Essa semana está sendo muito movimentada. Eu na maior correria para entregar o meu artigo “comemorativo” de um ano da re-ação de 11 de setembro, e inúmeras coisas acontecendo, que acabaram por desviar o foco da minha escrita, me enchendo de dúvidas sobre o que escrever.  Passei os últimos quatro dias participando de debates com os principais
candidatos ao cargo de vice-governador do Rio de Janeiro. Uma experiência bastante positiva para mim, pois foi a oportunidade para constatar que meus pensamentos – bons e ruins – sobre alguns candidatos estavam mais do que certos. Sem falar que uma das coisas que mais gosto de ouvir são esses debates radiofônicos – participar então…

Outro fato importante nessa semana foi ver a realização do sonho de um camarada – Mister Zoy – que estreou seu programa Conexão Babilônia, na Rádio Viva Rio 1180 AM. O programa também pode ser acompanhado on line, no endereço www.radiovivario.com.br. Ele já realizava um trabalho de muitos anos em uma rádio comunitária e agora está em uma rádio aberta, sendo ouvido por um número muito maior de ouvintes. Além de tudo, ocorreu uma “rebelião” em Bangu 1, que causou grandes transtornos para a população carioca e pavimentou o caminho para piorar a situação de violência, que transformou o cidadão em simples refém – que merda! E nós é que nos fodemos perante essa (s) guerra (s), em que todos só objetivam o (s) poder (es). E para todos os envolvidos, o povo que se foda! São tantas coisas para comentar… Já era madrugada, e ainda não sabia quais dos vários assuntos abordar com mais detalhes. Foi quando aumentei o volume do som e estava tocando uma música do Exército de Libertação pela Rima , O Século das Américas, que fala sobre a ALCA – “Área de Livre Chacina das Américas”.

Pausa para o café – vocês sabem, tenho que ficar acordado.

Eis que começa a tocar a música Minha Vontade Destruiu os Estados Unidos, do grupo Soldados Armados de Raciocínio. É, não adianta fugir, vou ter que escrever mesmo sobre o 11 de setembro…

É incrível, leitores, como o tempo voa. Já se passaram 365 dias desde a  “re-açao” de 11 de setembro. E parece que nem após o enorme baque o governo norte-americano parou para fazer um mea culpa e admitir seus inúmeros erros.

Se existe país não favorável à paz no mundo, esse país são os Estados Unidos da América. Não estou falando da população, até porque estes, na sua maioria, nem sabem que países fazem fronteira com os EUA, nem sabem o que acontece na esquina de casa.

Os veículos de comunicação, na busca por lucro, fazem um verdadeiro escarcéu comemorativo desse um ano da “re-ação”. Esses deveriam fazer matérias diárias lembrando também de todas as atrocidades feitas pelo Tio Sam. Mas isso não dá tanto lucro.

Quando os recém atacados em seu próprio quintal assumirão que sua postura é predatória para o restante do mundo? Não almejo justificar a “re-ação”, e sim esclarecer as mentes desprovidas de bom senso, que se deixam conduzir pelo sencacionalismo.

É só lembrar o Protocolo de Kioto, a ALCA e tantas outras coisas que “desencadearão” muitas outras “re-ações” que eu nem perderei meu tempo explicando – é só esperar.

No intuito de aumentar a reflexão e mostrar que debaixo desse angu tem muita coisa além do caroço, publico alguns trechos das respostas do escritor Gore Vidal tiradas de uma entrevista concedida ao jornalista Marc Cooper do “L.A. Weekly” e, para fechar, dois decretos publicados no Diário Oficial pelo governo brasileiro.

…”A “ação” à qual Vidal se refere é a arrogância de um império americano no exterior (ilustrada por uma carta que, em 20 páginas, mapeia as aventuras militares dos EUA no exterior desde o final da Segunda Guerra Mundial) e um Estado policial nascente em casa.

A “reação” inevitável, diz ele, não é nada menos que a obra sangrenta de Osama bin Laden [terrorista saudita que lidera a Al Qaeda] e Timothy McVeigh. “Ambos se sentiram enfurecidos”, diz ele, “com as agressões impensadas lançadas por nosso governo contra outras sociedades” – e, assim, foram “levados” a responder com violência horrenda.

Não acho que nós, o povo americano, merecêssemos o que aconteceu. Tampouco merecemos o tipo de governo que temos tido nos últimos 40 anos.

Nossos governos atraíram esses fatos para nós com as ações que empreenderam em todo o mundo. Infelizmente só recebemos desinformação do “New York Times” e outros meios oficiais.

Os americanos não fazem idéia da extensão dos danos causados por seu governo. Desde 1947-48, já lançamos mais de 250 ataques militares contra outros países, sem provocação anterior.

Trata-se de grandes ataques em toda parte, do Panamá ao Irã. E essa nem sequer é uma lista completa. Ela não inclui lugares como o Chile, já que aquela [a deposição de Salvador Allende em 11 de setembro de 1973] foi uma operação da CIA.

