Quem é mais Verme?
Maio 20, 2008
Verme é uma das inúmeras denominações com as quais a polícia é agraciada. Quem nunca ouviu falar nos cachorros, samangos, ratos? No Rio, a denominaçao que resiste há mais tempo é essa: “Verme”! Realmente, todo o indivíduo incumbido de manter a lei e que julga estar acima dela, não exercendo corretamente as suas atribuições e incorrendo em inúmeros crimes, é um “Verme”! Porém, serão eles os únicos “Vermes” na nossa sociedade?
E aqueles que (também) executam, intimidam, torturam, desrespeitam, extorquem, humilham, julgam, traficam armas e drogas, seqüestram, estupram, e por fim envenenam o seu próprio povo? Esses não são atos que qualificam um indivíduo a pleitear o título de “Verme”?
Não me venham com discursos prontos, de que os “Vermes” de lá são opressores e os daqui são oprimidos – porra nenhuma! Ou ambos são opressores ou ambos são oprimidos. Não existe meio-termo. Digo isso pelo simples fato de que ambos os grupos são oriundos da sociedade da qual fazemos parte. Eles não são provenientes de Marte ou Saturno.
Ultimamente, já não agüento ouvir justificativas sobre fatos que são “quase” injustificáveis. O “romantismo” é cada vez mais exacerbado. Todos querem mostrar que têm razão e não admitir sua contribuição para com esse estado de caos. Querem exemplos? Um indivíduo vai e mete as caras, ele cheira, fuma, rouba, mata e depois não quer que o Estado retribua esse tratamento (ou pelo menos que se cumpra a lei). Quer algo que ele próprio não disponibilizou às suas vítimas.
Este, se for detido, vai passar um tempo em uma casa de custódia até o seu encontro com o “capa preta”, que o jogará de vez no inferno. Lá será praticamente impossível a ressocialização; o desrespeito é generalizado, conseqüentemente sua família sofrerá e também cumprirá uma pena, na minha opinião muito pior. Depois de fazer as merdas não adianta lamentar, clamar pelos barrigudinhos etc. Errou, assume. A vida é assim: “vitórias e derrotas”. Será que a esperteza da malandragem só foca o êxito e não cogita a possibilidade de se fuder?
Só faço uma ressalva para os inúmeros injustiçados que se encontram no purgatório em decorrência de “forjados”, “denúncias caluniosas”. Esses são vítimas do crime, da polícia, da justiça e da sociedade. Por outro lado, para piorar a situação, temos profissionais de polícia que rotineiramente aterrorizam a população. Estes agem de maneira igual aos outros, com a agravante de serem legitimados pelo Estado (consolidado pela própria população) e com a certeza da impunidade, com a certeza de que uma carteira funcional os transforma em Super- Homens. Espero que a criptonita da justiça seja encontrada o quanto antes. No fim das contas, todos esses grupos de facínoras visam apenas o lucro e nesta cruzada pelo dinheiro e poder é o povo que sofre e se transforma em alvo preferencial de ações nefastas.
Essa população, que em geral não é parente de nenhum desses grupos ou, melhor dizendo, está à margem, se encontra literalmente fudida. Pois, se quer e pede pela punição de bandidos “normais”, é rotulada de reacionária, conservadora, alienada, manipulada… E se se insurgir contra as atrocidades cometidas pelo “Estado”, passa a ser vista como defensora de bandido, conivente, ingrata…
Analisar o que eu estou tentando explicar vai exigir muito dos que têm uma visão limitada ou parcial sobre o tema e sobre a vida!
Acredito que os Direitos Humanos são direitos fundamentais de todo e qualquer cidadão, não importa a condição. Será que os defensores desses grupos por mim citados saberiam viver sob um regime de anarquia, onde se prevalece a lei do “olho por olho, dente por dente”? Já que numa ditadura oficial ou paralela, estou ciente de que eles são capazes de viver.
Todos nós somos os alvos, portanto devemos ter capacidade e discernimento de avaliar o que nos circunda, sem medo de sermos jogados nas fogueiras dessa inquisição moderna. Essa premissa vale principalmente para os adeptos da minha cultura, para os adeptos do REP que sempre se encontram prontos para denunciar, criticar, e às vezes até se comprometer com os mais diferentes grupos citados.
Se somos as vozes dos oprimidos e excluídos em geral, se falamos a verdade, então devemos estar muito mais atentos para não compactuarmos com essas ditaduras de merda. Acredito que somos instrumentos da mudança e não simples marionetes sempre prontas a propagar equívocos. Essa é minha opinião.
Outro grupo que também deveria ser agraciado é o dos políticos. Segundo falam, a interação desses “Vermes” com seus co-irmãos é algo impressionante. Todos são vorazes no ato de subjugar a população, todos se encontram nivelados. São tantos grupos de “Vermes”… Será que nossa sociedade, que oscila entre omissa e insurgente perante essas mazelas, será que ela, digo, será que todos nós de uma maneira ou de outra nos tornamos “Vermes”? Afinal de contas, me digam: Quem é mais “Verme”?
