Até tu, Cuba?
Maio 15, 2008
Acabo de ler mais um capítulo do livro Sombras do Paraíso*, escrito por um grande camarada chamado Antônio Rangel Bandeira, que aborda a questão do racismo na ilha de Fidel Castro. Ao acompanhar a narrativa, eu percebia as incríveis semelhanças entre a nossa democracia racial e aquela ditadura de esquerda, que apesar de avanços significativos em algumas áreas, em outras primordiais peca e peca feio. Tanto em Cuba quanto no Brasil, “os negros têm que cometer suicídio, enquanto negros, para poderem existir enquanto brasileiros ou cubanos”. Estou citando a fala de alguém. Seria Skidmore? Deixa pra lá …quando lembrar eu falo.
É fato ter que renegar suas tradições culturais e religiosas para dar suporte ao regime. O próprio Fidel disse que “o cubano é visceralmente racista” e, em entrevista a Frei Beto disse que quando estava na escola perguntou ao professor do elitista Colégio Belém por que não havia negros na sala de aula. A resposta é digna do racismo cordial brasileiro: eles (negros) não se sentiram bem entre brancos”. Como forma de aplacar a luta por direitos nos Estados Unidos, o governo impôs a integração racial. Em Cuba não foi diferente. Lá há escolas só para negros, só para brancos e só para mestiços. Parece que estou falando do apartheid sulafricano, não é mesmo? Porém, esse último na lei acabou – no dia a dia, não sei.
E, após todas as “classes”, em Cuba, chegarem juntas ao poder, as divisões foram inevitáveis. É bom observar que o antigo ditador Fugêncio Batista era negro e tinha uma grande rejeição por parte da população “esclarecida”. Esse detalhe aliado a outras características menos nobres foram o combustível para a revolução – por que será que ninguém fala disso? Imediatamente me vem a cabeça uma reportagem que vi sobre uma reunião dos líderes de um partido bastante popular no Brasil, na qual só foi possível observar dois ou três negros – isso é só um detalhe, mas eu, particularmente, prefiro que tenham poucas pessoas que realmente representem ou outros que compartilhem da causa, do que uma multidão de alienados e/ou manipulados.
Assim como no Brasil, apesar das proibições no que diz respeito às estatísticas sobre o tema, Cuba é constituída por maioria negra. Dados apontam que 65% a 70 % da população são afrodescendentes, quero dizer, negros e mulatos, pois afrodescendentes são todos os seres humanos. Mas será que racista é ser humano? Apesar dessa grande maioria, apenas nove negros ou mulatos fazem parte do grupo de 148 membros do comitê central do Partido Comunista Cubano e só dois negros integram os 14 membros do Politburo, núcleo central do poder – vejam que exemplo de igualdade e de integração! Vale frisar e reconhecer que a revolução cubana “favoreceu” as populações pobres, em boa parte, constituída por negros e mulatos. É de se esperar que eles tenham se tornado o grande suporte do regime. Segundo o escritor Antônio Rangel Bandeira, em contrapartida, o regime cobra pesado por haver melhorado a situação dessa gente.
O negro que não se encontra “integrado”, que não se diz comunista é mais maltratado que o branco nessa condição. É considerado duplamente traidor: da revolução e da raça. Como em um grande país da América do sul, a polícia trata os negros e mulatos de maneira “especial” – eu pergunto quem está imitando quem? Certamente pessoas brancas alienadas e negros ou mulatos sob intenso processo de “embranquecimento” vão discordar de mim – que se fodam! Essas “pessoas” são tão ignóbeis, que daqui a pouco serão capazes de cometer o desatino de afirmar que o racismo é uma doença da cabeça de todos os negros. E que tudo não passa de uma paranóia. E o pior é que muitos iguais concordam com essa porra de argumento, e se submetem, não conseguindo insurgir de “múltiplas” maneiras contra tudo isso. A alguns anos atrás recebi umas informações de que alguns grupos cubanos de rep mais contundentes – será que seriam realmente contundentes? Vocês sabem, ditadura é foda! Seja lá no Caribe, ou aqui mesmo – nos tribunais do tráfico, ou nos de direito) – se portavam de uma maneira mais estadunidense no intuito de provocar o regime.
Esse é um fato bastante interessante. Lembram do meu artigo Pluralidade Doida? Acessem o arquivo dos meus artigos e vejam o quão contraditório é esse mundo. E o rep se espalha atendendo as mais diferentes demandas e/ou expectativas. Nos Estados Unidos, grupos de rep politizados – esses são raros – estão praticamente em extinção. Utilizam símbolos de Cuba para mostrar que são contra a política que impera em seu país e exaltam os “benefícios” do regime (revolução) na ilha – no Brasil não é diferente.
De volta à Cuba, penso que certamente os grupos e/ou rimadores mais contundentes sofreram (sofrem) algum tipo de sanção. Falo isso porque, se na nossa ditadurocracia volta e meia acontecem uns “probleminhas”, imaginem lá?
