Esse é o Terceiro Setor?
Maio 15, 2008
Leitores: desde a semana passada fui surpreendido com informações que davam conta que um artigo meu estava circulando em um desses grupos de discussão da Internet, mais precisamente do “Terceiro Setor”.
Ao renegarem a realidade exposta no artigo “Desgraçados”, mostram o quão longe da realidade se encontram. Fiquei pensando: se essas pessoas andam nas ruas? Será que elas têm capacidade de analisar o que acontece? Ou será que a função deles é justamente dar suporte ao que aí está? Gostaria de frisar que, de início, fiquei na dúvida se as mensagens eram realmente de pessoas do terceiro setor – as que conheço, e me incluo nesse grupo, almejam uma melhor qualidade de vida para a população como um todo e não têm as características que descreverei na seqüência.
Só que para a minha decepção e de muitos que tiveram acesso às mensagens ficou nítido que o discurso bonito e trabalhado esconde características vitais daqueles que se beneficiam e fazem a manutenção desse estado de caos em que vivemos, com comentários que fariam Plínio Salgado vibrar de felicidade! Foi um verdadeiro show de como ser arrogante, reacionário, estúpido, prepotente, preconceituoso, intolerante, incapaz de lidar com as diferenças e agressivo – e olha que me chamaram disso! Parabéns! Pelo menos, nisso eles acertaram!!! Posso parecer agressivo para aqueles que vivem em redomas, porém posso também ser um exemplo de “estar pacífico” para os que vivem em meio a guerra.
A pior agressividade não está contida nos palavrões, nas gírias ou na linguagem de parcela majoritária da população que os hipócritas consideram “chula”, “pobre”, “tosca” e “rude”. Esta parcela majoritária que clama por justiça e por socorro das mais diferentes formas – e nem assim é ouvida, é atendida. Talvez por que sua fala seja interpretada como algo “despreparado de bom senso” ou não é “civilizadamente educada”.
A pior agressividade que é o estopim da violência, do ódio, vem oculta em falas requintadas, que tem como objetivo manter a situação a nossa volta inalterada. É essa agressividade que nos coloca, que coloca a maioria como vítimas preferenciais de um genocídio meticulosamente planejado. Genocídio esse que nos é apresentado das mais diferentes maneiras: falta de emprego, trabalho, acesso à justiça, saúde, alimentação, moradia, segurança, educação – que nos impede de conhecer a nossa história verdadeira, de conhecermos os nossos referenciais, de resgatarmos ou adquirirmos a auto-estima e nos apropriarmos da nossa própria história. E também de expressarmos nossa opinião.
Esse genocídio também se apresenta de maneira mais impiedosa através de dois braços. Um deles é a polícia, que tem suas estruturas necrosadas pela corrupção e passa longe da cidadania, dos Direitos Fundamentais do Homem, e seu foco de resistência interna é pouco ou é grande e omisso. E termina por ser uma cópia oficial ou legal, do outro braço que é o crime. Falo mais diretamente do tráfico (drogas e armas) que têm como parte exposta os “singelos” comerciantes de comunidades de baixa renda e seus empregados, que acabam por se tornar o inimigo perfeito e, diga-se de passagem, reciclável. E devido ao descaso da sociedade, a fila de espera é enorme.
O “suicídio” no crime às vezes se apresenta como solução para se estar momentaneamente inserido nessa sociedade onde o requisito básico para ser respeitado e notado é ter dinheiro. O poder é conseqüência deste. E o pior é que a ignorância e a hipocrisia vigentes legitimam tudo isso.
Posso afirmar que não existem um Estado oficial e outro paralelo, existe sim um único Estado promiscuo, que nos oferece diariamente a insegurança e o derramamento de sangue – muito sangue. E quem financia isso? Será que estou conseguindo me fazer entender? Vamos em frente: Novamente eu pergunto – quem são os financiadores dessa situação? Quem perde um “trocado” para não ser preso? Quem, para manter o seu prazer, estimula o derramamento de sangue, o derramamento de armas? Quem corrompe? Quem tenta, das mais diferentes formas, se isentar das responsabilidades e não admitir estar contribuindo com toda essa situação? Quem? Vamos, me digam!
Na dúvida, para responder essas perguntas peço que leiam novamente o artigo ”Desgraçados”.
Eu tento descrever o cenário de terror por que passam milhares de pessoas comuns, vítimas das mais diferentes formas de violência e, principalmente do preconceito, do racismo que afloram justamente naqueles que deveriam estar aptos a decifrar esse código caótico de violência e, a partir daí, buscar um ponto norteador para a mudança da nossa triste realidade. Essa incapacidade é algo realmente lamentável e infeliz. Afinal essas não são pessoas esclarecidas detentoras do saber? Profundas conhecedoras de tudo e de todos? Será que não conseguem entender o significado do termo “Desgraçados”? Não posso acreditar que pessoas habituadas a ler Foucault, Marx, Sartre, Rosa de Luxemburgo, Smith, Leonardo Boff, Da Matta, Skidmore, Bastide, Simone de Beauvoir, entre outros, não tenham a capacidade de interpretar e analisar corretamente um artigo que expõe a opinião de um cidadão oriundo da cultura Hip Hop – cultura essa que eles não tem idéia do que significa, seja por ignorância, preconceito ou má informação.