“… ainda mensageiro, ainda guerreiro, a missão amplia. Nada como um dia atrás de outro dia… Mas eu ainda sonho, ainda estou de pé, ainda tenho fé que a violência é conseqüência… de uma raça em decadência que não respeita a resistência, ainda a esboço e boa vontade até o pescoço. Ainda mensageiro até o osso…”
Música: Ainda Mensageiro – Comunidade Racional – São José dos Pinhais/ PR
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 04/04/2003 | Seção: Def Yuri
RJ capital Bagdá
Maio 20, 2008
Já se passou uma semana e o mundo acompanha atentamente pela TV e por outras mídias os desdobramentos dessa que é considerada a ação mais nefasta desde a Segunda Grande Guerra. Podemos acompanhar em tempo real um verdadeiro show dos horrores, em que, faço questão de lembrar, não existem heróis, apenas uma vítima – a população iraquiana. Sei que alguns vão questionar: e as famílias dos soldados que integram as “forças do eixo” (EUA, GB)? Considero essas um “pouco menos” vítimas em decorrência de que todos os soldados estadunidenses e bretãos são profissionais muito bem remunerados e cientes dos riscos; lá não estão jovens participantes de algum serviço obrigatório e mal informados. Portanto… Enquanto muitos tremem só de ouvir falar nomes como Al Qaeda, Hezbollah, Hamas, Al Aqsa, a população iraquiana conhece na prática outros grupos terroristas, também “instruídos” na universidade do terror estadunidense (CIA). Falo dos Rangers, Seals, SAS (GB), Green Berets e Delta Force. Esses grupos de fanáticos são perigosíssimos, alguns deles, inclusive, têm sede ou se movimentam em solo brasileiro, com total desenvoltura e liberdade. As “forças do eixo” impuseram um intenso bombardeio que denominam “Choque e Pavor”, é verdade.
Para o povo, foi isso mesmo, mas confesso que preferi a síndrome do “terror e pânico” que acometeu os invasores; isso ficou evidente nas imagens dos aprisionados, ou nas emboscadas para lá de criativas. Eu as vi como se estivesse vendo o Topa-Tudo por Dinheiro, no SBT. Sei que alguns vão me interpretar mal. Mas, tudo bem, é a lei da natureza, o mais fraco tem o apoio. Concordam? Não é preciso ser adivinho para saber que essa guerra não terminará com a invasão de um país; isso ainda renderá muito. Essa merda de guerra é muito lucrativa não só para a indústria bélica, como também para os que são contra. São camisas, adesivos, bonés, músicas, revistas, festas, shows… Todo mundo quer o seu quinhão; é o capitalismo moderno – não basta apoiar, se indignar, tem que lucrar. Meu raciocínio acaba de ser quebrado… nesse momento os sons de fuzis de assalto, metralhadoras, pistolas, granadas e… é isso mesmo, um intenso tiroteio rasga o silêncio desse fim de noite. Para vocês entenderem corretamente enquanto escrevo esse artigo, a televisão está ligada no Diário da Guerra, com o Roberto Cabrini, um rádio na CBN e em outro o som do grupo de rap carioca SAR. Todos eles agora ganham o reforço da sinfonia de tiros.
Em meio a esse “bombardeio” de informações, meu cérebro trabalha com a certeza de que irá alcançar seu alvo com uma “precisão cirúrgica”. O Rio de Janeiro sangra incessantemente, e não vejo manifestações e passeatas contra a nossa guerra. Cheguei a ir a uma dessas na praia – acredito que para se criticar devemos estar minimamente embasados e até prova em contrário nós éramos os únicos da “nação do Hip Hop carioca” presentes. Em poucos minutos, olhando atentamente, pude constatar o perfil dos “indignados”: a maioria brancos, de classes (muito) mais favorecidas, o número de negros e afro-descendentes era irrisório (salvo eu e uma meia dúzia). A maioria se encontrava trabalhando: polícia, guarda municipal, flanelinhas e camelôs.
No decorrer da caminhada, encontrei o escritor Adair Rocha e juntos pudemos ouvir uma senhora vociferar de um ônibus: “Quero ver fazer isso lá em Brasília! Deixa a guerra dos outros prá lá. Quero ver fazer passeata contra o racismo, fome, contra a guerra do tráfico, contra a corrupção…” O ônibus em que ela se encontrava começou a se movimentar, mas os gritos indignados continuaram a ser ouvidos perante os olhares incomodados e irônicos de uma maioria festeira. Entenderam o que quero dizer? Nós temos que nos indignar pelo que acontece no mundo, mas temos o dever de nos indignar pelo que acontece aqui, e isso deve acontecer sempre, não somente quando nós e nossos familiares somos os alvos. Quando os gritos das inúmeras vítimas invisíveis serão ouvidos? Em um passado, Chuck D, do Public Enemy disse que o REP era a CNN dos negros estadunidenses. Ainda nesse período sampliei essa citação e coloquei que, no Brasil, o REP era a CBN dos excluídos. Porém chegamos ao momento do REP brasileiro, e principalmente o carioca, ter um pouco de Al-Jazeera e de mídias alternativas, e não de Jovens Tardes ou da Turma do Didi.
As informações devem transcender o limite de segurança natural e ganhar o mundo. Muitos precisam ter as ditaduras que os oprimem expostas, seja lá de que forma. O REP não é voz da favela, dos oprimidos, do povo? Então, tem a obrigação de fazer mais, e (tentar) fazer de forma imparcial, sem sensacionalismo ou tendenciosismos, às vezes comuns no meio. Será que no REP brasileiro existe uma censura prévia como nos veículos de comunicação estadunidenses? Tanto na guerra de lá quanto na nossa, repito, não existem heróis. Outra coincidência, na minha opinião, é justamente no que tange respeito aos investidores; esses são, na minha opinião, os grandes culpados.
