Ultimamente, o Rio de Janeiro vem sendo bombardeado por incríveis iniciativas por parte de políticos e de setores conservadores, que almejam o retorno da catequização forçada de parte da população. A começar pelas crianças que serão os primeiros alvos dessa lobotomia. Eles almejam transformar o Brasil, partindo do Rio de Janeiro em uma teocracia. Na verdade os objetivos são outros. Até quando parte da população terá as suas convicções religiosas desrespeitadas ? E a liberdade de culto ? E as leis ? Só valem para uns ? – Chega dessa palhaçada de imposição de salmos e etc.  Pode ser maravilhoso para uns, e extremamente desnecessário para outros. Cada qual deve acreditar no seu deus ou nos seus deuses .

Essa intolerância que se faz presente desde o pseudo-descobrimento, quer renascer a qualquer custo. Só que os argumentos estão vencidos . Essa fé cega é que respaldou a escravidão e outras perseguições, essa fé doentia é que induz à proliferação de crianças em situação de risco em detrimento dos métodos contraceptivos, e que legitima o genocídio causado pela SIDA (AIDS) . A fé verdadeira é positiva, é até vital para a vida. É um conforto, seja lá fé em que. Trago para vocês uma matéria que foi publicada em março do ano passado, portanto , já  faz 1 ano e serve como um alerta para os caminhos tortuosos que estamos trilhando.

Daí para o fundamentalismo, é um pulo. As religiões de origem negra , indígena , judaica , budista e tantas outras são o alvo preferencial dessas ações e portanto devem e tem o dever de se encontrarem preparadas e de defenderem sua continuação que são as crianças . Agora, quem tem que acordar primeiro são as comunidades de baixa renda em geral . Pois são nesses bolsões de miséria e desespero que o verdadeiro mal tenta e às vezes consegue estender os seus tentáculos angariando muitas almas. É tempo de acordar e não se submeter . – E aí, vão querer me exorcizar ?

Favela de alma branca
 Os traficantes que aterrorizam as favelas com suas práticas cruéis estão possuídos por Exu. Tiroteios, assassinatos a sangue frio e mutilações ocorrem sempre por influência de orixás, ou no mínimo em decorrência de alguma sessão de macumba. Esta é a explicação que vem sendo dada aos moradores pobres dos morros pelos pastores das igrejas evangélicas. A propaganda tem dado certo, e vem reduzindo a presença do candomblé e da umbanda nas favelas. Mas vem reduzindo também a tolerância e a fraternidade entre os moradores. Para o antropólogo Marcos Alvito, da Universidade Federal Fluminense, que pesquisou o fenômeno, o avanço das igrejas neopentecostais nas favelas virou uma guerra: fria, asséptica, mas que arma os espíritos com sua muralha entre o bem e o mal.

Para entender essa realidade, Alvito passou três anos praticamente inteiros dentro da favela de Acari, uma das maiores e mais violentas do Rio. O trabalho será publicado no livro As cores de Acari, com lançamento programado para junho pela Fundação Getúlio Vargas. Objeto de sua tese de doutorado pela USP, o tema levou o pesquisador a algumas conclusões preocupantes. Entre elas, a de que o terror do tráfico e a presença evangélica se retroalimentam. 
O tráfico e a igreja são realidades absolutamente compatíveis, que se entrosam com perfeição , afirma Marcos Alvito. Ele assinala que são muitas as coincidências existentes entre esses dois comandos que disputam os corações e as mentes das populações pobres, a começar pelo momento em que fincaram suas bandeiras nas favelas, no início da década de 1980. As contribuições do tráfico com o arrastão religioso é mais óbvia, servindo aos pastores para ilustrar o inferno sem nem precisar citar a Bíblia.  “Os evangélicos usam o espetáculo apocalíptico proporcionado pelo crime organizado não só para arrebanhar novos fiéis, mas para atacar seu alvo principal, que são os cultos afro-brasileiros” , diz Alvito. Os pastores ficam atentos às oportunidades de associar a barbárie explícita na favela ao que chamam de “macumbarias” evocadas para explicar cenas como as de meninos impúberes passeando pela favela exibindo um dedo de integrantes de quadrilhas rivais. ” É comum dizerem que, nessas horas, os traficantes estão possuídos por Exu”.

Não parece, mas os métodos usados pela igreja na conquista de seguidores também serve de esteio à guerrilha do tráfico. “Se você for a uma igreja dessas, vai se assustar com a belicosidade dos pastores. Em seus sermões, mais parecem generais se dirigindo a uma tropa cuja moral precisa ser elevada antes de ir para uma batalha. Embora as armas sejam outras, a igreja evangélica também prega o extermínio dos seus adversários, numa afirmação velada da intransigência.  É a dinâmica da voracidade, que não permite negociações, explica. Essa dinâmica acaba sendo combustível para confrontos, certamente contribuindo para acirrar disputas violentas dentro dos próprios morros, como os enfrentamentos freqüentes entre o Comando Vermelho e o Terceiro Comando, por exemplo.

