Em decorrência da minha última publicação, estou recebendo várias mensagens e em uma delas veio um artigo publicado por Sylvio Guedes, editor-chefe do Jornal de Brasília. Onde ele critica o “cinismo” dos jornalistas, artistas e intelectuais ao defenderem o fim do poder paralelo dos chefes do tráfico de drogas e suas quadrilhas. Guedes desafia a todos que “tanto se drogaram nas últimas décadas que venham a público assumir: eu ajudei a destruir o Rio de Janeiro”.

Claro que os desgraçados citados não aceitaram esse desafio, ficaram nas sombras se alimentando do sangue, medo e angústia da parcela majoritária da população – diga-se de passagem negra – que se encontra a mercê das “violências”, as praticadas a partir de armas de fogo ou das canetas. Não importa, ambas causam o mesmo estrago e o resultado é a alienação e/ou silêncio.

Confesso que para mim foi muito importante perceber que a discussão começa a pegar fogo e uma outra visão enfim pôde ser apresentada, sem hipocrisia ou dissimulações.

Quero agradecer a força dada pelo pessoal do Bocada Forte e do Real Hip Hop – sem o apoio de vocês e de todos aqueles que me enviaram e me enviam mensagens, o pavio a essas alturas não estaria aceso. O Hip Hop não pode ser omisso, quero dizer, uma parcela do Hip Hop não pode ser omissa – a outra não tem jeito, só reproduz o que já está em vigência, é descartável. Portanto, peço que todos acompanhem com atenção o texto a seguir e reflitam:

Eles ajudaram a destruir o Rio

“É irônico que a classe artística e a categoria dos jornalistas estejam agora na, por assim dizer, vanguarda da atual campanha contra a violência enfrentada pelo Rio de Janeiro. Essa postura é produto do absoluto cinismo de muitas das pessoas e instituições que vemos participando de atos, fazendo declarações e defendendo o fim do poder paralelo dos chefões do tráfico de drogas. Quando a cocaína começou a se infiltrar de fato no Rio de Janeiro, lá pelo fim da década de 70, entrou pela porta da frente.

Pela classe média, pelas festinhas de embalo da Zona Sul, pelas danceterias, pelos barzinhos de Ipanema e Leblon. Invadiu e se instalou nas redações de jornais e nas emissoras de TV, sob o silêncio comprometedor de suas chefias e diretorias. Quanto mais glamuroso o ambiente, quanto mais supostamente intelectualizado o grupo, mais você podia encontrar gente cheirando carreiras e carreiras do pó branco. Em uma espúria relação de cumplicidade, imprensa e classe artística (que tanto se orgulham de serem, ambas, formadoras de opinião) de fato contribuíram enormemente para que o consumo das drogas, em especial da cocaína, se disseminasse no seio da sociedade carioca – e brasileira, por
extensão. Achavam o máximo. Era, como se costumava dizer, um barato. Festa sem cocaína era festa careta.

As pessoas curtiam a comodidade proporcionada pelos fornecedores: entregavam a droga em casa, sem a necessidade de inconvenientes viagens ao decaído mundo dos morros, vizinhos aos edifícios ricos do asfalto. Nem é preciso detalhar como essa simples relação econômica de mercado terminou.

Onde há demanda, deve haver a necessária oferta. E assim, com tanta gente endinheirada disposta e cheirar ou injetar sua dose diária de cocaína, os pés-de-chinelo das favelas viraram barões das drogas.

Há farta literatura mostrando como as conexões dos meliantes rastacuera, que só fumavam um baseado aqui e acolá, se tornaram senhores de um império, tomaram de assalto a mais linda cidade do país e agora cortam cabeças de quem ousa lhes cruzar o caminho e as exibem em bandejas, certos da impunidade. Qualquer mentecapto sabe que não pode persistir um sistema jurídico em que é proibida e reprimida a produção e venda da droga, porém seu consumo é, digamos assim, tolerado. São doentes os que consomem. Não sabem o que fazem. Não têm controle sobre seus atos. Destroem famílias, arrasam lares, destroçam futuros.

Que a mídia, os artistas e os intelectuais que tanto se drogaram nas duas últimas décadas venham a público assumir: eu ajudei a destruir o Rio de Janeiro. Façam um adesivo e preguem no vidro de seus Audis, BMWs e Mercedes.”

Publicado no Jornal de Brasília por Sylvio Guedes

“Se ficar calado fosse sinônimo de segurança com certeza só haveria silêncio”

Pensamento de origem árabe.

 

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br  | 02/08/2002 | Seção: Def Yuri                                        

 

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