No Rio, esses eu denomino como “desgraçados”, e no seu egoísmo doentio acabam por ficar cegos, não enxergando que são os principais causadores das nossas chagas. Se eles tivessem discernimento, saberiam que o prazer deles é semelhante ao do George W. Bush ou mesmo do Saddam Hussein. Uma dúvida: por que a imprensa televisiva não coloca equipamentos de videofone nas nossas regiões de conflito? Garanto que, em termos de ferocidade, nós ganhamos. Imaginem: quando estivéssemos à noite reunidos com as nossas famílias, poderíamos ver execuções, decapitações, fuzilamentos… Garanto que nem lembraríamos dos armamentos químicos, biológicos e nucleares.
Afirmo que o número de baixas dessa semana é muito maior do que o da “guerra pelo petróleo”, e só estou usando o Rio de Janeiro como referência. Se colocar os números de São Paulo e outras capitais, não vai ter para ninguém. Mas isso não comove o Papa e cia., o mundo não se comove. Por falar em comoção, segundo a Constituição, todos são iguais perante a lei. Se isso é verdade, por que medidas só são tomadas quando morre um magistrado ou similar? Será que a população comum tem, a partir de hoje, que torcer para que autoridades, ricos e famosos sejam abatidos das formas mais violentas? Será que só assim as providências serão tomadas com mais rapidez? Será? Quando assumirão que enfrentamos uma guerra? Seguindo essa lógica de quanto maior o posto mais rápido as medidas serão tomadas… Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se cuide, pois o povo não agüenta mais.
Espero que pelo menos o Hip Hop prossiga tentado mudar o destino, e não ajudando a piorar. Bom, fico por aqui. E esse é mais um artigo do seu correspondente de guerra, Def Yuri diretamente de Bagdá – Rio de Janeiro.
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 28/03/2003 | Seção: Def Yuri
Donos do Mundo
Maio 20, 2008
O mundo está perplexo diante de mais uma ação terrorista em alta escala, desferida pela besta do apocalipse George W Bush, contra o Iraque e o odioso regime de Saddam Hussein. Como sempre acontece nessas histórias, a população civil será quem sentirá o peso destas ações, será a vítima preferencial dos “donos do mundo”. É nojento ver e ouvir bestas estadunidenses falando que levarão liberdade e democracia; logo eles, oriundos de um país opressor, cuja a democracia é uma verdadeira encenação, onde não se respeitam os direitos humanos, nascedouro de muitos golpes e principalmente do terrorismo.
Acreditam piamente ser a polícia do mundo, com poder para intervir onde quiserem, e quando quiserem, não atinam para o fato de que na verdade são apenas um conjunto de degenerados, arrogantes, amorais, que incentivam, financiam e disseminam o tráfico de drogas, armas e outras chagas. Quantos terão que morrer? Quantas torres devem ser derrubadas para que estes imbecis se dêem conta de que não estão sozinhos nessa porra de mundo. Um dia, eles entenderão ou capitularão. Realmente, no momento não tenho cabeça e muito menos ânimo para descrever toda a minha indignação com os conflitos do Rio de Janeiro e do Iraque.
Quem sabe na próxima semana a inspiração volta? Enquanto isso sugiro que leiam:
DE VOLTA AO TERROR
APENAS UMA MISSÃO DE ROTINA
“A águia sobe sempre, seu vôo descobre os quatro cantos da terra.
De repente, em meio ao firmamento, quebra-se o vôo, no cansaço de suas asas, ela cai…”
(Li Po/ 705-62)
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 21/03/2003 | Seção: Def Yuri
Jogo de cena
Maio 20, 2008
Após a explosão de violência da semana passada, onde traficantes (?) lançaram ataques contra ônibus e a população em geral, o Rio de Janeiro viveu um carnaval de “relativa” tranqüilidade. Digo isso pois a violência “revolucionária” deve ter parado para descansar e quem sabe desfilar na Sapucaí e/ou pegar uma praia na Região dos Lagos. Afinal de contas, ninguém é de ferro! Bom, vou resumir a situação do Rio: é um verdadeiro jogo de cena. Tipo – a(s) polícia(s) finge(m) que policia(m), a bandidagem finge que se intimida, e a população (alguns se iludem!) acredita.
Muitas autoridades e, principalmente, o ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, temiam que a violência invadisse e estragasse o carnaval na Passarela do Samba e, no intuito de transmitir segurança, os governos federal, estadual e municipal reuniram todas as polícias e colocaram as forças armadas nas ruas. 50.000 homens: este é o efetivo total empregado na “Operação Guanabara”. Lembro que, na minha juventude, quando prestei serviço no EB (Exército Brasileiro), tinha um termo bastante usado para definir operações como essa – “Embuste”. Assim como na Eco 92, o que acontece no Rio de Janeiro é um verdadeiro embuste, ou seria melhor falar em “Jogo de Cena”?
Muitas pessoas como eu duvidavam que determinada facção realizasse algum tipo de ato durante o carnaval. Basta lembrar que segundo a própria justiça fluminense o jogo do bicho e o tráfico de drogas e armas estão intrinsecamente ligados. E sabendo quem faz o gerenciamento das escolas de samba e do carnaval carioca como um todo, chegamos à conclusão de que a “calmaria” seria o resultado mais óbvio. Um outro aspecto importante é que as escolas de samba representam inúmeras comunidades.