Incluí na lista apenas os ataques das Forças Armadas. Ou essas coisas não são ditas aos americanos ou lhes é informado que atacamos porque, digamos, [o ex-ditador panamenho Manuel] Noriega era o ponto nevrálgico de todo o tráfico mundial de drogas, e precisávamos nos livrar dele. Então, no processo de nos livrarmos dele, matamos alguns panamenhos. O governo se aproveita da relativa inocência dos americanos ou, para ser mais preciso, de sua ignorância.

É provavelmente por isso que não se ensina geografia, de verdade, desde a Segunda Guerra Mundial -para manter as pessoas na ignorância sobre onde estamos detonando tudo, sobre por que a Enron [empresa de energia que quebrou em dezembro passado] quer explodir tudo ou por que a Unocal, uma grande empresa que constrói oleodutos, quer que uma guerra comece em determinado lugar.

E as pessoas dos países que recebem nossas bombas ficam iradas. Os afegãos não tinham nada a ver com o que aconteceu ao nosso país em 11 de setembro. Mas a Arábia Saudita, sim.

Parece que Bin Laden está envolvido, mas não sabemos ao certo. Quero dizer, quando fomos ao Afeganistão para tomar conta do país e detonar tudo, nosso general em comando, indagado sobre quanto tempo levaria para encontrar Bin Laden, fez cara de surpreso e disse: “Bem, não é para isso que estamos aqui”.

Na realidade -e isso é algo que você não verá dito em lugar nenhum, no momento- houve uma tentativa imperial de apossar-se de recursos energéticos. Até agora o golfo Pérsico tem sido nossa fonte principal de petróleo importado.

Fomos para lá, para o Afeganistão, não para tirar Bin Laden de lá e termos nossa vingança. Fomos para o Afeganistão em parte porque o Taleban -que nós mesmos instalamos no poder, na época da ocupação russa- estava ficando desvairado demais e porque a empresa californiana Unocal tinha feito um acordo com o Taleban para construir um oleoduto que lhe desse acesso ao petróleo da região do mar Cáspio, que é a maior reserva petrolífera do mundo.

Ela queria fazer com que aquele petróleo passasse por aquele oleoduto, atravessando o Afeganistão e o Paquistão até Karachi, e, de lá, o embarcar para a China, o que seria tremendamente lucrativo. Qualquer grande empresa que conseguisse participar desse negócio faria uma fortuna.

E você verá que essas empresas têm suas ligações com Bush, [o vice-presidente] Cheney, [o secretário da Defesa, Donald] Rumsfeld ou algum outro membro da “Junta do Gás e do Petróleo”, que, ao lado do Pentágono, governa os EUA.  Tínhamos planejado ocupar o Afeganistão em outubro [de 2001″, e Bin Laden, ou seja quem for que nos tenha golpeado em setembro, lançou um ataque preventivo antecipado.  Eles sabiam que estávamos a caminho.
E o ataque foi um aviso, uma tentativa de nos pegar desprevenidos.

Assim, o governo deveria pôr uma coisa em sua cabeça: que é odiado não só pelos estrangeiros cujos países destruíamos, mas também por americanos cujas vidas foram destruídas.

Todo o chamado movimento Patriota nos EUA teve sua origem em pessoas expulsas de suas fazendas familiares ou cujos pais ou avôs tinham sido expulsos. Temos milhões de cidadãos americanos ressentidos, que não gostam da maneira como o país está sendo conduzido.

Eles podem ser escravos, podem colher algodão ou fazer a mais recente coisa incômoda que existe a ser feita. Mas não terão, nas palavras de Richard Nixon, “uma parte na ação”.

Depois de 11 de setembro, o país ficou realmente apavorado e em choque. Bush faz uma pequena dança da guerra, fala sobre o “eixo do mal” e sobre todos os países que ele vai castigar.

E sobre quanto tempo isso vai levar, diz ele com um sorriso feliz, já que isso significa bilhões ou trilhões para o Pentágono e seus amigos do setor petrolífero. E isso significa refrear nossas liberdades.

Sim, do povo americano. Ele é convocado a dar respostas rápidas a várias perguntas: “Você o aprova?”. “Oh, sim, sim, sim, é claro. Isso mesmo, ele detonou todas aquelas cidades de nome estranho, lá longe.” Isso não quer dizer que as pessoas gostem dele. Ouça bem o que eu digo. Bush vai deixar o cargo como o presidente menos popular na história americana. A “junta” causou estragos demais.

Ela agiu de maneira suspeita, mostrando que já tinha a lei “USA Patriot” pronta para soltar, assim que fomos atacados. Estavam prontos para revogar o habeas corpus, os processos costumeiros da lei, a privacidade das comunicações entre advogado e cliente. Estavam prontos. O que significa que já conseguiram seu Estado policial..”

DECRETO No 3.267, DE 30 DE NOVEMBRO DE 1999.

