 9 e 10 de maio e/ou outras iniciativas acontecendo aqui no Rio. Penso que todos os encontros e iniciativas que visam um avanço, um esboço de unidade, são bem-vindos. Cabe somente aos adeptos da nossa cultura participarem ou não, e todos devem ter sua liberdade de escolha respeitada. Em decorrência de afazeres profissionais não pude acompanhar parte dessa iniciativa. Mesmo assim desejo sorte aos participantes.
Novamente lembro que devemos ter cuidado com as marionetes, cuja principal característica é a covardia. Digo que não são pessoas (homens e, em alguns casos, mulheres) honradas, pois tentam esconder sua incapacidade através de ataques infantis, e isso em nada fortalece o Hip Hop, seja aqui ou em qualquer outro lugar. Penso: o que estes lucram? Quais são seus reais objetivos? Não fui eleito representante da nossa cultura, muito menos sou professor de alguma coisa, apenas minha história de vida se confunde com a história do Hip Hop nesse Estado. Sempre procurei e procuro abrir as portas, jamais fechá-las. Acredito que podem existir inúmeras diferenças, porém um só fator de coesão – o Hip Hop. Sei que a vanguarda também pensa dessa forma e creio piamente na capacidade de muitos iguais de diferentes vertentes em fazer e acontecer.
Mas, para isso, não precisamos sofrer imposições de marionetes que não passam de alcoviteiras modernas, que só fazem fofoca e não mostram nada de produtivo. Elas aparecem sei lá de onde, querendo impor suas idéias tortas no grito, tentando assim intimidar os mais novos ou menos esclarecidos. Somente criticam, são incapazes de fazer algo de fato, seja realizar um seminário, seja gerir um site, seja produzir um grupo, fazer um evento, um projeto. Enfim, são o fiel retrato da incapacidade. Onde estão as realizações desses indivíduos? Eles se opõem a quem faz, e, na minha opinião (e repito: esta é minha opinião), estes indivíduos na verdade jogam contra o Hip Hop do Rio de Janeiro e também contra o Hip Hop brasileiro.
Mesmo sendo um indivíduo democrático, confesso que ser alvo de injustiças não é comigo. Podem não gostar de mim, da minha ideologia; agora negar os esforços é prova de ignorância, do mal-caratismo. Estas são características de quem vem para separar, não para ajudar a crescer.
Quando escrevo os meus artigos, exponho as minhas opiniões, os meus pensamentos e por sorte ambos encontram eco por todo o Brasil. Não preciso atacar ninguém para progredir. Isso se dá pelo meu trabalho. E o meu trabalho é a resposta. Não pretendo despejar nesse artigo os meus feitos. Sou o que sou e não me rendo aos opressores, oficiais ou não. Quando digo que os acionistas do caos são Desgraçados, assino embaixo. E o mesmo vale quando o tema for bandidania ou qualquer outro que julgue pertinente. Afinal, chega de vivermos num reino de faz-de-conta, regido por discursos dos coitadinhos oprimidos, na verdade capitães-do-mato modernos que lucram muito com a dor, o medo e o envenenamento dos seus iguais. Estes, junto com os capitães-do-mato oficiais são os principais problemas para a população carioca.
Tenho orgulho de saber que nos dias de hoje muitos iguais seguem “representando” não só artisticamente, mas socialmente falando. Estes metem a cara, fazem ou participam de projetos e seguem mudando a realidade na prática. E as marionetes, o que fazem? Acredito que o Hip Hop do Rio de Janeiro não precisa desses exemplos para sobreviver. Afinal, enquanto muitos seguem na lambeção de saco para ter conceito, para ascender e difundir seus ideais de bandidania, estamos aí, firmes, íntegros e fortes.
Atualmente desenvolvo trabalhos na ONG Viva Rio, ou, como os recalcados que são incapazes de fazer algo produtivo falam, “Viva Rico”. Atacar a instituição é direito de cada um, porém não posso obrigar ignorantes a entender as coisas. Querem saber sobre as diferentes áreas de trabalho do Viva Rio (Educação, Meio Ambiente, Segurança Pública e Direitos Humanos, Esportes, Desenvolvimento Comunitário)? Acessem o site www.vivario.org.br ou façam uma visita. Em ambos os casos, o cidadão terá acesso a todas as iniciativas.
E, diferente de muitos partidos políticos, ONIs (ou Organizações Não Idôneas) e movimentos de caráter duvidoso, também se encontrarão disponibilizadas as prestações de contas, informação que considero vital para o cidadão íntegro. Talvez esta seja mais uma diferença entre quem faz e os parasitas, digo, marionetes. Aliás, essa é a diferença! Mesmo assim o questionamento institucional é livre, todos têm direito, mas para indivíduos “conscientes” do Hip Hop toda ação deve ter embasamento concreto.