Um ataque desferido contra estas é um autêntico suicídio, pois as comunidades movidas pela revolta e no intuito da justiça poderiam romper a barreira da ditadura do medo e passariam a cobrar uma atitude mais enérgica e salvadora do lado oficial. O resultado disso encontraria reflexo nos negócios, que estariam condenados. Percebem como tudo é um círculo vicioso? Prestem atenção nas muitas curiosidades. Um forte efetivo das Forças Armadas invadiu os pontos turísticos e principalmente as praias que, aliás, com um sol de 40 graus, muitas mulheres e sem “nenhum opositor”, formam o lugar perfeito para operações. Outra coisa que chamou bastante atenção é que as operações policiais “mais enérgicas” foram desferidas contra comunidades controladas por facções diferentes das que disseminaram a onda de crimes da semana passada. Isso, na minha opinião, levanta muita desconfiança.
Será isso algum tipo de conivência? Ou aproveitaram para tirar alguma diferença antiga? Essas outras comunidades a que me refiro sentiram todo o rigor do “estrito cumprimento do dever legal” e da determinação dos que querem mostrar que o trabalho está sendo feito. Essa guerra de propaganda está rendendo frutos para “todos os lados”. Penso que a “retaliação”, ou sei lá como queiram definir esses atos “embusteiros”, deveria ser feita de acordo com as leis e direcionada aos que realmente cometeram as ações, assim como seus mandantes, ou contra todos.
O fato disso não ocorrer mostra que coisas estranhas acontecem. Repito: Por que as grandes investigações para desarticulação do chamado crime organizado não contemplam a todas as “organizações”? Por que os mandados de busca e apreensão coletivos expedidos pelo nosso Judiciário “imparcial” e usados nas favelas, possibilitando o livre acesso a qualquer residência, não são usados nos grandes condomínios situados em áreas nobres? Por que os órgãos chefiados pelo COSI (Comando de Operações de Segurança Integrada) não “invadem” as mansões dos Silveirinhas, mega banqueiros do bicho e autoridades suspeitas? Ou mesmo as casas dos aviõezinhos de luxo assíduos na linha Rio x Amsterdã? Pergunto: Onde está o senso de se cumprir o dever? Onde está a moral? Será que essas movimentações realmente visam transmitir a sensação de segurança ao povo? A única certeza que tenho é que no final das contas todos os envolvidos se encontraram direta ou indiretamente no carnaval.
Com relação às Forças Armadas: para quem não sabe os militares têm verdadeiro horror dessas operações de policiamento, e isso não é decorrente da ditadura militar, e sim do total desinteresse. Todo aquele blá, blá, blá de amor à pátria e etc. não passa de marketing. Será que eles realmente trocariam a tranqüilidade da caserna com sua boa vida, e sem muito o que fazer, pelo dia a dia de escaramuças e incerteza de não voltar para casa? Essa “teatralização” que vimos nas ruas, objetiva dois aspectos: 1) “entreter” uma população atemorizada e 2) justificar o dinheiro investido.
Acabo de me lembrar – como andam as investigações sobre tráfico de drogas por oficiais da FAB? E sobre os contrabandos (na) pela Marinha? Lembram da explosão do paiol na Ilha do Boqueirão(RJ), até hoje não elucidado e que, especulam, jogou muitas armas nas ruas? Por que ninguém fala mais nisso? Por quê? No final das contas os impostos da sociedade são o que mantém a boa vida na caserna. No fim é a sociedade como um todo que “paga o(s) pato(s)”.
Voltando ao carnaval. Imaginem vocês que unidades de elite das polícias civil e militar se encontravam baseadas dentro do Sambódromo. Por que estas unidades, com todas as suas “habilidades técnicas”, não estavam nas ruas? Por que o seleto público do Sambódromo merece prioridade na segurança? E o resto da população? Continua com um policiamento escasso, e ainda por cima despreparado e/ou comprometido…
Outro detalhe que um camarada me apontou foi em relação ao Batalhão de Choque (Polícia Militar), uma unidade que tem como característica a “ação inibidora”. Pois bem, se você que lê este artigo algum dia for fazer greve e/ou se manifestar nas portas do Palácio das Laranjeiras, saiba que conhecerá na prática a chamada “ação inibidora” e com certeza carregará as marcas por muito tempo.
E eu pergunto: onde andou todo o efetivo dessa “temida” unidade nos dias de carnaval? Ah! Fazendo segurança “desarmada” no Sambódromo! Enquanto isso, longe dos holofotes, o couro comia, digo, o aço fazia a festa e as estatísticas subiam. A cidade continuou a ver e sentir o crescimento dos mais diferentes tipos de crimes.
Um dos casos divulgados e que devem ser cobrados foi a “execução” de um professor de inglês, após este supostamente “furar” uma blitz feita pelo 26º BINF PQDT. As versões oficiais não estão de acordo com o cenário do crime (para variar). Pensem na hipótese de ser vítima de uma emboscada num bairro do subúrbio carioca, local este que, após às 22h, não apresenta nenhum tipo de movimentação policial, deixando moradores locais entregues à própria sorte. Pois bem, neste cenário, você, que está dirigindo a caminho de casa, com pressa para não ser exposto a nenhuma eventualidade, depara-se com homens de uniforme camuflado e com o rosto pintado. Qualquer morador do Rio pode confundir estes com “milicianos pára-oficiais”, que patrulham e controlam as ruas de diversos bairros, às vezes até fardados e com carros oficiais clonados.