Dispõe sobre a execução, no Território Nacional, da Resolução 1.267 (1999) do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que proíbe o trânsito de aeronaves de propriedade do regime do Taliban, bem como determina o bloqueio de fundos e bens pertencentes aos talibans.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso IV, da Constituição, Considerando a adoção, em 15 de outubro de 1999, da Resolução 1.267 do Conselho de Segurança das Nações Unidas,

D E C R E T A :

Art. 1o Fica proibido, no Território Nacional, o trânsito (pouso e decolagem) de aeronaves que sejam de propriedade de talibans, ou por eles arrendadas ou utilizadas, ou a serviço deles, salvo em casos de vôos previamente autorizados em virtude de razões humanitárias ou de obrigação religiosa.

Art. 2o Ficam bloqueados todos os fundos e demais recursos financeiros, incluindo os fundos produzidos ou gerados por bens de propriedade taliban, ou sob seu controle direto ou indireto, ou de qualquer empresa de propriedade de talibans, salvo autorização em contrário fundada em razões humanitárias.

Art. 3o Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 30 de novembro de 1999; 178º da Independência e 111º da República.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Gilberto Coutinho Paranhos Velloso

DECRETO Nº 3.755, DE 19 DE FEVEREIRO DE 2001

Dispõe sobre a execução, no Território Nacional, das sanções contra o Talibã e contra Osama bin Laden estabelecidas pela Resolução 1.333 (2000) do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso IV, da Constituição,
Considerando a adoção, em 19 de dezembro de 2000, da Resolução 1.333 do Conselho de Segurança das Nações Unidas,

D E C R E T A:

Art. 1º Fica proibido o fornecimento, a venda ou o envio de armamentos ou material bélico, incluindo munição, veículos militares, equipamentos paramilitares e peças de reposição para tais equipamentos ao território do Afeganistão sob o controle do Talibã.

Art. 2º Fica proibida a prestação de serviços de consultoria técnica, assistência ou treinamento a atividades militares do pessoal armado sob o controle do Talibã.

Parágrafo único. Fica proibida a permanência de oficiais, agentes, consultores ou militares brasileiros em território afegão com vistas ao exercício de qualquer das atividades enunciadas no caput deste artigo.

Art. 3º O disposto nos arts. 1º e 2º não se aplica a equipamento não-letal de uso exclusivamente humanitário ou defensivo, bem como à assistência técnica e ao treinamento aplicáveis a tais equipamentos.

Art. 4º Ficam bloqueados todos os fundos e demais recursos financeiros em nome de Osama bin Laden e de pessoas e empresas a ele associados, incluindo fundos produzidos ou gerados por bens de sua propriedade, ou que estejam sob seu controle direto ou indireto, assim como sob o controle de pessoas e empresas a ele associadas.

Art. 5º Fica proibida a abertura ou o funcionamento de escritórios do Talibã no Território Nacional.

Art. 6º Fica proibida a abertura ou o funcionamento de escritórios da Ariana Afghan Airlines no Território Nacional.

Art. 7º Fica proibida qualquer disponibilização de fundos e demais recursos financeiros, por parte de brasileiros ou pessoas de outra nacionalidade domiciliadas no Brasil, em favor de Osama bin Laden e de pessoas e empresas a ele associadas.

Art. 8º Fica proibido o fornecimento, a venda ou o envio da substância anidrido acético ao território do Afeganistão sob o controle do Talibã, ou a qualquer pessoa com o propósito de desenvolver atividades do Afeganistão sob o controle do Talibã.

Art. 9º Ficam proibidos, no Território Nacional, decolagens, pousos e sobrevôos de aeronaves vindas ou com destino ao território do Afeganistão sob o controle do Talibã, salvo em casos de vôos previamente autorizados em virtude de razões humanitárias ou de obrigação religiosa.

Art. 10. Fica proibida, no Território Nacional, a entrada ou a passagem de altos funcionários do Talibã, com posto de vice-ministro ou mais elevado, de pessoal armado sob controle do Talibã, com postos equivalentes, e de outros assessores graduados e dignitários do Talibã, salvo em caso de viagens com fins humanitários ou de obrigação religiosa.

Art. 11. As presentes sanções terão vigência de doze meses, podendo ser prorrogadas, mediante edição de novo Decreto, caso o Conselho de Segurança das Nações Unidas decida renová-las, na hipótese de descumprimento da Resolução 1.333 (2000) pelo Talibã.

Art. 12. O regime de sanções poderá ser suspenso a qualquer tempo, mediante edição de novo Decreto, caso o Conselho de Segurança das Nações Unidas decida que o Talibã está cumprindo as determinações contidas na Resolução 1.333 (2000).

Art. 13. O disposto neste Decreto se aplica sem prejuízo do Decreto nº 3.267, de 30 de novembro de 1999.

Art. 14. Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 19 de fevereiro de 2001; 180º da Independência e 113º da República.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Celso Lafer

Diário Oficial da União: 20/02/2001

Leiam também o meu artigo publicado após o ocorrido em setembro de 2001  A  re-ação de 11 de setembro.

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 13/09/2002 | Seção: Def Yuri

 

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