Todas as vezes que abordei esse assunto algumas pessoas levaram com ceticismo e afirmavam: em Cuba é diferente. Repressão contra o rep lá não acontece. Lá se pode falar sem temer o sistema e blá, blá, blá. As discussões eram e foram inúmeras com pessoas que se intitulam profundos conhecedores daquele país e alguns até são.
A minha pergunta é: será que eles tiveram acesso ao rep mesmo ou apenas tiveram acesso a sua vertente que é adepta de uma revolta permitida e controlada. Atendendo e fazendo o papel de propagandistas do Estado. Mais uma vez parece o Brasil, onde várias instituições político-partidárias tentam manipular e controlar o rep assim como seus co-irmãos que juntos formam a cultura hip hop. Muitos já foram lobotomizados. Porém, para desespero dos algozes de cérebros, eu resisto! Enquanto eu me preparava para fechar este artigo, me foi enviada uma mensagem que continha informações sobre um festival de rep em Cuba. Acompanhem na íntegra o que me foi enviado e vejam se os meus comentários estão errados ou não tem sentido.
Festival de rap cubano começa com protestos *
“Jovens negros vaiaram a polícia na quinta-feira à noite num show de rap em Cuba, um movimento cultural que vem crescendo explosivamente na ilha comunista economicamente decadente.
Enquanto o rapper Papa Humbertico cuspia críticas à discriminação racial e aos maus tratos da polícia, o teatro ao ar livre na cidade-dormitório de Alamar, repleto de milhares de jovens, vibrou com vaias. Uma faixa aberta atrás do rapper dizia “denúncia social” – uma rara manifestação de protesto em Cuba. Polícia, você não é minha amiga/ para o jovem cubano, você é o pior castigo”, dizia Humbertico em seu rap. No show que abriu o Festival Habana Hip Hop 2002, os rappers expressaram sua frustração com a repressão policial, a corrupção no governo e a dura realidade econômica que obriga garotas cubanas a se prostituírem com turistas estrangeiros.
O vibrante movimento rap surgiu em meio à crise econômica que se seguiu à queda da União Soviética, maior aliada cubana, uma década atrás. Jovens, em sua maioria negros, adotaram os gestos e as letras agressivas dos rappers das áreas urbanas decadentes dos EUA.
Num primeiro momento, o Partido Comunista (governante) censurou o rap, mas, em seguida, optou por tentar assimilar o fenômeno social crescente, permitindo sua difusão na rádio e TV e organizando um festival anual.
Muitos dos mais de 500 grupos de rap cubanos nasceram em Alamar, uma cidade de 300 mil habitantes, em sua maioria negros, que vivem na periferia de Havana em altos edifícios de concreto construídos na década de 1970 para técnicos e operários soviéticos.
O rap cubano virou sucesso internacional nos últimos dois anos com o sucesso, na França, do grupo Orishas, de Alamar. O nome vem dos orixás iorubas, venerados na ilha caribenha povoada séculos atrás por escravos trazidos da África. Os rappers cubanos dizem que sua música se espalhou rapidamente porque os jovens negros identificam-se com suas letras, que verbalizam a frustração de uma geração que não viu os benefícios da revolução socialista liderada pelo presidente Fidel Castro, no poder desde 1959″.
Constantemente vejo as bandeiras Cubanas nas nossas camisetas, as idéias nem sempre bem interpretadas inseridas no nosso dia a dia, tudo assimilado e degustado tal qual os “enlatados” estadunidenses. Sem questionamento.
Enquanto isso, os que lutaram e aqui lutam, comumente são esquecidos e só são lembrados por hordas de idiotas que visam manipular o povo e salvaguardar o que é seu – será que eles repartem o bolo?
Muitos falam sobre a questão racial, analisam Estados Unidos e Brasil, apontando Cuba como solução. No final das contas, é tudo a mesma merda. O mesmo desrespeito, o mesmo sofrimento.
Nós devemos ficar atentos às manipulações e buscar soluções que venham atender nossos anseios. Negros ou pretos, sei lá, aqueles que vivem sempre à mercê de vários regimes e interesses têm que acordar ou se deixarem acordar. Em tempos de articulações que visam uma maior organização do Hip Hop brasileiro, todos os adeptos da cultura Hip Hop devem tomar cuidado para não serem apenas massa de manobra ou meros “samples” das asneiras alheias. Estejamos atentos ao que acontece a nossa volta, não nos iludindo com qualquer coisa, com qualquer esmola ou migalha.
“O grande problema deste país é que várias gerações embarcaram na conquista de um sonho, mas só alcançaram um pesadelo e não querem reconhecê-lo.”
Alina Revuelta , filha de Fidel Castro
*Sombras do Paraíso, Rangel Antônio Bandeira, Editora Record.
*Fonte: Reuters, 19/08/2002, em Havana
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 20/08/2002 | Seção: Def Yuri