De cálice em cálice
Maio 15, 2008
E aí leitor, beleza? Espero que tudo esteja um pouco melhor que antes – viu como estou otimista? Você está pronto para mais um artigo? Então vamos, acabei de colocar no som uma fita que não escuto há tempos. A melodia e a letra vão tomando, aos poucos, o ambiente. E vão ao encontro do que eu pretendo abordar: as “idas e vindas” do cerceamento nesse mundo. Essa semana está sendo agitada. Continuo recebendo muitas mensagens em decorrência dos últimos artigos – é bom perceber que pessoas como você, leitor, estão se mobilizando para discutir um tema que é para lá de corriqueiro e importuno.
Claro, digo, escuro, que nada é perfeito, pois ao questionar indivíduos contaminados com o vírus da alienação ou da manipulação, mexo com a capacidade dos mesmos de analisarem o universo ao seu redor e isso os apavora, pois hombridade, discernimento e moral não são características fortes nesse grupo – não sou eu que afirmo isso, são os fatos! É leitor, “eles” não compreenderam o convite à reflexão e à luta por mudança. Presos no egoísmo, só entendem o que é apresentado através da coerção, que muitas vezes se apresenta de forma violenta – isto é uma pena! Realmente uma pena!
Não peço para concordarem com que eu escrevo, porém peço para pensarem no bem estar comum, afinal não estamos sozinhos nessa vida – temos amigos, entes queridos, e uma infinidade de pessoas que orbitam à nossa volta. Até o ser mais desprezível é querido ou desperta a preocupação de alguém. Até quando nós ficaremos na inércia, à mercê de Desgraçados e Degenerados em geral, que só estão comprometidos com o seu prazer e nada mais? E não me venha com discurso de “nós negros”, “nós o povo” ou “nós do Hip Hop”! – Não vou te aliviar só porque tem a mesma cor que eu ou é adepto da mesma cultura. Que se foda! Está provado que o inimigo do Hip Hop está no espelho – eu sempre disse isso, e tomo a liberdade de “samplear” e dar novo sentido ao título de um livro: Quando o Hip Hop despertar, o Brasil tremerá! Por enquanto, o sono está meio pesado – e o pior é que começo a achar que é de propósito. E tudo isso nos leva para depois do fundo do poço – nós já chegamos ao fundo faz tempo.
Penso se existem diferenças entre Torquemada e Garrastazu Medici; entre o “antigo” DOPS e alguma associação de veículos de comunicação com suas estranhas regulamentações; entre “playboys” alienados e “manos” conscientes… Vivemos em um mundo de fachada, onde criticamos, reclamamos e terminamos por reproduzir o que é mais grotesco. Você já leu os desabafos do pessoal do www.mundodarua.com.br na coluna Presença do Viva Favela? É ou não é um absurdo o que aconteceu com os caras? Como pode, uma vertente do Hip Hop forte, galgada na democracia, melhor, plutocracia ser rotulada como coisa de “boy”? Tá certo que grande parte, digo, a maioria dos adeptos da cultura Hip Hop, assim como a maioria dos brasileiros, não tenham acesso à INTERNET, porém, vale frisar que essa grande maioria, seja do Hip Hop ou não, também não tem recursos para comprar revistas estrangeiras e nacionais, CDs a R$ 30, camisetas, calças, TV por assinatura e outros adereços que são igualmente caros – não são nada populares. Não sei se você concorda, mas a maior “playbozisse” são uns indivíduos que parasitam o Hip Hop colocando-o como mera fonte de consumo e modismo, incutindo uma infinidade de merdas na cabeça de uma juventude desesperançosa, que se encontra sem referênciais, sem perspectivas, sem auto estima, à mercê da degeneração H2 estadunidense ou mesmo brasileira – temos os nossos próprios degenerados. Que merda! E é essa juventude que vira presa fácil para o regime. Este se torna cada vez mais forte graças à intensa e constante contribuição dos nossos capitães do mato modernos com seus apetrechos para fuga da realidade.
Penso e (re)penso nas pressões que sofremos ininterruptamente todos os dias para que abdiquemos das nossas posições e dos nossos anseios. Penso no medo que pessoas como eu e você, que está me lendo agora, podem gerar – não o medo de que sejamos violentos, e sim, o medo da nossa inteligência, da nossa articulação, indignação e determinação. É muito mais fácil silenciar do que questionar, se omitir do que lutar ou confundir revolução com simples e fútil degeneração. Escolha o lado coerente.
Sei que sou parte das exceções e não pensem que, ao afirmar isso, estou sendo presunçoso, individualista ou arrogante – só estou querendo dizer que estou na sobrevida. Já são mais de trinta ciclos!
Muito poucos – e coloquem poucos nisso – que conviveram comigo chegaram próximos dessa idade. Portanto, o melhor que eu faço é pegar um cálice e brindar, brindar, aos que resistem e repetir a letra da música que motivou essa minha escrita:
Como beber dessa bebida amarga,
Tragar a dor, engolir a labuta?
Mesmo calada a boca resta o peito.
Silêncio na cidade não se escuta.
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra.
Outra realidade menos morta,
Tanta mentira, tanta foça bruta.
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite em me dano.
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado.
Esse silêncio todo me atordoa.
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa.
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue.
De muito gorda a porca já não anda.
De muito usada a faca já não corta.
Como é difícil, pai, abrir a porta,
Essa palavra presa na garganta,
Esse pileque homérico no mundo.
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade.
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue.
Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado.
Quero inventar o meu próprio pecado.
Quero morrer do meu próprio veneno.
Quero perder de vez tua cabeça,
Minha cabeça perder teu juízo.
Quero cheirar fumaça de óleo diesel,
Me embriagar até que alguém me esqueça.
Essa letra que acabou de ler é da música Cálice, de autoria de Gilberto Gil e Chico Buarque, e serve para que reflitamos sobre a mordaça, a auto-censura, e a censura que paira no dia a dia, no universo Hip Hop e afins. Não podemos e não devemos nos submeter – nunca. Que os resquícios do “sistema” sejam alijados do nosso “sistema”. O despertar se torna necessário, se não a capitulação será inevitável. E muitos segmentos já capitularam – lembre que os primeiros passos são a alienação e a falta de compreensão daquilo que nos atinge em cheio.
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 13/08/2002 | Seção: Def Yuri