Portanto, o Comando Militar do Leste deve explicações à população. Essa execução só constata e reforça a idéia que, de uma forma ou de outra, o povo continua sendo executado e barbarizado. Já ia esquecendo: segundo relatos, antes ou durante o episódio da “execução”, indivíduos de uma facção que não devem ter lido o script corretamente atacaram uma guarnição do 26º Batalhão de Infantaria Pára-quedista, o que complica ainda mais a história. Será que na impossibilidade de se chegar aos seus agressores os milicos atacaram o primeiro carro que apareceu? Afinal, a maioria dos soldados são jovens com idade média de 19 anos, sem preparo para exercer a função de polícia e com grande vontade de vivenciar situações reais que envolvem adrenalina, diferente dos treinamentos no quartel e suas munições de festim.
A imprensa deveria mostrar maior interesse e principalmente coragem de apurar esse e outros fatos. Não adianta acobertar agora porque depois vai ser pior. Sem querer ser adivinho (não tenho vocação), digo que o termômetro da violência poderá ser medido na próxima madrugada de domingo para segunda. O desfile das campeãs já vai ter ocorrido, o carnaval não será mais notícia, os turistas já terão ido embora… e aí, quem é daqui sabe o que acontece. A população carioca não pode continuar refém desse jogo de cena ou jogo de interesses, onde o principal objetivo são os negócios e o dinheiro, que calam a boca de muitos.
Precisamos de iniciativas que possibilitem uma melhor qualidade de vida para todos. Os investimentos na educação, saúde, transportes públicos variados, lazer são imprescindíveis, pois também são parte de um novo conceito de segurança pública. Conceito este que transcende a interpretação policialesca. A população deve cobrar essas mudanças e participar efetivamente até porque “um povo que espera um salvador, não merece a salvação.” Enquanto isso não ocorrer, é triste dizer, mas tenho a certeza de que estaremos cada vez mais fudidos… E o pior é que muitos confundem sensação de segurança, com segurança.
Em tempo:
São 5h40 da manhã do dia 06/03/2003. Enquanto fecho este artigo fico sabendo que mesmo com os 50.000 homens da “Operação Embuste”, digo Guanabara, a cidade voltou a sua “normalidade” com diversos confrontos armados. Viram como eu não tenho vocação para adivinho? E com relação à “execução” do professor, a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro já está tirando a “bunda da reta”, atribuindo toda a responsabilidade ao Exército. Mas, a operação não era integrada?
Em depoimento, dois policiais que se encontravam na região do “incidente” disseram que não consideraram o carro do professor suspeito e muito menos efetuaram disparos de advertência. Eles inclusive reforçaram especulações de que momentos antes da “execução”, a unidade “de extermínio” pára-quedista (esta não cumpriu seu script) teria entrado em choque com supostos traficantes, e também teria sido alvo de um ataque com bombas caseiras jogadas por ocupantes de um corsa preto, automóvel parecido com o do professor, que era de cor azul. Segundo o Secretário de Segurança Pública, Cel. da PM Josias Quintal, “quem atirou foram eles (Exército). Cabe ao Comando Militar do Leste explicar.” Ainda, segundo o irmão do professor assassinado, “talvez ele tenha furado a blitz por medo. Hoje, no Rio, traficantes fazem blitz com coletes da polícia.
Quem tem coragem de parar? Por que não atirar no pneu? Por que não perseguí-lo?”. E já que é necessário uma boa imagem da Operação para prosseguir com uma anunciada Força Tarefa (outra vez), o ministro da Casa Civil, José Dirceu, que não estava no local na hora da execução (portanto nunca poderá afirmar categoricamente a verdade) afirmou que os militares agiram de forma correta, antes mesmo de qualquer investigação sobre o episódio.
Leiam: Militares garantem que não irão combater criminalidade , publicada no dia 3 de janeiro no jornal Estado de S.Paulo.
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 06/03/2003 | Seção: Def Yuri
Até quando seremos reféns?
Maio 20, 2008
O Rio de Janeiro mais uma vez é palco de uma grande insurreição que, ao contrário do que alguns românticos apregoam, não tem nada a ver com os ideários de paz, justiça e, muito menos, liberdade. A população carioca vive subjugada e amplamente humilhada, à mercê de todo os tipos de ações, não importando quem são os agentes, pois o resultado final sempre é o medo, terror e o desrespeito. Estes se apresentam através de incêndios, explosões, tiros, abusos de poder, roubos, extorsões, excessos… Esse método de propaganda do terror já se tornou bastante conhecido e realmente traz muito resultado, atendendo em cheio a diferentes anseios. Tanto dos que perpetraram os atos dessa semana quanto de seus “concorrentes oficiais”, que a essas alturas certamente já planejaram uma campanha emergencial, com algum nome do tipo Rio Seguro, Rio Total, Segurança Total.
