Segurança Pública S.A.
Junho 12, 2008
Dentre os inúmeros vetores de propagação da violência, o que mais chama minha atenção (e estranhamente é esquecido por muitos) são os serviços de segurança, digo, de polícia privada. Esse filão cresce na mesma velocidade da violência, e creio que em decorrência disso esta não diminua tão cedo. Observem as ruas e perceberão um verdadeiro exército formado por policiais, bombeiros, desempregados, e em muitos casos bandidos.
O contato promíscuo é inevitável, resultado da busca por um salário melhor, necessidade de estar trabalhando ou de justificar que trabalha em algum lugar. Esse conjunto de necessidades é acobertado principalmente por empresários e comerciantes, acarretando uma sensação de segurança para eles e insegurança para o restante da população, que passa a conviver com pessoas que, na maioria das vezes, são despreparadas para lidar com o público em geral ou de exercer suas funções com correção. Some-se a isso, no caso dos funcionários públicos, o fato deste “bico” ser exercido alternadamente com o trabalho oficial, resultando num péssimo desempenho, em decorrência do esgotamento físico e mental.
Outro fator importante é o porte e uso de armas de fogo, legais ou não. Obviamente a interação desses grupos envolvidos constrói um verdadeiro mercado paralelo com diferentes formas de negociação. Onde será que vão parar as armas roubadas de seguranças ou de empresas de segurança em geral? Estou falando de assaltos mesmo, porém existem casos forjados, e via de regra não são investigados e/ou são abafados. E a epidemia da proliferação de armas roubadas continua abastecendo todo o tipo de facínora. Perante isso a polícia federal e o exército continuam não investigando, não tendo controle, ou também podem estar envolvidos na manutenção desse lucrativo ciclo.
Quem nunca se sentiu constrangido, sendo perseguido em lojas, “encarado” nas ruas, vítima de algum comentário ou de suspeições infundadas, não tendo como reagir e reivindicar os seus direitos, em vista da “promiscuidade generalizada”? Se quem ler esse artigo for negro saberá do que estou falando com um pouco mais de velocidade, por saber na prática o peso de ser visto como o protótipo do inimigo. Os que se alienam, se omitem ou mesmo lucram com esses negócios argumentarão que tudo não passa de exagero, delírios, e sei lá mais o quê. Peço para os leitores que façam pesquisa rápida, e constatarão que o número de vítimas desse tipo de violência só faz aumentar, já a justiça e elucidação de crimes não se pode afirmar que aumentam na mesma proporção.
Volta e meia tenho a possibilidade de ouvir um grande número de reclamações contra esses “milicianos informais”, e repito que uma grande quantidade de crimes é cometida por essas milícias. Tiroteios com vítimas inocentes, execuções por não pagar a passagem de um ônibus, discussões por motivos fúteis, isso sem falar dos roubos, extorsões, seqüestros e tudo o que a “criatividade humana” pode inventar. Eles agem com a certeza da impunidade. Todos, sem exceção, são embriagados pela síndrome de poder. Dizem que grande parte das empresas de segurança, digo, de polícia clandestina, é controlada por altos postos na hierarquia policial “oficial”. Se este fato é conhecido, por que não se tomam providências?
Por que ao ocorrerem saques, assaltos violentos ou quando traficantes mandam fechar o comércio esses “profissionais” não botam a cara, digo, não se apresentam, garantindo assim o pleno funcionamento dos estabelecimentos? A dúvida é essa: por que uma resposta enérgica e violenta em alguns casos e o “desaparecimento” instantâneo em outros? Nas raríssimas vezes em que resolvem revidar alguma ação violenta, acabam por mostrar sua total incapacidade e inoperância, o que resulta na imensa maioria das vezes em morte de inocentes. Confesso, ainda tento compreender.
Tenho uma opinião de que todo aquele que contrata esses serviços deve ser responsabilizado cível e criminalmente. Para mim são co-autores de qualquer ato “equivocado”. Causa repulsa perceber que o cidadão paga seu impostos com o intuito de ter a sensação de segurança (oficial) e um pouco de paz (mesmo que nos dias de hoje isso possa parecer uma utopia), e ver que aqueles que são pagos com esses impostos tratam sua função de servidor público apenas como um bico, se dedicando ininterruptamente ao trabalho de “polícia privada”. Não existe desculpa, a população utiliza os serviços desses indivíduos e como brinde ganha o desrespeito e a possibilidade de ser vítima de um mal maior.
Como diria o âncora de uma rádio de notícias, “isso é um descalabro!” A população se encontra refém dessas milícias, que chegam inclusive a “brigar” pelo controle de áreas, digo, pontos mais rentáveis, semelhante a outras “brigas” que vivenciamos diariamente. Para muitos, as comunidades sofrem com o controle territorial armado. Concordo, realmente isso é algo grave. Só que não podemos esquecer e fingir que não vemos o “controle promíscuo” que acontece nas ruas.
A omissão ou o jogo de interesses envolvem as autoridades (in)competentes nessa situação. Enquanto isso a população fica sem ter a quem recorrer.
É fato. Quem tem mais recursos ($) tem direito a segurança das milícias paralelas, oficiais ou mesmo pára-oficiais. Será preciso a eliminação de alguém de “destaque” na sociedade, para que todos nós sejamos contemplados com iniciativas que mudem essa situação calamitosa na prática? O que está descrito nesse artigo não é restrito ao Rio de Janeiro. Acontece em qualquer lugar do Brasil.
Além das minhas considerações, deixo aqui algumas sugestões:
“Quantos terão que morrer pra se tomar providência…”
Pânico na Zona Sul – Racionais MC’s
Autor: Def Yuri – publicado no www.vivafavela.com.br | 11/04/2003 | Seção: Def Yuri