Favela deixou de ser o espaço da recriação da cultura popular

Para Marcos Alvito, essa convergência entre o tráfico e a igreja já deixou um rastro de destruição. ”A maior vítima foi a cultura negra. Com a chegada deles, a favela deixou de ser o espaço de recriação da cultura popular e passou a ser o espaço de uma guerra religiosa na qual você é do bem ou do mal.” Ele ilustra essa corrosão dos hábitos comunitários com o episódio do esvaziamento das famosas reuniões da ala de compositores da escola de samba Quilombo, realizadas no bar do seu Tião do Mocotó, em Acari. Elas foram interrompidas em 1996, aparentemente por causa das balas perdidas do tráfico. Mas após a pacificação do local, depois de uma ocupação policial, o clima para o encontro de bambas como Paulinho da Viola e Elton Medeiros nunca se restabeleceu.

“Com a hegemonia das seitas neopentecostais, houve um recuo do contato público entre os moradores, da troca, da praça, da birosca, do campo de futebol. Um recuo para o interior da igreja, para uma vida restrita às paredes da casa ou mesmo da própria consciência”, observou Alvito. Acari é um complexo de favelas com área de 50 hectares (cerca de 50 campos de futebol), numa região quase toda plana, a cerca de 20 quilômetros ao norte do centro do Rio. Nessa localidade com altíssima densidade demográfica – 800 pessoas por hectare, o dobro de Copacabana – a penetração psicológica dos valores evangélicos é de uma eficácia impressionante, como pôde constatar o antropólogo. Ele conta ter assistido a algumas “conversões espetaculares” de agentes do tráfico. “Se você sabe que é o demônio em potencial, vai ter necessidade de se limpar.

E a única maneira de se tornar branco espiritualmente é se convertendo para essas seitas”. Do ponto de vista individual, a idéia de possessão, muito associada aos rituais de magia negra, ajuda a traçar um caminho de regeneração. “Ele vai dizer que todos os crimes que cometeu foram obras de um exu que queria beber sangue. Ele se sente aliviado quando se vê como uma marionete do diabo, pois, aí, não foi ele que matou 30 ou 50 pessoas de modo bárbaro. Foi um outro homem que cometeu todos aqueles pecados, que morreu no dia que ele aceitou Cristo. Ele pode renascer quando entra na igreja.”

Um salto da Grécia Antiga para a guerrilha contemporânea

Autor de outros dois livros sobre temas afins pela Fundação Getúlio Vargas,  Cidadania e violência , com Gilberto Velho, e  Um século de favela, com Alba Zaluar, Marcos Alvito estava longe da rota dos morros até 1995. Antes de entrar em Acari pela primeira vez, naquele ano, ele era um estudioso da Grécia Antiga. Quando ali chegou, a favela era controlada por Jorge Luís, um traficante que reinou oito anos e transformou Acari numa das capitais da cocaína, onde diariamente entravam cerca de 3 mil viciados e a polícia fazia cerca de 800 incursões anuais. Ao acompanhar de perto a rápida seqüência de acontecimentos com a morte de Jorge Luís – comoção geral, a sangrenta disputa pelo seu espólio, a sucessão dele, a ocupação policial etc – , Alvito viu que acompanharia ali fenômenos humanos que nenhum cientista social seria capaz de conceber.

 

O pesquisador chegou a conhecer Tonicão, um dos maiores mitos da favela, que ainda usava métodos antigos para instaurar a ordem no local. Ele se vestia de Zé Pilintra, um exu que encarna o malandro de terno branco, sapato bicolor e lenço no pescoço. A proximidade entre o tráfico e o candomblé se devia ao que esse último tem de mais generoso, que é a sua capacidade de aceitar o outro tal qual ele é – característica das religiões politeístas, que, por acreditarem e cultuarem múltiplos deuses, têm uma noção de bem e de mal bem menos rígida do que a de povos monoteístas. “Para o candomblé, ninguém é totalmente bom ou totalmente mal e nada é completamente certo ou errado”. Essa generosidade foi justamente o que permitiu o avanço livre das seitas neopentecostais. “Perguntei a dona Isabel, uma das poucas mães de santo que restaram em Acari, se ela guardava rancor por causa da campanha contra os seus deuses e seus seguidores.

Ela me disse que o terreiro estava aberto para todo mundo, inclusive para os pastores que sequer a cumprimentavam”, conta Alvito. As batalhas decisivas dessa guerra espiritual foram ganhas ao longo da década de 1980. Hoje há em Acari 31 templos evangélicos, disputando as cerca de 40 mil almas locais, contra cinco igrejas católicas e dois centros de umbanda. Além da ocupação física, as seitas neopentecostais têm uma invejável capacidade de trabalho, promovendo de dois a três cultos quase todos os dias, contra uma missa semanal e um ritual por mês nos terreiros. “Mais do que qualquer outra religião, os evangélicos perceberam o ritmo de mudanças e as agressões cometidas cotidianamente contra o povo, que precisa estar sempre reconstruindo um sentido para a sua vida”, explica o antropólogo.

Fonte: Júlio Ludemir – 15/03/01

 

 

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 01/04/2002 | Seção: Def Yuri

 

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