Até quando seremos reféns?
Maio 20, 2008
O Rio de Janeiro mais uma vez é palco de uma grande insurreição que, ao contrário do que alguns românticos apregoam, não tem nada a ver com os ideários de paz, justiça e, muito menos, liberdade. A população carioca vive subjugada e amplamente humilhada, à mercê de todo os tipos de ações, não importando quem são os agentes, pois o resultado final sempre é o medo, terror e o desrespeito. Estes se apresentam através de incêndios, explosões, tiros, abusos de poder, roubos, extorsões, excessos… Esse método de propaganda do terror já se tornou bastante conhecido e realmente traz muito resultado, atendendo em cheio a diferentes anseios. Tanto dos que perpetraram os atos dessa semana quanto de seus “concorrentes oficiais”, que a essas alturas certamente já planejaram uma campanha emergencial, com algum nome do tipo Rio Seguro, Rio Total, Segurança Total.
Vocês sabem, esta iniciativa, mesmo escondida sob o manto da sensação de segurança transmitida, também atingirá em cheio a população, principalmente a menos abonada, que “pagará o pato” pelas ações cometidas pelos traidores do povo. “Traidores do Povo” – não existe termo melhor para definir uma horda que, em troca de algum agrado, vai às ruas para destruir o que é vital para os seus iguais, que almejam trabalhar dignamente, e que apesar das inúmeras dificuldades lutam e batalham por uma sobrevivência honesta. São os Josés e Marias, as primeiras vítimas. Estes para sempre ficarão estigmatizados! Por que os “Traidores do Povo” não se insurgem espontaneamente contra todos os que lhe oprimem? Que oprimem os seus iguais? Na hora de participar democraticamente estes vendem os seus votos, por qualquer “caraminguá”, ou pelo prato de R$ 1,00, ou ainda o trocam por Cheques-cidadãos (quando votam…).
O pior de tudo é saber que pseudo-pensadores acham essas ações como algo maravilhoso. Chegam inclusive a confundi-las com algumas revoluções populares que ocorreram no século passado. Esses merdas pensam isso por não estarem no fogo (ainda), não estarem na alça de mira. Estamos em meio a um jogo de cartas marcadas onde se quer fazer muito barulho. Mas será que se quer morrer? Será que é a guerra mesmo que os opressores querem? Penso que não. Estes cenários de tensão e medo fazem parte do cotidiano do Rio de Janeiro, e não existe distinção de classes e zonas.
O medo é o sentimento mais democrático e igualitário. Tenho pena de muitos teleguiados que participam dessas orquestrações. Só se esquecem que, quando a “pica” entrar, não vai ter ninguém para ajudar, sequer para pagar um advogado. Só os buchas ficarão no fogo, assinando vários artigos e se transformando em vítimas de uma justiça “equivocada” e quase sempre tendenciosa que terminará por enviá-los aos depósitos de gente, local onde não se recupera! E os outros continuarão nos seus devaneios, obcecados pelo poder. Tanta disposição jogada fora…
Quanto aos meios de comunicação, será que eles realmente noticiaram tudo? Será que cumpriram (cumprem) o seu papel, em todos os sentidos? Por que não vemos a mesma mobilização ocorrida durante o episódio do jornalista Tim Lopes? Será que vai haver pressão por justiça? Afinal, os inocentes que foram atingidos não merecem a mesma atenção? E as vitimas diárias dessas atrocidades? Não são dignas de respeito? Como diz nossa Constituição Cidadã: “Art. 1º. Todos são iguais perante a lei.” (Quase todos.) Já que vivenciamos uma seqüência de governos estaduais comprometidos e de federais omissos, quanto sangue inocente terá que ser derramado para que se tome alguma providência?
Algumas pessoas ficaram revoltadas com as declarações do secretário de Segurança, que disse “Nosso bloco está na rua e, se tiver que ter um conflito armado, que tenha. Se alguém tiver que morrer por isso, que morra. Nós vamos partir para dentro”(sic). Quem sou eu para julgar essa declaração? O secretário só deveria se lembrar que o bloco dele, assim como os outros blocos já se encontram em ação, em um intenso desfile, que só faz aumentar os nomes nos obituários. Também penso que essa declaração só foi proferida por encontrar eco nas ruas. Por encontrar eco nos que sofrem barbaramente.
Quem convive nesta cidade sabe o quão contraditório é a realidade. Gostaria de saber (e que me respondam os intelectualóides): Qual a diferença dessas declarações para as ações realizadas na prática, onde a população é vitima das mais diferentes formas de violência? Por que não vejo e não ouço nenhum filho da puta defendendo o lado da parcela majoritária da população? Ficam apenas tentando rotular se o discurso é de direita ou de esquerda. Reacionário ou revolucionário – vão se fuder! É tudo a mesma merda.
Torço para que o povo de uma maneira geral não continue sendo tratado como criminoso, agora se os criminosos de carteirinha que também fazem parte dessa população resolverem entrar em confronto com o bloco do secretário – Que estes assumam as conseqüências pelos seus atos, e sejam homens. Não colocando inocentes como escudo!
Por que não vi nenhuma organização de Direitos Humanos (eu tenho legitimidade para falar isso) comparecendo ao enterro do taxista covardemente executado durante os incidentes da segunda-feira (bom, execução já é uma covardia!), nem apoiando as vítimas queimadas dentro dos ônibus que foram incendiados? Devemos rever ou interpretar corretamente o que são os Direitos Universais do Homem – estes devem valer para todos aqueles que compõem essa sociedade necrosada e falida. Estes devem ser imparciais e não cúmplices das perversidades. Devem ser a solução e não a perpetuação dos erros.
