Estou com frio, muito frio. Está tudo tão escuro. Que merda! Me sinto sozinho, meu corpo dói, principalmente o meu pescoço. Até parece que me estrangularam. Tento me mexer, mas não consigo. Que merda de lugar é esse? Estou todo apertado, que merda! – Alguém me tira daqui! Onde estou? De repente, percebo um clarão vindo dos meus pés. Abrem uma porta. Que merda será essa? Puxam a minha cama e eu me levanto; tem uns caras de branco, parece que eles estão de sacanagem. Peço para me dizerem que lugar é esse, o silêncio é a resposta. Qual é a desses caras? Tão querendo me zoar? Vejo uns caras da imprensa, um intenso falatório… Que estranho! Vou até a porta da rua… Eu conheço essa rua, é a Mem de Sá! Como cheguei aqui? Sento em um banco e um senhor vem falar comigo. Porra! Se ninguém parece me ver, como esse coroa me vê? Ele só me diz uma coisa: – Veja todo esse movimento e pense em como o seu dia começou…

 

São 9h. Moro num cortiço, tá um calor filho da puta. Que merda! Estou duro igual a um coco, tenho que arrumar um “faz-me rir”, hoje é dia dos namorados, tenho que marcar uma presença com a preta. Estou de saco cheio dessa minha vida que é só sofrimento. Eu tentei mudar, eu tento mudar, mas sempre aparece um filho da puta para te empurrar para baixo. Pego uma peça com um parceiro. Me bateram que tem uma parada responsa lá na Sul, dá para fortalecer legal. “Já é!”, penso comigo. Início da tarde, chegamos no bagulho. Não sei… parece que a parada vai lombrar. A loja esta cheia, é agora. Que merda! Tem dois seguranças na parada. Por que eu teimo em duvidar da minha intuição? É melhor me adiantar. Entro no primeiro ônibus que eu vejo. Tá foda… tô na maior tensão. Olho para os lados… o buzum não tá muito cheio, tenho que relaxar. Tenho que sair saindo. O ônibus pára, percebo que tem um verme do lado de fora, ele faz sinal para o piloto: caralho não posso rodar! Saco a peça e mando o verme não entrar se não alguém vai cair no bagulho. Ele não entra, mas chama reforço. Falo para um moleque pilotar o buzum. Ele não consegue. Caralho, tá chegando a TV… Vai babar! Algumas minas começam a chorar. Os vermes tão querendo invadir a parada: pego uma mina de escudo e solto o prego nos filhos da puta. Eles têm que se ligar que eu não estou de caô, não tô de bobeira… O tempo passa e a tensão aumenta…

 

Lá fora está cheio de gente. Tem uma porrada de bruxo na parada, fudeu. Esses caras vão me matar. É ruim de eles perderem a viagem. Tem um coroa que tá desenrolando comigo, digo para ele me arrumar um trabalho para me tirar dessa vida. Só que percebo: ele tá de caô, se eu der mole ele me manda pra vala. Tenho que mostrar que não vou dar mole pra eles, não posso amarelar. Eu sei o que eles fazem. A lembrança da Candelária está viva na minha mente. Começo a cantar uns funks. Sei lá, agora parece que eu incorporei, puxo uma mina pelos cabelos e mando ela escrever com batom no vidro do buzum. Ela escreve que se não me deixarem ralar, vou mandar um a um pra vala. Não tem idéia, vai ficar de bigode. Os caras tão me cozinhando. Olho para um muro – acho que é de um parque – lá vejo uns bruxos se preparando para atirar. Só atirador de elite, fudeu! Mando uma mina se deitar no chão e finjo que vou matar ela: dou um tiro. Lá fora e aqui no ônibus, muita gritaria. A encenação foi perfeita. Começo a falar que estou com o diabo e que o rabecão vai recolher mais. Uma mina me chama a atenção. Ela tem cara de ser responsa mas não posso dar mole, senão o coração põe tudo a perder. Pergunto se ela tem namorado. Ela diz que sim. Pergunto se ela comprou presente pra ele. A resposta foi positiva. Ela me disse que estava voltando da faculdade. Maneiro… se pudesse, queria tá numa faculdade.

 

De repente percebo uma nova movimentação. Pego a mina pelo cabelo e enfio o cano na boca dela, começo a gritar igual a um louco; sei que os vermes tão intimidados. O tempo passa, já tá escuro. Não tem jeito, vou ter que sair. Falo com um bruxo que vou sair. Peço pra não atirarem em mim. Pego outra refém e puxo pelo cabelo. Falo que a parada vai acabar, só que ela tá muito bolada. Se eu tivesse que ouvir esses gritos de pavor por mais tempo eu juro que faria uma merda. Ouço os gritos cada vez mais fortes da multidão.

 

Vou andando no rumo da porta e a refém tá na minha frente. Ela é minha garantia, o suor escorre pela minha testa. Os segundos parecem horas. Chegamos à calçada. Na minha frente tem três bruxos. Quando penso em jogar a peça no chão, vejo um vulto e posso ver de relance o bruxo se aproximando – filho da puta! Ele dá um tiro, dois tiros. Eu me esquivo e caio sobre a refém e não tem idéia. Se vou morrer, alguém vai comigo. Enquanto puxo o gatilho sinto que alguém me dá vários socos na cara, sou bicado. Os gritos de ‘lincha, lincha’ tomam o ambiente. Ainda consigo ver a mina sendo carregada. Sangue pra caralho! Os bruxos me jogam na caçapa e agora só consigo ver o forro da D-20.

 

O carro arranca. Um bruxo coloca o joelho no meio das minhas costas, puxa a minha cabeça e encaixa o braço no meu pescoço. Ele começa a me estrangular, o ar tá sumindo, a minha visão esta turva.

- Morre desgraçado! A gente não perde a viagem! Seu filho da puta! Tu não falou que tava com o demo? Então vai pra junto dele.
O calor é foda! A última coisa que escuto é “dorme filho da puta”… De volta ao banco, agora eu sei onde estou: aqui é o IML. Será que estou morto? O senhor ainda está ao meu lado, pergunto qual o nome dele. – Zé Maria, mas pode me chamar de morte.
- Caralho! Eu morri, não pode ser!
Seu Zé Maria fala que já está na hora de ir, que não está à minha disposição e que agora eu vou ter todo tempo do mundo para lembrar que parecia tudo tão fácil…

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 09/01/2002 | Seção: Def Yuri

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