Vocês sabem, esta iniciativa, mesmo escondida sob o manto da sensação de segurança transmitida, também atingirá em cheio a população, principalmente a menos abonada, que “pagará o pato” pelas ações cometidas pelos traidores do povo. “Traidores do Povo” – não existe termo melhor para definir uma horda que, em troca de algum agrado, vai às ruas para destruir o que é vital para os seus iguais, que almejam trabalhar dignamente, e que apesar das inúmeras dificuldades lutam e batalham por uma sobrevivência honesta. São os Josés e Marias, as primeiras vítimas. Estes para sempre ficarão estigmatizados! Por que os “Traidores do Povo” não se insurgem espontaneamente contra todos os que lhe oprimem? Que oprimem os seus iguais? Na hora de participar democraticamente estes vendem os seus votos, por qualquer “caraminguá”, ou pelo prato de R$ 1,00, ou ainda o trocam por Cheques-cidadãos (quando votam…).
O pior de tudo é saber que pseudo-pensadores acham essas ações como algo maravilhoso. Chegam inclusive a confundi-las com algumas revoluções populares que ocorreram no século passado. Esses merdas pensam isso por não estarem no fogo (ainda), não estarem na alça de mira. Estamos em meio a um jogo de cartas marcadas onde se quer fazer muito barulho. Mas será que se quer morrer? Será que é a guerra mesmo que os opressores querem? Penso que não. Estes cenários de tensão e medo fazem parte do cotidiano do Rio de Janeiro, e não existe distinção de classes e zonas.
O medo é o sentimento mais democrático e igualitário. Tenho pena de muitos teleguiados que participam dessas orquestrações. Só se esquecem que, quando a “pica” entrar, não vai ter ninguém para ajudar, sequer para pagar um advogado. Só os buchas ficarão no fogo, assinando vários artigos e se transformando em vítimas de uma justiça “equivocada” e quase sempre tendenciosa que terminará por enviá-los aos depósitos de gente, local onde não se recupera! E os outros continuarão nos seus devaneios, obcecados pelo poder. Tanta disposição jogada fora…
Quanto aos meios de comunicação, será que eles realmente noticiaram tudo? Será que cumpriram (cumprem) o seu papel, em todos os sentidos? Por que não vemos a mesma mobilização ocorrida durante o episódio do jornalista Tim Lopes? Será que vai haver pressão por justiça? Afinal, os inocentes que foram atingidos não merecem a mesma atenção? E as vitimas diárias dessas atrocidades? Não são dignas de respeito? Como diz nossa Constituição Cidadã: “Art. 1º. Todos são iguais perante a lei.” (Quase todos.) Já que vivenciamos uma seqüência de governos estaduais comprometidos e de federais omissos, quanto sangue inocente terá que ser derramado para que se tome alguma providência?
Algumas pessoas ficaram revoltadas com as declarações do secretário de Segurança, que disse “Nosso bloco está na rua e, se tiver que ter um conflito armado, que tenha. Se alguém tiver que morrer por isso, que morra. Nós vamos partir para dentro”(sic). Quem sou eu para julgar essa declaração? O secretário só deveria se lembrar que o bloco dele, assim como os outros blocos já se encontram em ação, em um intenso desfile, que só faz aumentar os nomes nos obituários. Também penso que essa declaração só foi proferida por encontrar eco nas ruas. Por encontrar eco nos que sofrem barbaramente.
Quem convive nesta cidade sabe o quão contraditório é a realidade. Gostaria de saber (e que me respondam os intelectualóides): Qual a diferença dessas declarações para as ações realizadas na prática, onde a população é vitima das mais diferentes formas de violência? Por que não vejo e não ouço nenhum filho da puta defendendo o lado da parcela majoritária da população? Ficam apenas tentando rotular se o discurso é de direita ou de esquerda. Reacionário ou revolucionário – vão se fuder! É tudo a mesma merda.
Torço para que o povo de uma maneira geral não continue sendo tratado como criminoso, agora se os criminosos de carteirinha que também fazem parte dessa população resolverem entrar em confronto com o bloco do secretário – Que estes assumam as conseqüências pelos seus atos, e sejam homens. Não colocando inocentes como escudo!
Por que não vi nenhuma organização de Direitos Humanos (eu tenho legitimidade para falar isso) comparecendo ao enterro do taxista covardemente executado durante os incidentes da segunda-feira (bom, execução já é uma covardia!), nem apoiando as vítimas queimadas dentro dos ônibus que foram incendiados? Devemos rever ou interpretar corretamente o que são os Direitos Universais do Homem – estes devem valer para todos aqueles que compõem essa sociedade necrosada e falida. Estes devem ser imparciais e não cúmplices das perversidades. Devem ser a solução e não a perpetuação dos erros.
Os Direitos Humanos foram deturpados durante o governo militar, onde era associado ao banditismo e/ou aos opositores do regime. O pior é que nos dias de hoje muitos ativistas e organizações reforçam essa associação através de atos impensados (?). Que acabam por criar uma repulsa justamente nos que mais precisam de ajuda e apoio – a nossa população. Respeito diferentes pensamentos, mas peço que parem com esses discursos piegas, que só servem para ocultar um dos lados da história ou para maquiar com flores onde só existem espinhos. Parem com essa demagogia e hipocrisia. Mostrem que o conhecimento não diminuiu suas qualidades morais. E lembro que o próprio povo também se encontra na condição de culpado, de cúmplice. Mas, mesmo assim, deve ter seus pedidos por socorro ouvidos e atendidos.