Os Direitos Humanos foram deturpados durante o governo militar, onde era associado ao banditismo e/ou aos opositores do regime. O pior é que nos dias de hoje muitos ativistas e organizações reforçam essa associação através de atos impensados (?). Que acabam por criar uma repulsa justamente nos que mais precisam de ajuda e apoio – a nossa população. Respeito diferentes pensamentos, mas peço que parem com esses discursos piegas, que só servem para ocultar um dos lados da história ou para maquiar com flores onde só existem espinhos. Parem com essa demagogia e hipocrisia. Mostrem que o conhecimento não diminuiu suas qualidades morais. E lembro que o próprio povo também se encontra na condição de culpado, de cúmplice. Mas, mesmo assim, deve ter seus pedidos por socorro ouvidos e atendidos.
Se a maioria da população almeja a mudança através da guerra, se for isso mesmo, então vamos juntos nos preparar e desferir um ataque ininterrupto contra todos os que nos oprimem. Vamos buscar a nossa alforria. Ainda somos escravos de um mesmo sistema opressor. Já faz 500 anos e só mudaram os nomes dos feitores, a ideologia é a mesma. Antes era S/A (sociedade anônima), agora S/C (sociedade conhecida). Antes nos vendiam, hoje nos envenenam, nos matam e nos oprimem. Será que somos vítimas de um genocídio meticulosamente planejado? Sabemos quem nos oprime, então vamos nos livrar das amarras do silêncio e botar para fuder. Que se dane se do outro lado estão as nossas réplicas! Não se prendam nisso. A condição deles é de capitães do mato, ou melhor, traidores do povo.
Certamente muitos estão se perguntando: E as armas? Como conseguiremos ter êxito? Porra, nós temos as pedras! Lembram a Intifada? Estas libertaram meia Palestina da ocupação israelense com seu armamento moderno. Também temos outro tipo de pedra: o REP. Esse pode causar estragos divulgando informações que propiciem a transformação. Se bem que, às vezes, este é compartilhado pelos seguidores dos nossos algozes que propagam inúmeras baboseiras. Mas, e daí? O que estamos esperando? Pedradas neles! Estão com medo de morrer? Isso faz parte, esperei uma vida inteira por esse dia: o dia em que veria todos os opressores oficiais (ou não) capitularem, perante o povo. Agora, se a maioria da população optar por uma mudança pacífica, neste caso, digo que devemos estar ainda mais atentos às “entrelinhas” e que através das informações obtidas nas letras de REP, possamos avançar mantendo sempre viva a nossa esperança por um mundo melhor. Assim se lapidará uma consciência forte e cidadã, aglutinando os que estão cansados de sofrer, cansados das injustiças, enfim, cansados de todas essas merdas que assolam a nossa cidade.
Precisamos de soluções e não simples paliativos, como a transferência do “Excelentíssimo Sr. Luiz Fernando (Beira-mar) da Costa” para São Paulo, ou iniciativas politiqueiras que visam atenuar a descrença do povo com relação às “políticas de segurança pública”. A devassa deve ser completa nos que oprimem, incluem-se aí: Executivo, Legislativo, Judiciário, Polícias, tráficos (armas, drogas, influência), forças armadas, empresariado, corporações de mídia, determinadas religiões, determinadas manifestações culturais… enfim todos que possam compor e gerenciar o chamado crime organizado!
Com exceção de umas três pessoas, eu pergunto: por que o silêncio perturbador no Hip Hop carioca? Por que o silêncio na ala pretensamente engajada e articulada? Será que a situação retratada não atinge os conscientes adeptos dessa cultura? Será que estamos limitados ao blá,blá,blá artístico? Será que ninguém mais vai colocar a cara? Mesmo assim ainda acredito que somos a diferença. Que somos um dos caminhos para a mudança!
Então,
- Justiça – que esta alcance todos os filhos da puta que oprimem o povo, sem distinção!
- Liberdade – apenas para a população que labuta de sol a sol, ou que busca incansavelmente o direito de sobreviver.
- Fé – devemos mantê-la a qualquer custo! Só resistimos graças a ela, independente da crença.
- Sofrimento – que este cesse.
- Educação e Informação – para que o povo não fique sujeito a manipulações e orquestrações.
“Que os subjugados de hoje possam, num futuro próximo, ver o desaparecimento de todos os seus algozes, juntamente com seus ideários.”
Def Yuri
CIDADE SEM LEI
Apanho o microfone e ele está municiado. Pra se falar do Rio tem que se estar preparado.
E não pense que estou arredio. Apenas digo que sua vida aqui está por um fio.
E é bom, é bom você notar: Por acaso já viu a cor do nosso mar? De azul, ele ficou vermelho.
O jornal “O povo” é o nosso mais fiel espelho. A cidade violenta, violenta cidade.
Somos prisioneiros entre prédios e grades. Aqui existe diferença entre o certo e as ações.
Balneários do sol, mulheres e contradições. Aqui existem milícias fortemente armadas
que impõem o terror com a caveira e suas rajadas. E eu não sei se essa é a solução, porque eu não sei de que lado eles estão.
Tem homens citados como marginais. O que eles fazem pro povo o governo nunca faz.
Homens bem treinados que formam a polícia, alguns preferem se corromper do que lutar pela justiça.
Isso apenas mostra aquilo que eu já sei: Moramos no Rio, uma cidade sem lei.
(…)
Trecho da música: Cidade Sem Lei.
Autoria: Def Yuri/ Ryo Radikal Repz.
Parte integrante do CD Hip Hop Pelo Rio.
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 27/02/2003 | Seção: Def Yuri