Capitães do mato
Maio 20, 2008
Me lembro que aqui no Rio no início dos anos 1990 (e em outros lugares do Brasil era igual), nós que fazíamos rep, éramos movidos por uma forte indignação e raiva, somadas às experiências do dia a dia e à forte influência do (re)conhecimento de Malcolm X. Nesse período a autobiografia desse expoente negro se constituiu no livro predileto de muitos. Todos esses ingredientes deram vida a verdadeiras bombas que eram acionadas através de rimas e discursos, e um dos nossos principais alvos era a polícia e principalmente os policiais negros, os quais víamos como autênticos capitães do mato oprimindo os seus iguais e propagando o racismo do “sistema opressor”.
Essa comparação com os antigos capitães do mato foi inevitável, a sede por justiça, direitos e a raiva nos cegou momentaneamente. Só víamos um lado das coisas e só aceitávamos a nossa versão. É impressionante que passado tanto tempo, ainda nos dias de hoje se encontrem um grande número de cegos no Hip Hop. A indignação e a raiva continuam, mas graças aos deuses assimilei somente o lado positivo desses sentimentos, o que me fez recobrar a visão, e esta foi ficando cada vez mais isenta e imparcial. Percebi que, apesar de alguns equívocos continuarem a acontecer, existem policiais que não se encaixam nesse perfil (são raros, mas existem). Também pude constatar que o termo capitães do mato abrangia mais pessoas. Todos aqueles que envenenam o seu povo, que levam o ódio para os seus iguais, a desgraça (leia Desgraçados ) e a opressão, que lucram com o genocídio do negro no Brasil, que incentivam a perpetuação dessas atrocidades através de músicas, filmes, vídeos ou de outros meios – esses são os verdadeiros capitães do mato modernos.
Tem um trecho de uma música do grupo Rappa que diz ”Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, é verdade. Porém, o estigma do navio negreiro também está em cada baseado de maconha, em cada carreira de cocaína, em cada uma dessas siglas oficiais ou não que estão aí para aterrorizar, aprisionar e fazer a sangria da nossa população. Em cada uma dessas iniciativas eu percebo a essência e o combustível que alimenta o nosso genocídio, e essa praga é uma realidade. Ter a capacidade de discernir sobre o problema são outros quinhentos. Muitos não querem a mudança e sim a manutenção da tragédia para que possam continuar com a sua vil encenação. Pois é sabido que a nossa dor é rentável, e muitos lucram de inúmeras maneiras. E as dores da maioria não são ouvidas, e se são, não servem para despertar um desejo coletivo por mudança.
Até quando viveremos à mercê dos capitães do mato modernos? Quando as redes de interesses serão desmascaradas? Os capitães do mato têm forte influência no nosso dia-a-dia, mas ninguém assume… Nós não podemos ser reféns de nós mesmos. Os quilombos do passado que resistiam bravamente, nos dias de hoje são apenas campos de concentração entorpecidos pelo medo ou pelas necessidades, as chibatas se transformaram em cassetetes, o gira-mundo e os grilhões se transformaram em microondas. E as revoltas do passado, que buscavam a conquista da liberdade? Estas estão deturpadas, será que ocorreriam espontaneamente nos dias de hoje? Será que elas teriam o mesmo objetivo do passado ou seriam apenas usadas para algum jogo de cena orquestrado? O sofrimento é tão intenso como no passado e não cessa.
O opressor de hoje tem múltiplas cores. Não me venham com desculpas sociológicas e romantismo, pois os adeptos dessa merda de opressão almejam apenas a manutenção do seu reino, mesmo que seja de fachada. E nas sombras estamos nós, os “herdeiros da escravidão”. As nossas mazelas devem ser denunciadas com o intuito de reverter esse quadro, não usadas objetivando o lucro fácil. Não quero estabelecer uma ditadura em que todos devem fazer algo de útil para todo mundo, apenas almejo que a percepção dos problemas seja ampliada e soluções apresentadas. Observem a diferença, entre épocas. Os “capitães” de hoje foram criados conosco, convivem no dia a dia e compartilham muitas coisas.
Às vezes fico pensando que não teríamos problema nenhum em viver num regime de exceção. Pois a grande maioria só se rebelaria caso tivesse seus entretenimentos e religiosidades vetadas, talvez assim poderiam se dar conta que o espelho se transformou no nosso maior algoz, que nos separa das mais diferente formas. É uma reprodução do que aconteceu na Mãe África, fronteiras são criadas, famílias separadas, o ódio entre nós é insuflado e a conseqüência é a nossa autodestruição. E repito uma citação de Malcolm X usada no meu artigo passado: “Por todos os meios necessários”.
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 13/02/2003 | Seção: Def Yuri
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Tags: Def Yuri, HIP HOP, Luta, Social
Maio 20, 2008 at 2:53 pm
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