Quem é mais Verme?

Maio 20, 2008

Verme é uma das inúmeras denominações com as quais a polícia é agraciada. Quem nunca ouviu falar nos cachorros, samangos, ratos? No Rio, a denominaçao que resiste há mais tempo é essa: “Verme”! Realmente, todo o indivíduo incumbido de manter a lei e que julga estar acima dela, não exercendo corretamente as suas atribuições e incorrendo em inúmeros crimes, é um “Verme”! Porém, serão eles os únicos “Vermes” na nossa sociedade?

E aqueles que (também) executam, intimidam, torturam, desrespeitam, extorquem, humilham, julgam, traficam armas e drogas, seqüestram, estupram, e por fim envenenam o seu próprio povo? Esses não são atos que qualificam um indivíduo a pleitear o título de “Verme”?

Não me venham com discursos prontos, de que os “Vermes” de lá são opressores e os daqui são oprimidos – porra nenhuma! Ou ambos são opressores ou ambos são oprimidos. Não existe meio-termo. Digo isso pelo simples fato de que ambos os grupos são oriundos da sociedade da qual fazemos parte. Eles não são provenientes de Marte ou Saturno.

Ultimamente, já não agüento ouvir justificativas sobre fatos que são “quase” injustificáveis. O “romantismo” é cada vez mais exacerbado. Todos querem mostrar que têm razão e não admitir sua contribuição para com esse estado de caos. Querem exemplos? Um indivíduo vai e mete as caras, ele cheira, fuma, rouba, mata e depois não quer que o Estado retribua esse tratamento (ou pelo menos que se cumpra a lei). Quer algo que ele próprio não disponibilizou às suas vítimas.

Este, se for detido, vai passar um tempo em uma casa de custódia até o seu encontro com o “capa preta”, que o jogará de vez no inferno. Lá será praticamente impossível a ressocialização; o desrespeito é generalizado, conseqüentemente sua família sofrerá e também cumprirá uma pena, na minha opinião muito pior. Depois de fazer as merdas não adianta lamentar, clamar pelos barrigudinhos etc. Errou, assume. A vida é assim: “vitórias e derrotas”. Será que a esperteza da malandragem só foca o êxito e não cogita a possibilidade de se fuder?

Só faço uma ressalva para os inúmeros injustiçados que se encontram no purgatório em decorrência de “forjados”, “denúncias caluniosas”. Esses são vítimas do crime, da polícia, da justiça e da sociedade. Por outro lado, para piorar a situação, temos profissionais de polícia que rotineiramente aterrorizam a população. Estes agem de maneira igual aos outros, com a agravante de serem legitimados pelo Estado (consolidado pela própria população) e com a certeza da impunidade, com a certeza de que uma carteira funcional os transforma em Super- Homens. Espero que a criptonita da justiça seja encontrada o quanto antes. No fim das contas, todos esses grupos de facínoras visam apenas o lucro e nesta cruzada pelo dinheiro e poder é o povo que sofre e se transforma em alvo preferencial de ações nefastas.
Essa população, que em geral não é parente de nenhum desses grupos ou, melhor dizendo, está à margem, se encontra literalmente fudida. Pois, se quer e pede pela punição de bandidos “normais”, é rotulada de reacionária, conservadora, alienada, manipulada… E se se insurgir contra as atrocidades cometidas pelo “Estado”, passa a ser vista como defensora de bandido, conivente, ingrata…

Analisar o que eu estou tentando explicar vai exigir muito dos que têm uma visão limitada ou parcial sobre o tema e sobre a vida!

Acredito que os Direitos Humanos são direitos fundamentais de todo e qualquer cidadão, não importa a condição. Será que os defensores desses grupos por mim citados saberiam viver sob um regime de anarquia, onde se prevalece a lei do “olho por olho, dente por dente”? Já que numa ditadura oficial ou paralela, estou ciente de que eles são capazes de viver.

Todos nós somos os alvos, portanto devemos ter capacidade e discernimento de avaliar o que nos circunda, sem medo de sermos jogados nas fogueiras dessa inquisição moderna. Essa premissa vale principalmente para os adeptos da minha cultura, para os adeptos do REP que sempre se encontram prontos para denunciar, criticar, e às vezes até se comprometer com os mais diferentes grupos citados.