Se a maioria da população almeja a mudança através da guerra, se for isso mesmo, então vamos juntos nos preparar e desferir um ataque ininterrupto contra todos os que nos oprimem. Vamos buscar a nossa alforria. Ainda somos escravos de um mesmo sistema opressor. Já faz 500 anos e só mudaram os nomes dos feitores, a ideologia é a mesma. Antes era S/A (sociedade anônima), agora S/C (sociedade conhecida). Antes nos vendiam, hoje nos envenenam, nos matam e nos oprimem. Será que somos vítimas de um genocídio meticulosamente planejado? Sabemos quem nos oprime, então vamos nos livrar das amarras do silêncio e botar para fuder. Que se dane se do outro lado estão as nossas réplicas! Não se prendam nisso. A condição deles é de capitães do mato, ou melhor, traidores do povo.
Certamente muitos estão se perguntando: E as armas? Como conseguiremos ter êxito? Porra, nós temos as pedras! Lembram a Intifada? Estas libertaram meia Palestina da ocupação israelense com seu armamento moderno. Também temos outro tipo de pedra: o REP. Esse pode causar estragos divulgando informações que propiciem a transformação. Se bem que, às vezes, este é compartilhado pelos seguidores dos nossos algozes que propagam inúmeras baboseiras. Mas, e daí? O que estamos esperando? Pedradas neles! Estão com medo de morrer? Isso faz parte, esperei uma vida inteira por esse dia: o dia em que veria todos os opressores oficiais (ou não) capitularem, perante o povo. Agora, se a maioria da população optar por uma mudança pacífica, neste caso, digo que devemos estar ainda mais atentos às “entrelinhas” e que através das informações obtidas nas letras de REP, possamos avançar mantendo sempre viva a nossa esperança por um mundo melhor. Assim se lapidará uma consciência forte e cidadã, aglutinando os que estão cansados de sofrer, cansados das injustiças, enfim, cansados de todas essas merdas que assolam a nossa cidade.
Precisamos de soluções e não simples paliativos, como a transferência do “Excelentíssimo Sr. Luiz Fernando (Beira-mar) da Costa” para São Paulo, ou iniciativas politiqueiras que visam atenuar a descrença do povo com relação às “políticas de segurança pública”. A devassa deve ser completa nos que oprimem, incluem-se aí: Executivo, Legislativo, Judiciário, Polícias, tráficos (armas, drogas, influência), forças armadas, empresariado, corporações de mídia, determinadas religiões, determinadas manifestações culturais… enfim todos que possam compor e gerenciar o chamado crime organizado!
Com exceção de umas três pessoas, eu pergunto: por que o silêncio perturbador no Hip Hop carioca? Por que o silêncio na ala pretensamente engajada e articulada? Será que a situação retratada não atinge os conscientes adeptos dessa cultura? Será que estamos limitados ao blá,blá,blá artístico? Será que ninguém mais vai colocar a cara? Mesmo assim ainda acredito que somos a diferença. Que somos um dos caminhos para a mudança!
Então,
- Justiça – que esta alcance todos os filhos da puta que oprimem o povo, sem distinção!
- Liberdade – apenas para a população que labuta de sol a sol, ou que busca incansavelmente o direito de sobreviver.
- Fé – devemos mantê-la a qualquer custo! Só resistimos graças a ela, independente da crença.
- Sofrimento – que este cesse.
- Educação e Informação – para que o povo não fique sujeito a manipulações e orquestrações.
“Que os subjugados de hoje possam, num futuro próximo, ver o desaparecimento de todos os seus algozes, juntamente com seus ideários.”
Def Yuri
CIDADE SEM LEI
Apanho o microfone e ele está municiado. Pra se falar do Rio tem que se estar preparado.
E não pense que estou arredio. Apenas digo que sua vida aqui está por um fio.
E é bom, é bom você notar: Por acaso já viu a cor do nosso mar? De azul, ele ficou vermelho.
O jornal “O povo” é o nosso mais fiel espelho. A cidade violenta, violenta cidade.
Somos prisioneiros entre prédios e grades. Aqui existe diferença entre o certo e as ações.
Balneários do sol, mulheres e contradições. Aqui existem milícias fortemente armadas
que impõem o terror com a caveira e suas rajadas. E eu não sei se essa é a solução, porque eu não sei de que lado eles estão.
Tem homens citados como marginais. O que eles fazem pro povo o governo nunca faz.
Homens bem treinados que formam a polícia, alguns preferem se corromper do que lutar pela justiça.
Isso apenas mostra aquilo que eu já sei: Moramos no Rio, uma cidade sem lei.
(…)
Trecho da música: Cidade Sem Lei.
Autoria: Def Yuri/ Ryo Radikal Repz.
Parte integrante do CD Hip Hop Pelo Rio.
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 27/02/2003 | Seção: Def Yuri
Boicote!
Maio 20, 2008
Nos últimos dias tenho observado em grupos de discussão do Hip Hop na Internet uma grande repercussão sobre o boicote promovido por artistas e ativistas do Hip Hop estadunidense contra uma grande companhia de refrigerantes. Após a mesma vetar a exibição das peças publicitárias estreladas pelo rapper Ludacris, sob alegação que o mesmo tem músicas com palavrões. Passada cerca de uma semana, esse episódio ainda está fervendo, apesar de a companhia ter se disposto a abrir o cofre para projetos sociais realizados nos guetos. Muitos querem, além disso, a exibição das propagandas vetadas.
