Desgraçados

Maio 15, 2008

Eu poderia continuar falando – e vou continuar – sobre qualquer ato de violência. Porém, este artigo é especialmente direcionado aos Desgraçados que insuflam essa situação, que financiam. Falo de vocês, usuários de drogas ilícitas, mais conhecidos como viciados ou doentes, sei lá. São vocês, Desgraçados, que, na ânsia de saciar o seu prazer ou em alguns casos de aliviar o sofrimento, despejam muito dinheiro em um dos maiores filões comerciais do mundo. É a partir daí que se inicia a corrida armamentista que abarrota regiões carentes de tudo, com sua imensa variedade de armas e calibres que ensurdecem as noites e aterrorizam os dias levando o medo e a morte. Mas vocês não moram lá, né? Se bem que muitos Desgraçados moram…

São vocês, Desgraçados, que quando não têm mais onde adquirir recursos vão roubar os outros nos sinais, vão roubar trabalhador em ônibus. São vocês que, de pouquinho em pouquinho, corrompem a secularmente corrompida polícia. E vocês estão trabalhando em causa própria. São vocês, Desgraçados, que fingem e brincam de fazer revoluções a partir de colégios, universidades, partidos, mas na verdade querem apenas se divertir com suas drogas e depois quando alcançarem seus objetivos (se é que têm) instantaneamente esquecerão o que fizeram e engrossarão as fileiras (calma, não estou falando de coca – se contenham) daqueles que oprimem.

Desgraçados, vocês formam o grupo social mais sectário e fascista, para vocês todos devem ser doentes, as suas relações de amizades são construídas baseadas no escambo de substancias entorpecentes, sem elas não existe amizade, sem elas não existe respeito. Desgraçados, não pensem que sou contrário à sua existência, faça da sua vida o que bem quiser, apenas tenham a noção de que esse estado de caos em que vivemos existe graças principalmente a vocês.

Quantos Desgraçados em toda a sociedade se indignam com os atos de violência, não é verdade? Eu pergunto: será que os Desgraçados vão deixar de financiar o(s) crime(s)? Será que conseguem fazer abstinência? Penso que não. Costumo dizer que uma cheirada é uma vida, que um bagulho é uma vida. Não estou falando na vida de quem usa – quero que vocês se fodam! Falo de uma infinidade de mortes – abram os jornais nas páginas policiais e se orgulhem dos seus feitos. É, seus Desgraçados! Como diz a letra da música O conivente – “Se fossem só vocês, eu nem ligava”. Porém, não podemos e não vamos nos render a vocês.

São vocês, Desgraçados, que levam a morte, sei que vocês estão em todas as partes, em todos os cantos e setores da sociedade. São policiais, advogados, juizes, jornalistas, comerciantes… Não importa – quero que se fodam! Não estou nem aí. Quando um ente querido seu for vitima da violência, pense um milhão de vezes antes de abrir esta merda de boca para reclamar de alguma coisa. Não adianta fazer barulho. Vocês são cúmplices desses atos, seus Desgraçados!

Na hora que o esquife de um ente querido estiver para ser fechado, chegue no ouvido dele e peça perdão por ter sublimado a vida dele. Os Desgraçados que têm dinheiro negociam a liberdade e continuam empurrando muitos para a economia informal e para a mira dos esquadrões da morte. É, são esses, os desprovidos de informações e desesperançosos pela falta de oportunidade de uma vida digna, que terminam por abarrotar as prisões, digo os depósitos de gente, onde a sociabilização é algo praticamente impossível.