Se somos as vozes dos oprimidos e excluídos em geral, se falamos a verdade, então devemos estar muito mais atentos para não compactuarmos com essas ditaduras de merda. Acredito que somos instrumentos da mudança e não simples marionetes sempre prontas a propagar equívocos. Essa é minha opinião.

Outro grupo que também deveria ser agraciado é o dos políticos. Segundo falam, a interação desses “Vermes” com seus co-irmãos é algo impressionante. Todos são vorazes no ato de subjugar a população, todos se encontram nivelados. São tantos grupos de “Vermes”… Será que nossa sociedade, que oscila entre omissa e insurgente perante essas mazelas, será que ela, digo, será que todos nós de uma maneira ou de outra nos tornamos “Vermes”? Afinal de contas, me digam: Quem é mais “Verme”?

“… ainda mensageiro, ainda guerreiro, a missão amplia. Nada como um dia atrás de outro dia… Mas eu ainda sonho, ainda estou de pé, ainda tenho fé que a violência é conseqüência… de uma raça em decadência que não respeita a resistência, ainda a esboço e boa vontade até o pescoço. Ainda mensageiro até o osso…”
                 Música: Ainda Mensageiro – Comunidade Racional – São José dos Pinhais/ PR

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 04/04/2003 | Seção: Def Yuri

RJ capital Bagdá

Maio 20, 2008

Já se passou uma semana e o mundo acompanha atentamente pela TV e por outras mídias os desdobramentos dessa que é considerada a ação mais nefasta desde a Segunda Grande Guerra. Podemos acompanhar em tempo real um verdadeiro show dos horrores, em que, faço questão de lembrar, não existem heróis, apenas uma vítima – a população iraquiana. Sei que alguns vão questionar: e as famílias dos soldados que integram as “forças do eixo” (EUA, GB)? Considero essas um “pouco menos” vítimas em decorrência de que todos os soldados estadunidenses e bretãos são profissionais muito bem remunerados e cientes dos riscos; lá não estão jovens participantes de algum serviço obrigatório e mal informados. Portanto… Enquanto muitos tremem só de ouvir falar nomes como Al Qaeda, Hezbollah, Hamas, Al Aqsa, a população iraquiana conhece na prática outros grupos terroristas, também “instruídos” na universidade do terror estadunidense (CIA). Falo dos Rangers, Seals, SAS (GB), Green Berets e Delta Force. Esses grupos de fanáticos são perigosíssimos, alguns deles, inclusive, têm sede ou se movimentam em solo brasileiro, com total desenvoltura e liberdade. As “forças do eixo” impuseram um intenso bombardeio que denominam “Choque e Pavor”, é verdade.

 

Para o povo, foi isso mesmo, mas confesso que preferi a síndrome do “terror e pânico” que acometeu os invasores; isso ficou evidente nas imagens dos aprisionados, ou nas emboscadas para lá de criativas. Eu as vi como se estivesse vendo o Topa-Tudo por Dinheiro, no SBT. Sei que alguns vão me interpretar mal. Mas, tudo bem, é a lei da natureza, o mais fraco tem o apoio. Concordam? Não é preciso ser adivinho para saber que essa guerra não terminará com a invasão de um país; isso ainda renderá muito. Essa merda de guerra é muito lucrativa não só para a indústria bélica, como também para os que são contra. São camisas, adesivos, bonés, músicas, revistas, festas, shows… Todo mundo quer o seu quinhão; é o capitalismo moderno – não basta apoiar, se indignar, tem que lucrar. Meu raciocínio acaba de ser quebrado… nesse momento os sons de fuzis de assalto, metralhadoras, pistolas, granadas e… é isso mesmo, um intenso tiroteio rasga o silêncio desse fim de noite. Para vocês entenderem corretamente enquanto escrevo esse artigo, a televisão está ligada no Diário da Guerra, com o Roberto Cabrini, um rádio na CBN e em outro o som do grupo de rap carioca SAR. Todos eles agora ganham o reforço da sinfonia de tiros.