Aqui no Brasil, uniu-se esse fato aos boicotes propostos contra produtos de origem estadunidense, como resposta e forma de se dizer não à guerra impetrada pelo Grande Satã (George W. Bush) à sua cópia e semelhança (Saddam Hussein). É bom lembrar que ambos são da mesma escola. E a maior vítima é, como sempre, o povo. Lembro que um dos primeiros e-mails que recebi foi do camarada Paulo Sheetara. Ele trazia essa discussão de boicote para o nosso universo. Confesso que a idéia de boicotar produtos estadunidenses é bastante interessante, apesar das dificuldades ocasionadas pela globalização, digo, colonização que nos entope com os mesmos sem dó nem piedade, nos transformando em verdadeiros zombies (criaturas sem alma e errantes) do American Way of Life. Afinal, sem sombra de dúvidas, tenho a impressão de estar vivendo em um protetorado e não em uma nação “soberana”.
Acompanhem o meu raciocínio. Imaginem que o(s) Hip Hop(s) aqui do Brasil resolvesse se unir por um período, um dia que seja. Pensem que, nesse dia, todas as festas deixassem de tocar rep estadunidense, que os nomes das festas fossem em português, que o MC, se tornasse EME CÊ. O DJ fosse apenas DÊ JOTA. Que as lojas retirassem todos os grandes nomes estadunidenses das vitrines e prateleiras acabando por não comercializá-los. Que as rádios seguissem esse exemplo. Que as camisas e adereços tão comuns ficassem na gaveta. Que os Low Riders, sonho de consumo de muitos, não saíssem das garagens, possibilitando assim a volta à realidade da maioria, ao mundo real com os ônibus lotados, lotações calorentas, trens, engarrafamentos… Que a EME TEVÊ só exibisse clipes nacionais ou de países não alinhados com o verdadeiro eixo do mal (EUA e Grã-Bretanha) e sua obsessão pela guerra. Que as gírias gringas e ou terminologias fossem momentaneamente esquecidas, assim como as grifes importadas que não nos trazem nada de útil, nem de crescimento social. Que os portais e páginas da Internet retirassem a visibilidade dos gringos e suas iniciativas. Para quem ainda não sabe o Brasil representa um dos maiores públicos consumidores de Hip Hop em todo o mundo.
Enfim, que o Hip Hop brasileiro fosse só ele por alguns instantes. Será que conseguiríamos andar com as nossas próprias pernas, sem precisar de muletas para legitimar as nossas correrias? Será que isso é possível?
Sei que isso pode parecer xiita ou uma viagem, e que não modificaria o cenário de pré-guerra, digo, de guerra iminente. Porém, penso que seria vital para que todos os adeptos dessa(s) cultura(s) pudessem refletir. Quem sabe assim passaríamos a dar mais valor às nossas correrias, aos nossos ideais. Já são 20 anos de Hip Hop brasileiro e muito da cultura e história do nosso povo e do Brasil foram resgatadas. Verdadeiras odisséias antropológicas foram feitas e disseminadas através de rimas, tintas, sons, imagens e ritmos, trazendo de volta e/ou oferecendo a auto-estima há muito perdida, e a periferia ganhou voz e visibilidade. Lembrando aqui – periferia da sociedade, não a geográfica. Então a minha sugestão é essa: 24 horas dizendo não! Vamos ver se somos fortes na prática, ou é apenas fantasia.
“Sabem por que os EUA têm certeza da existência de armas proibidas no Iraque? Não? É porque eles guardam as notas fiscais…”
Dica:
www.vermelho.org.br , nesta página vocês poderão encontrar artigos do Paulo Sheetara, Tom e muitos outros camaradas. Todas as visões oriundas do Hip Hop são importantes para o nosso auto-conhecimento.
Notas relacionadas:
Fonte: Bocada-Forte
Grupo de hip hop quer fazer boicote contra Pepsi (05/02/03)
Comunidade do hip hop entra em acordo com a Pepsi (12/02/03)
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 21/02/2003 | Seção: Def Yuri
Rasgando a própria carne
Maio 20, 2008
Digo isso pois já estou de saco cheio de ouvir que o “Movimento Hip Hop” apóia isso ou aquilo, este ou aquele. O coletivo de adeptos da cultura Hip Hop não apóia ninguém pois não está organizado para tal, e até o momento não existe(m) indivíduo(s) com poder de deliberar nada em nome, e nem de aglutinar o(s) Hip Hop(s) como um todo à sua volta. Cada indivíduo deve ser respeitado como tal e carregar as suas convicções, não podemos continuar propagando a mentira e uma pseudo-unidade. Ainda sob os efeitos de Porto Alegre e do manifesto que recebi segunda-feira do meu camarada DJ KSK, digo o seguinte – devemos interagir com todos os segmentos da sociedade, porém não devemos ser contaminados por parasitas e/ou criaturas que visam apenas se locupletar. E estes se apresentam aos montes (deve ter acabado o período de incubação). O caso do KSK foi a prova de que vários alertas dados anteriormente tinham fundamento, ele mesmo era parte de uma corrente que almejava uma “mistura” político-partidária com o Hip Hop. Batalhou para caramba e o que ganhou? Uma marca de pé na bunda! Outro exemplo é o programa Hip Hop Sul do camarada Nezzo. Com a mudança de governo do Rio Grande do Sul esta grande iniciativa se viu em apuros de acabar pois, até então, não era vista como um braço do H2 e sim como um informe publicitário do antigo governo.
Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 06/02/2003 | Seção: Def Yuri