Pé na porta

Maio 14, 2008

No dia 26 de abril fui a São Paulo participar do III Encontro do Fórum Nacional de Segurança Pública que seria realizado na Assembléia Legislativa daquele estado. Confesso que a ansiedade era grande. Uma coisa é fazer o que eu sempre fiz em música, escrevendo ou falando para pessoas que orbitam pelo Hip Hop. Outra coisa é expor esses mesmos pensamentos para aqueles que direta ou indiretamente são e foram alvos das minhas críticas ferozes. Nessas horas, muito revolucionário de atitude corre e/ou passa mal. Só que eu não vim para esse mundo à passeio de rolé. Vim para lutar pela mudança e a minha indignação ganhou uma proporção que não existe retrocesso, é seguir em frente sem medo. Muitos ainda vão me ouvir. Podem esperar.

 

Lembro quando estava saindo do Rio. Resolvi checar as mensagens no meu correio eletrônico e alguns amigos diziam: caralho tu tá maluco? Vai prum lugar cheio de verme? Mano, fica esperto, pode ficar embaçado procê. Def você é o cara pra falar, apavora. Yuri, mostra que o Hip Hop é coisa de homem de atitude não de moleque festeiro… Ao ler as mensagens, tive a confirmação do que já sabia – a minha participação é um ato político de proporções inimagináveis e um fato até então impensável. É o pé na porta do preconceito e do conservadorismo, que mantém a maioria no silêncio forçado. Muitos do Hip Hop não tem a compreensão ou mesmo discernimento – será que algum dia terão?

 

Mas vamos deixá-los momentaneamente de lado e voltar ao que interessa. Encontrei várias pessoas idealistas que objetivam verdadeiras mudanças na questão da segurança pública. Friso sempre que a polícia é somente uma das várias vertentes desse tema. Temos a saúde, educação e por aí vai… O Hip Hop na minha opinião é, e sempre deve ser um dos principais debatedores desse tema, afinal através das letras do rap são expostas a indignação, revolta, inconformismo , denúncia …

 

Penso que também devam ser expostas sugestões para uma mudança real, se não caímos na mesmice do blá, blá ,blá. E como isso é comum no meio! Às vezes, penso que para uns indivíduos a perpetuação dessa situação calamitosa em que vivemos é extremamente lucrativa. Afinal, se o dinheiro (mesmo que pingado) tá chegando por que tentar mudar ou transformar a realidade? O percurso do hotel para a Assembléia leva em torno de uns 15 minutos. Em meio aos meus pensamentos, esse tempo foi quadruplicado, era o tempo exato para lembrar quantas vezes eu coloquei a cara e me expus por aquilo que acreditava. A estrada foi longa até este momento. Me sentia um autêntico “cristão” rumo aos leões do coliseu .

 

Ao chegar à aquela casa do povo, onde nem sempre o povo tem voz ou mesmo simples visibilidade, pensei: é agora. Fui ver quem estava na mesa comigo  e para minha surpresa descobri que seriam  os jornalistas Percival de Souza, Renato Lombardi e Robeto Cabrini (este último não chegou a tempo de participar ).  Pensei: vão comer o meu fígado. Mas não desisti. À minha frente, um auditório cheio. Eram jornalistas, juristas, promotores, advogados, curiosos, e principalmente policiais (tinham representantes de 20 estados). A sensação era a de estar perante um pelotão de fuzilamento. Tentei identificar o que estariam pensando aquelas pessoas, quais seriam seus comentários sobre um carioca representando uma grande ONG e principalmente de um segmento social: O Hip Hop. Fui tomado por um orgulho indescritível. Orgulho de ser um ativista do Hip Hop, orgulho de defender e pertencer à  nação dos vencidos, e saber que meu  ilá ganharia eco. Tive a oportunidade de falar e assim foi feito. O debate fluiu naturalmente e para minha surpresa as diferenças não eram tão grandes.

 

Todos falaram, entre outros assuntos, da necessidade de uma total reformulação nas instituições policiais, para que estas passem a atender aos anseios de uma população descrente, para que essas sejam exemplo de cidadania e não um dos principais vetores do medo e da insegurança. Tudo isso somado a inoperância e tendeciosismo da justiça ocasionando aquilo que chamamos de impunidade. Na hora das perguntas, uma verdadeira avalanche veio em minha direção. Me perguntaram sobre tudo e eu queria responder sobre tudo. Uma pena o tempo não ser maior, pois honraria ainda mais o meu estilo rapeador.

 

Falei que é imprescindível a participação do povo como um todo, e claro, principalmente o Hip Hop. Nessas discussões todos devem ser ouvidos. Após 3 horas de muitas idéias, tive a certeza de ter passado por uma das maiores batalhas – A guerra continua. Ao término, fui procurado por várias pessoas e entre elas um grande número de jovens. Todos eles se apresentaram como fãs do Hip Hop e me mostraram que realmente acreditavam na possibilidade de mudança. Esses jovens eram advogados, estudantes e principalmente investigadores de polícia de São Paulo e de outros estados. Um deles inclusive chegou a me afirmar que finalmente ouviu alguém do Hip Hop falando do povo sem discriminações, disse que o Hip Hop não é coisa só de bandido, ladrão, também é coisa de polícia , de trabalhador. Não é só coisa negativa tem muita coisa positiva. Não tenho como discordar. Outro inclusive disse que acredita no  poder para o povo da periferia e que ele era negro, policial e pertencia à periferia assim como a maioria da policia paulistana. Os caras me falaram dos grupos que admiravam e os que não gostavam. Um chegou a me dizer que conhecia uma música de minha autoria: A desculpa  Foda-se a polícia (leiam a Moeda em seu reverso). Me impressionou o conhecimento deles. Eles realmente são adeptos da coisa ou nos monitoram muito bem.

 

Um senhor de idade educadamente interrompeu a minha conversa e disse que ao saber que eu era do Hip Hop pensou: esse rapaz só irá balbuciar umas três coisas: Tá ligado! É nóis ! Certo! Ele falou que eu tinha contrariado o pré-conceito dele e isso era uma grata surpresa. Perguntou se outros comungavam das minhas idéias. Respondi que existiam alguns poucos pelo Brasil e ele então disse: ainda bem nem tudo esta perdido. Gostaria de traduzir para vocês leitores o efeito dessa declaração. Lamento não ter encontrado nenhum ativista, artista, ninguém que faz “a correria” durante o fórum.

 

Pensei que por este ser realizado na Meca da nossa cultura de rua, a participação e o interesse seriam maiores. Ledo engano. Até parecia o tão criticado Rio de Janeiro onde a participação em discussões desse tipo são trocadas pela “pelada” ou por discussões importantes porém não tão emergenciais como a segurança pública e a violência. Onde nós somos as maiores vítimas e agentes. Foi  muito importante participar desse fórum. Ao término do meu painel, me foi concedida uma placa de agradecimento pela minha contribuição. A placa me foi entregue pelo Sr João Batista Rebouças, presidente do sindicato dos investigadores de polícia do estado de São Paulo. A nação do Hip Hop deve se apresentar, a omissão só aumenta o sofrimento do nosso povo. Devemos assumir a nossa responsabilidade . Devemos mostrar que o Hip Hop é um grupo social forte e como tal deve ser respeitado. Vou lutar por isso até o fim, digo, até depois do fim.

“A luta não é um sonho
e somente sonha com a luta
quem sonha com um sonho
e já não é sonho é luta!”

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br  | 06/05/2002 | Seção: Def Yuri

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