 

Em meio a esse “bombardeio” de informações, meu cérebro trabalha com a certeza de que irá alcançar seu alvo com uma “precisão cirúrgica”. O Rio de Janeiro sangra incessantemente, e não vejo manifestações e passeatas contra a nossa guerra. Cheguei a ir a uma dessas na praia – acredito que para se criticar devemos estar minimamente embasados e até prova em contrário nós éramos os únicos da “nação do Hip Hop carioca” presentes. Em poucos minutos, olhando atentamente, pude constatar o perfil dos “indignados”: a maioria brancos, de classes (muito) mais favorecidas, o número de negros e afro-descendentes era irrisório (salvo eu e uma meia dúzia). A maioria se encontrava trabalhando: polícia, guarda municipal, flanelinhas e camelôs.

 

No decorrer da caminhada, encontrei o escritor Adair Rocha e juntos pudemos ouvir uma senhora vociferar de um ônibus: “Quero ver fazer isso lá em Brasília! Deixa a guerra dos outros prá lá. Quero ver fazer passeata contra o racismo, fome, contra a guerra do tráfico, contra a corrupção…” O ônibus em que ela se encontrava começou a se movimentar, mas os gritos indignados continuaram a ser ouvidos perante os olhares incomodados e irônicos de uma maioria festeira. Entenderam o que quero dizer? Nós temos que nos indignar pelo que acontece no mundo, mas temos o dever de nos indignar pelo que acontece aqui, e isso deve acontecer sempre, não somente quando nós e nossos familiares somos os alvos. Quando os gritos das inúmeras vítimas invisíveis serão ouvidos? Em um passado, Chuck D, do Public Enemy disse que o REP era a CNN dos negros estadunidenses. Ainda nesse período sampliei essa citação e coloquei que, no Brasil, o REP era a CBN dos excluídos. Porém chegamos ao momento do REP brasileiro, e principalmente o carioca, ter um pouco de Al-Jazeera e de mídias alternativas, e não de Jovens Tardes ou da Turma do Didi.

 

As informações devem transcender o limite de segurança natural e ganhar o mundo. Muitos precisam ter as ditaduras que os oprimem expostas, seja lá de que forma. O REP não é voz da favela, dos oprimidos, do povo? Então, tem a obrigação de fazer mais, e (tentar) fazer de forma imparcial, sem sensacionalismo ou tendenciosismos, às vezes comuns no meio. Será que no REP brasileiro existe uma censura prévia como nos veículos de comunicação estadunidenses? Tanto na guerra de lá quanto na nossa, repito, não existem heróis. Outra coincidência, na minha opinião, é justamente no que tange respeito aos investidores; esses são, na minha opinião, os grandes culpados.

 

No Rio, esses eu denomino como “desgraçados”, e no seu egoísmo doentio acabam por ficar cegos, não enxergando que são os principais causadores das nossas chagas. Se eles tivessem discernimento, saberiam que o prazer deles é semelhante ao do George W. Bush ou mesmo do Saddam Hussein. Uma dúvida: por que a imprensa televisiva não coloca equipamentos de videofone nas nossas regiões de conflito? Garanto que, em termos de ferocidade, nós ganhamos. Imaginem: quando estivéssemos à noite reunidos com as nossas famílias, poderíamos ver execuções, decapitações, fuzilamentos… Garanto que nem lembraríamos dos armamentos químicos, biológicos e nucleares.

 

Afirmo que o número de baixas dessa semana é muito maior do que o da “guerra pelo petróleo”, e só estou usando o Rio de Janeiro como referência. Se colocar os números de São Paulo e outras capitais, não vai ter para ninguém. Mas isso não comove o Papa e cia., o mundo não se comove. Por falar em comoção, segundo a Constituição, todos são iguais perante a lei. Se isso é verdade, por que medidas só são tomadas quando morre um magistrado ou similar? Será que a população comum tem, a partir de hoje, que torcer para que autoridades, ricos e famosos sejam abatidos das formas mais violentas? Será que só assim as providências serão tomadas com mais rapidez? Será? Quando assumirão que enfrentamos uma guerra? Seguindo essa lógica de quanto maior o posto mais rápido as medidas serão tomadas… Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se cuide, pois o povo não agüenta mais.