Um certo dia, eu conversava com um Desgraçado conhecido meu sobre uma manifestação que ocorreu na Zona Sul do Rio pela discriminalização da maconha e perguntei se ele tinha participado. A resposta dele é uma amostra de como é o pensamento da maioria Desgraçada. Ele disse: “É ruim de eu ir numa parada dessas… O que eu vou falar na minha universidade, no meu estágio, para a minha família… É ruim, hein! Eu quero mais é que a policia enfie a porrada naquela playboyzada filha da puta…” Observaram como é impressionante? O indivíduo em questão está se formando em Direito e tem como meta concorrer a concursos públicos. Fico pensando: É assim que nasce o pior dos “reaças”. Imaginem ele como delegado, ou melhor, juiz. Pensem como a caneta será pesada. Imaginem esse indivíduo julgando um traficante oriundo de comunidade de baixa renda – será que ele lembrará que é cúmplice? Ao questioná-lo sobre a sua fala iniciou-se um verdadeiro debate. Ele tentou argumentar que o teor do principio ativo da maconha, conhecido como THC (Tetra Hidro Cannabinol) era praticamente inofensivo, me disse que o teor era de 3%. Falei que esse teor era nos anos 60 e que, hoje em dia, chega a cerca de 68%. Portanto, não é tão inofensivo. Tentou argumentar sobre o cânhamo…

Tive que responder que sabia das propriedades do cânhamo e que a não-utilização dessa fibra se dá pela pressão de diferentes setores da industria estadunidense, pois se faz praticamente tudo com essa fibra. Aliás, ela foi muito usada na segunda guerra mundial. Enquanto eu falava, ele me olhava bolado e me brindou com a seguinte pérola – você já usou? Respondi que não. Então, ele disse: por que você se interessa por esse assunto? Eu disse que a minha porrada tem que ser fundamentada. Ele me perguntou se eu era contrário à discriminalização da maconha, eu respondi que era, e que só era favorável à sua legalização, pois essa lei que entrou em vigor agora foi feita com o intuito de salvaguardar aqueles que têm mais recursos – é a legitimação da impunidade. Os legisladores legislam em causa própria – amanhã, de repente, um filho é detido com drogas, quem sabe… Voltando para os que sofrem.

Desgraçados, como vocês se sentiriam ao terem suas casas invadidas, sua família à mercê do Deus dará, sem ter a quem recorrer? Como vocês se sentiriam? Não vale responder sob o efeito de substâncias psicoativas. Desgraçados, não pensem que sou contrário à sua existência. Tenho muitos conhecidos nessa mesma condição, uns entendem a minha argumentação – para mim, isso é muito bom, pois mostra que os neurônios que sobraram neles são os que movem, mesmo que de maneira diminuta, a razão. Outros ficam meio bolados, mas têm que ouvir, pois eles, mais do que ninguém, devem primar por um estado democrático, onde se tenha liberdade para discutir e questionar. É como eu disse anteriormente: façam da sua vida o que bem entender.

Apenas tenham a noção de que esse estado de caos em que vivemos existe graças principalmente a vocês. A manutenção da conduta de vocês fará com que o viver em paz fique cada vez mais longe. Será que vocês estão preparados para o que virá? Muitos pensam como eu. Desgraçados ou não, enviem seus comentários para: def.yuri@gmail.com Lembrando que todos os artigos publicados nesta coluna são de minha inteira responsabilidade. Portanto, estou aí, utilizando a liberdade de expressão do hip hop que transcende qualquer outra – isenta e sem medo.

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 31/07/2002 | Seção: Def Yuri

3 Responses to “Desgraçados”


  1. [...] Posso afirmar que não existem um Estado oficial e outro paralelo, existe sim um único Estado promiscuo, que nos oferece diariamente a insegurança e o derramamento de sangue – muito sangue. E quem financia isso? Será que estou conseguindo me fazer entender? Vamos em frente: Novamente eu pergunto – quem são os financiadores dessa situação? Quem perde um “trocado” para não ser preso? Quem, para manter o seu prazer, estimula o derramamento de sangue, o derramamento de armas? Quem corrompe? Quem tenta, das mais diferentes formas, se isentar das responsabilidades e não admitir estar contribuindo com toda essa situação? Quem? Vamos, me digam! Na dúvida, para responder essas perguntas peço que leiam novamente o artigo ”Desgraçados”. [...]


  2. [...] Todos aqueles que envenenam o seu povo, que levam o ódio para os seus iguais, a desgraça (leia Desgraçados )  e a opressão, que lucram com o genocídio do negro no Brasil, que incentivam a perpetuação [...]


  3. [...] fodam os interesses! Que se fodam os diferentes lados da opressão! Que se fodam os desgraçados (“Desgraçados” ) que são os grandes acionistas dessa merda! Que se [...]


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