Os que almejam atacar os trabalhos desenvolvidos com o Hip Hop no Viva Rio devem se lembrar que sou o responsável por grande parte, então automaticamente estão me atacando. Peço que não percam tempo com isso. Apenas mostrem resultados iguais ou superiores aos apresentados, se forem capazes. Mostrando alguma coisa, todos teremos a certeza de que movimentações paralelas estão acontecendo e considero isso o mais próximo de uma unidade.
O meu nome é Def Yuri, não conhecem? Se pretendem mudanças e avanços comecem pelo re-conhecimento da história da sua cultura e de seus participantes nesses 20 anos de existência. Não se deixem levar por marionetes que pulam de movimento social para movimento social com o único intuito de se locupletar e de manipular. Esses também formam o perfil do “Desgraçado” padrão. Diferente dos que finaciam o Estado de caos, estes têm participação nos lucros que são conquistados com o envenenamento do nosso povo e com o derramamento do nosso sangue. Eles pretendem e dependem da perpetuação desse Estado de caos.
Aos que honram nossa correria e lutam em prol de nossa cultura, mantenham-se firmes como homens e mulheres de fibra, tenham orgulho de ser do Hip Hop. E, para a bandidania, digam: ”tô fora!”
“Se é pra falar de mim, deixa que eu mesmo falo…”
Música: Minha Vida, Paulo Nápoli
Para críticas, sugestões,mágoas e ressentimentos:
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 12/05/2003 | Seção: Def Yuri
Vai na fé
Julho 16, 2008
Eram duas horas da manhã de um meio de semana qualquer. Após um dia de trabalho, fui para mais uma reunião. É aquele negócio: papo vai, papo vem e o tempo foi passando. Despeço-me do pessoal, entro no carro e vou para casa. Alguns minutos se passam e percebo que a cidade está tranqüila, sem o ar pesado dos últimos tempos. No som, escuto uma fita com umas músicas do Cólera. Estou muito cansado, sorte que não devo levar mais que 30 minutos até minha casa.
Percebo que existe uma obra no meio da avenida. Reduzo a velocidade e sigo o desvio sinalizado logo à frente, e posso ver carros fechando a rua. Uns com sirenes, outros sem. Confesso que fiquei na dúvida: seria a polícia oficial ou não? O pior é que não tenho como ter certeza e muito menos, se for necessário, armar uma fuga. Só me resta abaixar o farol e acender a luz interna. São mais de dez homens, todos de colete e máscaras. Aos gritos, me mandam parar e descer do carro com as mãos para cima.
Um deles pergunta se eu sou da casa. Respondo que não entendia do que ele falava. O cara queria saber se eu era polícia que nem eles. Respondo que não. Perguntou também se eu era do “mundão” e qual era a minha bandeira. Disse que a minha não era o crime. Então, começou o interrogatório: “De onde você vem? Para onde você vai? O que faz da vida?” Vou falando com educação e atento à movimentação.
Reparo que alguns deles estão portando fuzis AK 47; estes não são muito comuns na polícia oficial. Eles dizem que vão revistar o carro; respondo que sem problema, desde que somente um policial fizesse a vistoria e eu acompanhasse. Nesse momento, ao ouvir as gargalhadas, tive confirmadas minhas suspeições: realmente não era a polícia oficial.
Agora não adianta seguir os procedimentos padrão, verificar o número das viaturas, o nome dos agentes, não tem ouvidoria nem outros organismos que, mesmo precariamente, tentam defender os direitos do cidadão. Me puxam pelo braço e dizem para eu ficar na moral que se eu tivesse limpo não iria pegar nada, que eles não eram de esculachar trabalhador. Fiquei pensando: “Aquilo então era o quê?” Percebo que outras pessoas são abordadas, mandam eu não encarar ninguém e olhar para o chão.
Sou levado até uma ladeira e, depois de um tempo subindo, fui recebido por um cara que reiniciou o interrogatório: “De onde você vem? Para onde vai? O que tu faz da vida?” E lá vou eu, sob tensão, respondendo as mesmas perguntas, sabendo que não podia falar uma vírgula diferente. Ao longe, ouço sons de tiros e gritos.
O tempo foi passando. Não tenho idéia de quantos minutos ou mesmo se foi mais de uma hora. De repente, um cara que parecia o chefe falou: “Vai na fé!”