Espero que pelo menos o Hip Hop prossiga tentado mudar o destino, e não ajudando a piorar. Bom, fico por aqui. E esse é mais um artigo do seu correspondente de guerra, Def Yuri diretamente de Bagdá – Rio de Janeiro.

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 28/03/2003 | Seção: Def Yuri

 

Donos do Mundo

Maio 20, 2008

O mundo está perplexo diante de mais uma ação terrorista em alta escala, desferida pela besta do apocalipse George W Bush, contra o Iraque e o odioso regime de Saddam Hussein. Como sempre acontece nessas histórias, a população civil será quem sentirá o peso destas ações, será a vítima preferencial dos “donos do mundo”. É nojento ver e ouvir bestas estadunidenses falando que levarão liberdade e democracia; logo eles, oriundos de um país opressor, cuja a democracia é uma verdadeira encenação, onde não se respeitam os direitos humanos, nascedouro de muitos golpes e principalmente do terrorismo.

 

Acreditam piamente ser a polícia do mundo, com poder para intervir onde quiserem, e quando quiserem, não atinam para o fato de que na verdade são apenas um conjunto de degenerados, arrogantes, amorais, que incentivam, financiam e disseminam o tráfico de drogas, armas e outras chagas. Quantos terão que morrer? Quantas torres devem ser derrubadas para que estes imbecis se dêem conta de que não estão sozinhos nessa porra de mundo. Um dia, eles entenderão ou capitularão. Realmente, no momento não tenho cabeça e muito menos ânimo para descrever toda a minha indignação com os conflitos do Rio de Janeiro e do Iraque.

 

Quem sabe na próxima semana a inspiração volta? Enquanto isso sugiro que leiam:

A (RE) AÇÃO DE 11 DE SETEMBRO

DE VOLTA AO TERROR

APENAS UMA MISSÃO DE ROTINA

“A águia sobe sempre, seu vôo descobre os quatro cantos da terra.

De repente, em meio ao firmamento, quebra-se o vôo, no cansaço de suas asas, ela cai…”

(Li Po/ 705-62)

 

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br  | 21/03/2003 | Seção: Def Yuri

Em meio à crise

Maio 20, 2008

Em um artigo recente, chamado “Até quando seremos reféns“, entre outros questionamentos fiz algumas perguntas relacionadas ao Hip Hop carioca e a seu estranho silêncio perante os fatos ocorridos nas últimas semanas, o que em alguns casos se mostrou um misto de conivência e omissão. Postura que considero equivocada, tendo em vista os discursos engajados, que propagam uma imagem não condizente com o dia-a-dia.

É lamentável que em meio à crise, vários posicionamentos importantes fiquem ocultos atrás de letras de REP, de reuniões na surdina, encontros em bares e festas, ou mesmo ausentes nos grafites e rodas de break. Acredito que quem está na chuva, está para se molhar; portanto, salvo os coniventes com o que corrói a sociedade carioca, todos os outros são importantes para marcar as posições do Hip Hop, enquanto um forte segmento civil. Apesar de tudo, ainda tenho esperança de que a “Hip Hopcrisia” seja superada e possamos – mesmo que em diferentes vertentes – ser agentes de transformação na prática.

Poderia continuar escrevendo sobre o “holocausto urbano carioca”, pontuando todos os personagens e causadores dessa tragédia, mas em decorrência de várias mensagens por mim recebidas, e que pediam mais informações do posicionamento dos adeptos da “nossa cultura” perante essas adversidades, resolvi, neste artigo, ampliar o campo de ação, e seguir mirando no espelho onde todos poderão ver não só o Hip Hop carioca, mas sim o brasileiro.