Para esses, digo que sou oriundo da maior manifestação de massas excluídas de todo o mundo. Seu nome: HIP HOP. Minha atitude de transpor os até então intransponíveis dogmas ideológicos assustou, não é mesmo? Talvez isso seja só o começo do que virá. Ou não! Realmente não dá para acreditar! Seria bom – nem sei se é possível – que nessas horas eles se apegassem ao conceito de humildade e admitissem que existe muita coisa além da redoma que os cerca e que os aprisiona, física e mentalmente. De nada servem as estantes repletas de livros. Os diplomas tomando as paredes. Isso não serve para nada se as mangas não forem arregaçadas e a “massa” mexida e estimulada. De nada servirão.
Torço para que as tarimbadas pessoas as quais dedico de coração este artigo não façam escola dentro do Hip Hop. Imaginem: daqui a pouco muitos podem ser tomados, não por um sentimento de agir e mudar, mas apenas pelo oportunismo e na intenção do lucro fácil.
Passem a utilizar iniciativas sociais importantes apenas com intuito de autopromoção e para chamar a atenção momentaneamente para um trabalho de qualidade e caráter duvidoso. Ainda bem que isso é só no campo da possibilidade, ou será que isso já acontece? Tomara que nós do Hip Hop estejamos livres dessa chaga… De volta às mensagens. Em uma delas, inclusive, constava a afirmativa de que eu estaria sob efeito de drogas quando escrevi o polêmico artigo. Devo parabenizar o agressor. Ele acertou em cheio. Eu não só estava sob efeito, como ainda me encontro, neste momento, sob o efeito de várias “drogas”: indignação, sofrimento, dor, frustração, revolta, esperança, fé, liberdade, amor ao próximo, são algumas delas, as quais estou sendo obrigado a usar regularmente e que me guiam pelas escaramuças dessa vida. Espero, um dia poder utilizar apenas a liberdade, a fé e o amor ao próximo, que já não estarão na condição de drogas. É obvio que esse indivíduo não entenderá meu trocadilho, para ele não terá propósito. Fazer o quê? É somente mais um alienígena vil, que demonstra não ter idéia das conseqüências e implicações de sua afirmativa. Eu nem deveria citar esse caso, pois isso é o máximo que um ser medíocre e irracional consegue fazer. E ainda se intitula exemplo de alguma coisa: da moral e blá, blá, blá. É lamentável! Realmente lamentável. Mais uma vez peço compreensão aos meus leitores habituais. É importante que todos saibam como pensam essas pessoas e tomem cuidado quando indivíduos com as mesmas características aparecerem com seus incríveis projetos e preocupações sociais, que na prática não visam nada.
Aliás, só visam nos silenciar, nos manter sob controle. Se algum desses resolver abordá-los, respondam: não! Eu faço a minha parte no mundo real! Ou se estiverem inseridos em algum projeto social, digam: eu sou do Terceiro Setor que faz! Quero frisar que nem tudo está perdido. Existem “exceções” nessa lista do Terceiro Setor. Boas exceções, diga-se de passagem. Agradeço a estes não só pelo apoio e sim pela capacidade de discernir – vocês são realmente uma exceção. E digo que ainda há tempo de vocês procurarem um grupo melhor preparado, mais democrático e menos hipócrita. Confesso que cheguei a pensar em publicar algumas mensagens para vocês, leitores, tirarem suas conclusões, porém, acredito que temos assuntos muito mais importantes para publicar nessa coluna. E não vale a pena ficar dando muita visibilidade para alienígenas – vai que eles conseguem nos lobotomizar! Brincadeira. Sabemos que isso é impossível. Obrigado a todos que me enviaram mensagens de apoio ou não. Parabéns pela participação. O debate sobre temas polêmicos se faz necessário para que se encontrem soluções para as nossas mazelas reais e não virtuais.
“Mais uma vez o soldado anti-sistema pega o microfone, Facção Anti-Sistema – aqui Erick 12. Tô de campana a mais de uma semana… e o inimigo avança, metranca – tá aqui. Minha mente é munição, concentração, pé no chão – eu tô firmão. Capaz de fazer guerra pra ter paz, paz! Se pra você tanto faz? Então aqui jaz. Quem não cola é pipoca. Quando a chapa esquenta estoura. Um click – não se mexe! Mais um virou história. Agora é hora, de examinar a tática do pelotão. Pois quem não ouve com paciência, não decide com precisão. Televisão. Alvo 1 – Bum… atacar! Falar o que o povo necessita, fala paras os manos que maconha é uma merda. Essa é a idéia…”
Facção Anti- Sistema
Reclamações, elogios, ameaças: def.yuri@gmail.com
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 30/08/2002 | Seção: Def Yuri