Vocês não têm idéia da complexidade dessa fala. Pode significar: vai morrer, pode ir embora ou sei lá mais o quê. Não tendo saída, tive que perguntar: “Posso ir embora?” “É, cumpadi, pode sair fora. Aí o ‘fiel’ disse que tu tem umas fitas maneiras lá no carro, só som neurótico. É verdade?” Afirmo que é.
Não é incrível? Enquanto eu estava sob interrogatório, o indivíduo estava escutando minhas fitas. Que filho da puta! Um outro disse que eles estavam ali para pegar os “alemão” e que não tem idéia, se for polícia ou rival vai morrer. Também disse que ali ninguém era ladrão péla-saco, cuzão que apavora o povão, que apavora morador. Ali era o tráfico. Enquanto desço pela rua, vários carros passam por mim com sirenes e homens fortemente armados aos gritos de “Já é! Já é!”
Chego até onde estava a blitz e vejo meu carro parado no mesmo lugar, inclusive com o alerta ligado. Próximo, estava um taxista que deveria ter seus 60 anos. Ele tremia e dizia que foi o pior susto que tinha passado. Olho no interior do carro e vejo que as fitas estavam mexidas mas, a princípio, não faltava nada. Ainda me refazendo do susto, ligo o carro e continuo a caminho de casa. Passado uns quatro quarteirões, o que vejo na minha frente? Carros com sirenes ligadas e vários homens armados. “Merda! O que seria agora?”
Mais uma vez em situação de impotência, abaixo o farol e acendo a luz interna. Recebo o comando de parar. Ao ver os uniformes e vários indivíduos portando colts M-16, constato que é uma blitz da polícia oficial. Um deles me manda desembarcar e pergunta: “É da casa?” Respondo que não entendo a pergunta. “Tu é polícia?” Respondo que não. Pergunta se sou do lado errado. Respondo que não. Enquanto checam meus documentos e o carro é revistado, eles iniciam um interrogatório me perguntando: “De onde você vem? Para onde vai? O que você faz da vida? O que eu estava fazendo naquele local, aquela hora?” Confesso para vocês que me deu vontade de rir. Respondo que tinha acabado de ser abordado em uma blitz e que fiquei retido nela por cerca de uma hora.
Os policiais dizem que estão naquele local há mais de três horas e que não tem nenhuma outra blitz na região. Assim que ele termina de falar, todos podem ouvir sons de tiros, porém continuam falando como se nada tivesse acontecido. Um outro policial se mostra meio confuso e nervoso. Percebo que ele almeja começar uma discussão por qualquer motivo; para evitar mais confusão, digo que todos estão com razão e que eu devia estar ficando maluco.
Falo que estava cansado por um dia estressante de trabalho e pergunto se eles já tinham terminado o trabalho, pois já eram quase 4 horas da manhã. Nesse instante, o policial que estava revistando o carro disse: ”Pô, fita, várias fitas maneiras! Me amarro em Rep e em Hardcore.” Ao ouvir isso, fico pensando: “Tem coisas que só acontecem com determinadas pessoas e eu sou uma delas!” Me devolveram os documentos e pediram desculpa pelo incômodo, dizendo que aquilo era apenas uma medida de segurança para minha própria proteção e que eu não perdi nada, apenas ganhei.
Até agora penso o que eu teria ganho. Afirmam também que estão na “pista” para passar o cerol na vagabundagem, que a deles não é esculachar “marmiteiro” e que eles são do bem. Agradeço a compreensão e pergunto se posso ir embora. E um que parecia comandar a operação me responde: “Vai na fé!”
“Para o sistema, rapper bom é rapper morto” – K.A.R
Resistência e Diogo, o ignóbil!
Julho 16, 2008
No meu último artigo relatei que estava arrumando as malas para acompanhar a realização de um seminário em Penedo (RJ) cujo tema era a participação dos adeptos da cultura Hip Hop frente o problema do tabagismo. Esta atividade contou com a participação de vários rapeadores, homens e mulheres, que receberam informações relacionadas ao tema e usaram seus dons para multiplicá-las.
Óbvio que muitos vão dizer que isso não vai adiantar nada, que é demagogia, pois vários dos participantes fumam e por aí vai. Só que o objetivo desta iniciativa não é obrigar nenhum indivíduo a parar de fumar, e sim fazer com que ele reflita, através de letras de REP, se é isso mesmo que almeja para a sua vida e para os seus semelhantes. Se informar não adianta nada, para que existe o REP? Será que vivemos em uma nação demagoga, onde vociferar contra tudo e todos não passa de jogo de cena? Já que nada vai mudar, devemos perder o nosso tempo de outra maneira, concordam?