Eu, Def Yuri, não acredito na existência de um “Movimento” e sim de uma “Cultura Hip Hop”. Mas imaginemos que esse “Movimento” realmente existisse. Então, onde está que não se pronuncia pela elucidação da recente morte do rapper Sabotage? Não estou falando de homenagens e/ou outras coisas que são muito merecidas. Digo que, independente do motivo que ocasionou esse crime, ele deve ser desvendado e os culpados devem ser conhecidos e punidos, seguindo os critérios legais. Será que o “Movimento” está preocupado com a situação dos familiares do cidadão Mauro Matheus dos Santos (Sabotage), Antônio Carlos da Silva (B-boy Carlinhos) e tantos outros? Será que o “Movimento” se vê enquanto um coletivo de cidadãos, que tem direitos e deveres, assim como todo o conjunto da sociedade?

Onde está o nosso “Movimento” que não mostra toda a sua “força”? Será que é impossível uma articulação que consiga pressionar ou mesmo chamar a atenção do governador Geraldo Alckimin e das demais autoridades do estado de São Paulo, bem como de alguns ilustres petistas que sempre “se alinharam”(?) em prol do “Movimento”? Esses que na hora de pedir os votos sempre aparecem, e na hora em que sangramos viram as costas.

Quantos mais precisam morrer para que a parte alienada (ou mal direcionada) acorde e aja, ou reaja, juntamente com os parasitas e oportunistas de plantão? A Meca do “Movimento”, com toda a sua soberba e conhecimento, em vez de criticar tudo e todos, e impor regras, deve mostrar como faremos para manter a nossa “incrível união”.

Nós, “manos do movimento”, somos as vítimas preferenciais de uma infinidade de formas de violência. Somos nós que ficamos à mercê da polícia com seus abusos, do crime com seus acertos de contas, da sociedade com seus preconceitos. Enfim, somos a parte mais fraca da corda. E, como grande parte da população, somos diariamente subjugados por diferentes “ditaduras”. Nem a certeza disso nos impulsiona para uma insurreição real que objetive direitos e respeito aos nossos iguais. Será que estamos ficando cada vez mais parecidos com os políticos, de quem herdamos o dom do discurso, a omissão e a inércia?

Em vários estados, a perseguição ao “Movimento” ainda é no melhor estilo Torquemada: rádios são fechadas, grupos sofrem agressões e (re) conhecem o rigor da lei. Muitos são os exemplos, e a deturpação da liberdade de expressão ocasiona o cerceamento da nossa correria. Pergunto: se não conseguimos coesão para correr atrás do prejuízo de indivíduos com “proceder”, será que conseguiremos algum dia nos unir de fato e batalhar contra as perseguições que, na minha opinião, são políticas?

Lembrem-se de que não estou falando dos nossos “manos” que cometem ilícitos, que por uma infinidade de motivos fazem um assalto a mão armada, homicídios, furtos, tráfico, corrupção de menores, consumo de substâncias entorpecentes, etc… e quando são presos dizem que isso está acontecendo por serem adeptos do Hip Hop. Portanto, vítimas do racismo, do sistema opressor…

Penso que estas são atitudes individuais e devem ser assumidas pelos que as cometem – jamais pelo “Movimento”. O Hip Hop deve estar acima dessas coisas. Já nos casos que identifiquei como perseguições políticas, aí é diferente; nestes casos, penso ser vital uma maior visibilidade de todos os “manos, minas e outros” (com todo o respeito).

Parece difícil, mas existem muitas maneiras de ser fazer isso, basta vontade, basta ver que os que consideramos playboys, barões, riquinhos, bodinhos, alienados… esses conseguiram forjar um movimento que ficou conhecido como os “caras-pintadas”, e chegaram inclusive a acreditar que derrubaram um presidente.

Se eles, que pelo nosso julgamento ganharam uma infinidade de características negativas, conseguiram seguir adiante, por que o nosso “Movimento”, que é consciente, inteligente, articulado, guerreiro, poderoso, não consegue sequer se reunir em prol dos objetivos comuns, não consegue sequer definir pautas para um encontro? Será que a nossa coesão só aparece na hora de chorar e cobrar providências pelas mortes dos Tupac’s e B.I.G’s da vida? Ou quando perdemos nosso tempo precioso julgando-nos uns aos outros?

Devemos honrar nossa “ideologia” na prática e não da boca para fora. Se realmente existe uma “consciência”, uma atitude, que todos coloquem a cara, e busquem justiça e direitos. Basta de covardia!

