E Deus contra todos

Maio 15, 2008

Enquanto me preparava para continuar retratando os bastidores da nossa guerra insana, me vem à cabeça a lembrança de um artigo que eu não cheguei a publicar e que narrava um episódio ocorrido na Vila Cruzeiro, o mesmo lugar do assassinato mais badalado do momento, destaque no mundo inteiro. Só um episódio em que as vítimas são conhecidas pode fazer com que o governo se mobilize.

Digo isso por que acabo de saber da criação de um parque ambiental no Complexo do Alemão e outros “benefícios” – tô de saco cheio desses paliativos que anestesiam ainda mais a nossa população, tirando do foco os principais problemas: saúde, educação, Justiça, trabalho… Mergulhem no texto e visualizem as cenas que descreverei a seguir: domingo, 23 de setembro de 2001, comunidade da Vila Cruzeiro, Zona Norte do Rio de Janeiro. Aqui está sendo realizado um evento chamado   “Conexões urbanas”, em que vários artistas se apresentarão.

O campo de futebol está lotado de crianças que participam de uma programação preliminar. Até então, essa atividade seria impensável. A alegria da criançada foi a única coisa que desviou momentaneamente a minha atenção, pois estava trabalhando na produção do evento e isso era um incentivo a mais para mim. De repente, chama a minha atenção a passagem de um comboio da Polícia Militar – três viaturas. Pensei: “Vai dar merda!”. Não deu outra.
Em um segundo, o barulho das crianças é abafado pelo som das rajadas: o cenário de festa agora se transforma num cenário de pânico, o isolamento do palco foi invadido e a correria não pára, crianças desesperadas, idosos tentam fugir. A revolta é total…

Os policiais se mostram muito preparados, preparados para apavorar a população que vive refém de atos como esse. A produção do evento foi falar com os policiais sobre o que acabara de ocorrer e os policiais alegaram que sofreram uma agressão a tiros por parte dos traficantes, que estariam no alto das lajes. Só que as lajes estavam repletas de famílias que assistiam ao evento e de um grupo de policiais! Logo, penso que estariam os policiais trocando tiros com eles mesmos? Ou vale a máxima “atire primeiro e pergunte depois”? Essa é a única explicação. A gritaria era grande, os nervos à flor da pele. Pelos rádios, os que trabalhavam na produção foram avisados de que, no extremo oposto ao local do evento, a coisa também estava séria.

No caminho, percebi que o número de policiais era enorme para uma ação não-pensada – mais de trinta homens com toda certeza. Alguém tenta dialogar, mas os agentes da autoridade policial se mostram avessos a qualquer negociação. A comunidade continua assustada e o clima para lá de tenso. Um rapaz chegou a ser preso porque estava demorando a manobrar o carro – sabem a alegação? – Desacato à autoridade!

A imprensa começa a chegar. As coisas vão se acalmando, já se passaram uns 50 minutos desde o inicio do “show” promovido pelos policiais – e, como dizem, o show de verdade tem que continuar. Este é só mais um dos milhares de casos de violência que traumatizam a nossa população. E ainda dizem – se Deus é por nós… deve ser a tal da esperança.

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br  | 11/07/2002 | Seção: Def Yuri

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