De volta à viagem, posso dizer que ver pessoas das mais diferentes vertentes do Hip Hop interagindo, conversando e até planejando iniciativas em conjunto foi incrível. Para quem não sabe, um dos pontos fortes do Hip Hop são as desavenças, que muitas vezes terminam por engessar as movimentações em busca de um objetivo comum. Só que desta vez não, desta vez foi inédito.
Quem diria que algum dia pudesse ver ou vivenciar isso; é a verdadeira realização de mais um sonho. Ver uma maior participação dos adeptos da nossa cultura na busca por conhecimentos, e se capacitando para multiplicar informações que beneficiem a população como um todo.
É importante frisar que essa iniciativa foi realizada graças às instituições que acreditam e respeitam essa manifestação popular; os que batalham de verdade pelo Hip Hop do Rio de Janeiro são gratos ao CEMINA e aos seus parceiros: REDEH, VIVA RIO, ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, DYAK PRODUÇÕES, TROCANDO IDÉIA, BOCADA FORTE e a SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE DO RIO DE JANEIRO. Espero que outras atividades como essa sejam realizadas e a tão almejada unidade seja encontrada de fato.
Ainda orgulhoso do resultado e ainda mais confiante no futuro, fico sabendo de um artigo escrito por um “jornalista” para a revista Veja. Sou favorável às críticas e à liberdade de expressão, porém acredito que para isso deve-se estar minimamente embasado; e o “renomado” mostrou que não está ou, se está, age motivado por outros interesses. Em alguns pontos, ele até consegue tentar resumir o que pensa o cidadão fluminense, mas isso é por pouco tempo, pois já em seguida literalmente enfia os pés pelas mãos ao misturar vários assuntos – cada vez mais acredito que deturpar os fatos seja um traço equivocado na personalidade de muitos jornalistas.
Ao questionar de forma duvidosa a importância da “arte, música, cultura e mídia” como alternativa ao crime, ele mostra a sua ignorância e os seus preconceitos – estes não estão restritos somente a ele, são compartilhados por muitos outros profissionais igualmente embriagados pela soberba, diplomas e conhecimentos que não alteram e nunca alteraram nada. Eles temem a participação dos autodidatas do povo na busca das soluções dos problemas que os afligem.
Pergunto qual a qualificação desse indivíduo para falar e especular sobre o Hip Hop? Para falar de iniciativas como essa? Digo que este não tem capacidade de discernir sobre o que está sendo feito; é neste momento que o caráter, ética e a vontade de se informar fazem a diferença.
Queria ressaltar que muitos dos participantes do seminário Hip Hop na linha de frente contra o tabaco foram extraídos do destino que leva muitos ao crime, e não foram através de idiotas, religiões, ou sei lá mais o que, e sim pela cultura Hip Hop. Esta sim, vital para muitos, resgatando a auto-estima, apontando rumos, resgatando a auto-estima, apontando rumos, informando e educando.
Parece que o ignóbil Diogo não gosta disso. Talvez ele preferisse conhecer alguns dos participantes de outra forma; talvez ele ache melhor que em vez de ver um jovem empunhando um microfone, tentando expor seus pensamentos e sugestões para uma sociedade melhor, uma melhor qualidade de vida (coisa que o ignóbil não faz), este tivesse uma PT .40 carregada apontando para sua cabeça, subjugando-o.
E ele, tomado pelo terror e pelo pânico, enfim saberia como é estar à mercê de um dos produtos dessa sociedade necrosada, gerenciada e conduzida por “pessoas” como ele. Fico pensando como seria, a quem ele clamaria nesse momento; com certeza, choraria e ostentaria, em vez da soberba, aquele olhar esbugalhado dos desesperados.
Mas Diogo irá ficar decepcionado, pois os participantes do seminário vieram ao mundo para contrariá-lo, vieram para mostrar que é possível estar longe da violência, do crime e principalmente nos mentores intelectuais desse estado de caos.
Em vez de propagar merdas, este “jornalista” deveria (se for capaz) compreender a cultura Hip Hop e principalmente a música REP, que é o maior veículo de comunicação das massas excluídas do Brasil, exercendo uma função que deveria ser de pessoas como o jornalista citado, que, preso em sua redoma e em meio aos seus preconceitos, certamente se diverte ao externar sua irresponsabilidade, sua bostialidade. Diogo, sampleando um comercial, digo: está na hora de você rever seus conceitos.
“Fear of a black planet”
Public Enemy
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 01/05/2003 | Seção: Def Yuri