Se nos omitimos perante o que nos atinge, como pretendemos cobrar atitude do restante da população, que às vezes por seguir outras idéias, é por nós rotulado de menos consciente ou alienada? É para isso que serve o “Movimento”, para julgar, perseguir, rotular e desdenhar os outros?

Voltando à realidade, ainda bem que sou adepto da cultura Hip Hop, portanto (re) conheço as inúmeras vertentes que a compõe. Já são 20 anos de Hip Hop no Brasil e a reflexão se faz necessária com extrema urgência, tanto para os artistas quanto para os ativistas ou simplesmente para o público consumidor em geral. Devemos priorizar o que nos une e o que nos une é o Hip Hop! Então, deixemos para discutir as diferenças depois, e isso deve ser feito antes que a vaca vá para o brejo…

“… Jeito agressivo, sujo e pesado, estilo Hip Hop é como é, chamado, negros e brancos de um mesmo lado, ideais em torno de um mesmo fato…” Código 13

Para uma melhor compreensão deste texto, leiam também:

Rasgando a própria carne 

Jogo de cena 

Capitães do mato 

O mundo dá voltas 

“Eles” destruíram o Rio 

Além do 3×4

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 14/03/2003 | Seção: Def Yuri  

 

Jogo de cena

Maio 20, 2008

Após a explosão de violência da semana passada, onde traficantes (?) lançaram ataques contra ônibus e a população em geral, o Rio de Janeiro viveu um carnaval de “relativa” tranqüilidade. Digo isso pois a violência “revolucionária” deve ter parado para descansar e quem sabe desfilar na Sapucaí e/ou pegar uma praia na Região dos Lagos. Afinal de contas, ninguém é de ferro! Bom, vou resumir a situação do Rio: é um verdadeiro jogo de cena. Tipo – a(s) polícia(s) finge(m) que policia(m), a bandidagem finge que se intimida, e a população (alguns se iludem!) acredita.

 

Muitas autoridades e, principalmente, o ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, temiam que a violência invadisse e estragasse o carnaval na Passarela do Samba e, no intuito de transmitir segurança, os governos federal, estadual e municipal reuniram todas as polícias e colocaram as forças armadas nas ruas. 50.000 homens: este é o efetivo total empregado na “Operação Guanabara”. Lembro que, na minha juventude, quando prestei serviço no EB (Exército Brasileiro), tinha um termo bastante usado para definir operações como essa – “Embuste”. Assim como na Eco 92, o que acontece no Rio de Janeiro é um verdadeiro embuste, ou seria melhor falar em “Jogo de Cena”?

Muitas pessoas como eu duvidavam que determinada facção realizasse algum tipo de ato durante o carnaval. Basta lembrar que segundo a própria justiça fluminense o jogo do bicho e o tráfico de drogas e armas estão intrinsecamente ligados. E sabendo quem faz o gerenciamento das escolas de samba e do carnaval carioca como um todo, chegamos à conclusão de que a “calmaria” seria o resultado mais óbvio. Um outro aspecto importante é que as escolas de samba representam inúmeras comunidades.

 

Um ataque desferido contra estas é um autêntico suicídio, pois as comunidades movidas pela revolta e no intuito da justiça poderiam romper a barreira da ditadura do medo e passariam a cobrar uma atitude mais enérgica e salvadora do lado oficial. O resultado disso encontraria reflexo nos negócios, que estariam condenados. Percebem como tudo é um círculo vicioso? Prestem atenção nas muitas curiosidades. Um forte efetivo das Forças Armadas invadiu os pontos turísticos e principalmente as praias que, aliás, com um sol de 40 graus, muitas mulheres e sem “nenhum opositor”, formam o lugar perfeito para operações. Outra coisa que chamou bastante atenção é que as operações policiais “mais enérgicas” foram desferidas contra comunidades controladas por facções diferentes das que disseminaram a onda de crimes da semana passada. Isso, na minha opinião, levanta muita desconfiança.

