Teocracia = Bostialidade
Maio 14, 2008
Ultimamente, o Rio de Janeiro vem sendo bombardeado por incríveis iniciativas por parte de políticos e de setores conservadores, que almejam o retorno da catequização forçada de parte da população. A começar pelas crianças que serão os primeiros alvos dessa lobotomia. Eles almejam transformar o Brasil, partindo do Rio de Janeiro em uma teocracia. Na verdade os objetivos são outros. Até quando parte da população terá as suas convicções religiosas desrespeitadas ? E a liberdade de culto ? E as leis ? Só valem para uns ? – Chega dessa palhaçada de imposição de salmos e etc. Pode ser maravilhoso para uns, e extremamente desnecessário para outros. Cada qual deve acreditar no seu deus ou nos seus deuses .
Essa intolerância que se faz presente desde o pseudo-descobrimento, quer renascer a qualquer custo. Só que os argumentos estão vencidos . Essa fé cega é que respaldou a escravidão e outras perseguições, essa fé doentia é que induz à proliferação de crianças em situação de risco em detrimento dos métodos contraceptivos, e que legitima o genocídio causado pela SIDA (AIDS) . A fé verdadeira é positiva, é até vital para a vida. É um conforto, seja lá fé em que. Trago para vocês uma matéria que foi publicada em março do ano passado, portanto , já faz 1 ano e serve como um alerta para os caminhos tortuosos que estamos trilhando.
Daí para o fundamentalismo, é um pulo. As religiões de origem negra , indígena , judaica , budista e tantas outras são o alvo preferencial dessas ações e portanto devem e tem o dever de se encontrarem preparadas e de defenderem sua continuação que são as crianças . Agora, quem tem que acordar primeiro são as comunidades de baixa renda em geral . Pois são nesses bolsões de miséria e desespero que o verdadeiro mal tenta e às vezes consegue estender os seus tentáculos angariando muitas almas. É tempo de acordar e não se submeter . – E aí, vão querer me exorcizar ?
Não parece, mas os métodos usados pela igreja na conquista de seguidores também serve de esteio à guerrilha do tráfico. “Se você for a uma igreja dessas, vai se assustar com a belicosidade dos pastores. Em seus sermões, mais parecem generais se dirigindo a uma tropa cuja moral precisa ser elevada antes de ir para uma batalha. Embora as armas sejam outras, a igreja evangélica também prega o extermínio dos seus adversários, numa afirmação velada da intransigência. É a dinâmica da voracidade, que não permite negociações, explica. Essa dinâmica acaba sendo combustível para confrontos, certamente contribuindo para acirrar disputas violentas dentro dos próprios morros, como os enfrentamentos freqüentes entre o Comando Vermelho e o Terceiro Comando, por exemplo.
“Com a hegemonia das seitas neopentecostais, houve um recuo do contato público entre os moradores, da troca, da praça, da birosca, do campo de futebol. Um recuo para o interior da igreja, para uma vida restrita às paredes da casa ou mesmo da própria consciência”, observou Alvito. Acari é um complexo de favelas com área de 50 hectares (cerca de 50 campos de futebol), numa região quase toda plana, a cerca de 20 quilômetros ao norte do centro do Rio. Nessa localidade com altíssima densidade demográfica – 800 pessoas por hectare, o dobro de Copacabana – a penetração psicológica dos valores evangélicos é de uma eficácia impressionante, como pôde constatar o antropólogo. Ele conta ter assistido a algumas “conversões espetaculares” de agentes do tráfico. “Se você sabe que é o demônio em potencial, vai ter necessidade de se limpar.
E a única maneira de se tornar branco espiritualmente é se convertendo para essas seitas”. Do ponto de vista individual, a idéia de possessão, muito associada aos rituais de magia negra, ajuda a traçar um caminho de regeneração. “Ele vai dizer que todos os crimes que cometeu foram obras de um exu que queria beber sangue. Ele se sente aliviado quando se vê como uma marionete do diabo, pois, aí, não foi ele que matou 30 ou 50 pessoas de modo bárbaro. Foi um outro homem que cometeu todos aqueles pecados, que morreu no dia que ele aceitou Cristo. Ele pode renascer quando entra na igreja.”
O pesquisador chegou a conhecer Tonicão, um dos maiores mitos da favela, que ainda usava métodos antigos para instaurar a ordem no local. Ele se vestia de Zé Pilintra, um exu que encarna o malandro de terno branco, sapato bicolor e lenço no pescoço. A proximidade entre o tráfico e o candomblé se devia ao que esse último tem de mais generoso, que é a sua capacidade de aceitar o outro tal qual ele é – característica das religiões politeístas, que, por acreditarem e cultuarem múltiplos deuses, têm uma noção de bem e de mal bem menos rígida do que a de povos monoteístas. “Para o candomblé, ninguém é totalmente bom ou totalmente mal e nada é completamente certo ou errado”. Essa generosidade foi justamente o que permitiu o avanço livre das seitas neopentecostais. “Perguntei a dona Isabel, uma das poucas mães de santo que restaram em Acari, se ela guardava rancor por causa da campanha contra os seus deuses e seus seguidores.
Ela me disse que o terreiro estava aberto para todo mundo, inclusive para os pastores que sequer a cumprimentavam”, conta Alvito. As batalhas decisivas dessa guerra espiritual foram ganhas ao longo da década de 1980. Hoje há em Acari 31 templos evangélicos, disputando as cerca de 40 mil almas locais, contra cinco igrejas católicas e dois centros de umbanda. Além da ocupação física, as seitas neopentecostais têm uma invejável capacidade de trabalho, promovendo de dois a três cultos quase todos os dias, contra uma missa semanal e um ritual por mês nos terreiros. “Mais do que qualquer outra religião, os evangélicos perceberam o ritmo de mudanças e as agressões cometidas cotidianamente contra o povo, que precisa estar sempre reconstruindo um sentido para a sua vida”, explica o antropólogo.
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 01/04/2002 | Seção: Def Yuri