 

Será isso algum tipo de conivência? Ou aproveitaram para tirar alguma diferença antiga? Essas outras comunidades a que me refiro sentiram todo o rigor do “estrito cumprimento do dever legal” e da determinação dos que querem mostrar que o trabalho está sendo feito. Essa guerra de propaganda está rendendo frutos para “todos os lados”. Penso que a “retaliação”, ou sei lá como queiram definir esses atos “embusteiros”, deveria ser feita de acordo com as leis e direcionada aos que realmente cometeram as ações, assim como seus mandantes, ou contra todos.

 

O fato disso não ocorrer mostra que coisas estranhas acontecem. Repito: Por que as grandes investigações para desarticulação do chamado crime organizado não contemplam a todas as “organizações”? Por que os mandados de busca e apreensão coletivos expedidos pelo nosso Judiciário “imparcial” e usados nas favelas, possibilitando o livre acesso a qualquer residência, não são usados nos grandes condomínios situados em áreas nobres? Por que os órgãos chefiados pelo COSI (Comando de Operações de Segurança Integrada) não “invadem” as mansões dos Silveirinhas, mega banqueiros do bicho e autoridades suspeitas? Ou mesmo as casas dos aviõezinhos de luxo assíduos na linha Rio x Amsterdã? Pergunto: Onde está o senso de se cumprir o dever? Onde está a moral? Será que essas movimentações realmente visam transmitir a sensação de segurança ao povo? A única certeza que tenho é que no final das contas todos os envolvidos se encontraram direta ou indiretamente no carnaval.

 

Com relação às Forças Armadas: para quem não sabe os militares têm verdadeiro horror dessas operações de policiamento, e isso não é decorrente da ditadura militar, e sim do total desinteresse. Todo aquele blá, blá, blá de amor à pátria e etc. não passa de marketing. Será que eles realmente trocariam a tranqüilidade da caserna com sua boa vida, e sem muito o que fazer, pelo dia a dia de escaramuças e incerteza de não voltar para casa? Essa “teatralização” que vimos nas ruas, objetiva dois aspectos: 1) “entreter” uma população atemorizada e 2) justificar o dinheiro investido.
Acabo de me lembrar – como andam as investigações sobre tráfico de drogas por oficiais da FAB? E sobre os contrabandos (na) pela Marinha? Lembram da explosão do paiol na Ilha do Boqueirão(RJ), até hoje não elucidado e que, especulam, jogou muitas armas nas ruas? Por que ninguém fala mais nisso? Por quê? No final das contas os impostos da sociedade são o que mantém a boa vida na caserna. No fim é a sociedade como um todo que “paga o(s) pato(s)”.

Voltando ao carnaval. Imaginem vocês que unidades de elite das polícias civil e militar se encontravam baseadas dentro do Sambódromo. Por que estas unidades, com todas as suas “habilidades técnicas”, não estavam nas ruas? Por que o seleto público do Sambódromo merece prioridade na segurança? E o resto da população? Continua com um policiamento escasso, e ainda por cima despreparado e/ou comprometido…

 

Outro detalhe que um camarada me apontou foi em relação ao Batalhão de Choque (Polícia Militar), uma unidade que tem como característica a “ação inibidora”. Pois bem, se você que lê este artigo algum dia for fazer greve e/ou se manifestar nas portas do Palácio das Laranjeiras, saiba que conhecerá na prática a chamada “ação inibidora” e com certeza carregará as marcas por muito tempo.

 

E eu pergunto: onde andou todo o efetivo dessa “temida” unidade nos dias de carnaval? Ah! Fazendo segurança “desarmada” no Sambódromo! Enquanto isso, longe dos holofotes, o couro comia, digo, o aço fazia a festa e as estatísticas subiam. A cidade continuou a ver e sentir o crescimento dos mais diferentes tipos de crimes.

Um dos casos divulgados e que devem ser cobrados foi a “execução” de um professor de inglês, após este supostamente “furar” uma blitz feita pelo 26º BINF PQDT. As versões oficiais não estão de acordo com o cenário do crime (para variar). Pensem na hipótese de ser vítima de uma emboscada num bairro do subúrbio carioca, local este que, após às 22h, não apresenta nenhum tipo de movimentação policial, deixando moradores locais entregues à própria sorte. Pois bem, neste cenário, você, que está dirigindo a caminho de casa, com pressa para não ser exposto a nenhuma eventualidade, depara-se com homens de uniforme camuflado e com o rosto pintado. Qualquer morador do Rio pode confundir estes com “milicianos pára-oficiais”, que patrulham e controlam as ruas de diversos bairros, às vezes até fardados e com carros oficiais clonados.

 

Portanto, o Comando Militar do Leste deve explicações à população. Essa execução só constata e reforça a idéia que, de uma forma ou de outra, o povo continua sendo executado e barbarizado. Já ia esquecendo: segundo relatos, antes ou durante o episódio da “execução”, indivíduos de uma facção que não devem ter lido o script corretamente atacaram uma guarnição do 26º Batalhão de Infantaria Pára-quedista, o que complica ainda mais a história. Será que na impossibilidade de se chegar aos seus agressores os milicos atacaram o primeiro carro que apareceu? Afinal, a maioria dos soldados são jovens com idade média de 19 anos, sem preparo para exercer a função de polícia e com grande vontade de vivenciar situações reais que envolvem adrenalina, diferente dos treinamentos no quartel e suas munições de festim.

 

 

 

 

 

 

 

A imprensa deveria mostrar maior interesse e principalmente coragem de apurar esse e outros fatos. Não adianta acobertar agora porque depois vai ser pior. Sem querer ser adivinho (não tenho vocação), digo que o termômetro da violência poderá ser medido na próxima madrugada de domingo para segunda. O desfile das campeãs já vai ter ocorrido, o carnaval não será mais notícia, os turistas já terão ido embora… e aí, quem é daqui sabe o que acontece. A população carioca não pode continuar refém desse jogo de cena ou jogo de interesses, onde o principal objetivo são os negócios e o dinheiro, que calam a boca de muitos.

 

Precisamos de iniciativas que possibilitem uma melhor qualidade de vida para todos. Os investimentos na educação, saúde, transportes públicos variados, lazer são imprescindíveis, pois também são parte de um novo conceito de segurança pública. Conceito este que transcende a interpretação policialesca. A população deve cobrar essas mudanças e participar efetivamente até porque “um povo que espera um salvador, não merece a salvação.” Enquanto isso não ocorrer, é triste dizer, mas tenho a certeza de que estaremos cada vez mais fudidos… E o pior é que muitos confundem sensação de segurança, com segurança.

Em tempo:

São 5h40 da manhã do dia 06/03/2003. Enquanto fecho este artigo fico sabendo que mesmo com os 50.000 homens da “Operação Embuste”, digo Guanabara, a cidade voltou a sua “normalidade” com diversos confrontos armados. Viram como eu não tenho vocação para adivinho? E com relação à “execução” do professor, a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro já está tirando a “bunda da reta”, atribuindo toda a responsabilidade ao Exército. Mas, a operação não era integrada?

 

Em depoimento, dois policiais que se encontravam na região do “incidente” disseram que não consideraram o carro do professor suspeito e muito menos efetuaram disparos de advertência. Eles inclusive reforçaram especulações de que momentos antes da “execução”, a unidade “de extermínio” pára-quedista (esta não cumpriu seu script) teria entrado em choque com supostos traficantes, e também teria sido alvo de um ataque com bombas caseiras jogadas por ocupantes de um corsa preto, automóvel parecido com o do professor, que era de cor azul. Segundo o Secretário de Segurança Pública, Cel. da PM Josias Quintal, “quem atirou foram eles (Exército). Cabe ao Comando Militar do Leste explicar.” Ainda, segundo o irmão do professor assassinado, “talvez ele tenha furado a blitz por medo. Hoje, no Rio, traficantes fazem blitz com coletes da polícia.

 

Quem tem coragem de parar? Por que não atirar no pneu? Por que não perseguí-lo?”.  E já que é necessário uma boa imagem da Operação para prosseguir com uma anunciada Força Tarefa (outra vez), o ministro da Casa Civil, José Dirceu, que não estava no local na hora da execução (portanto nunca poderá afirmar categoricamente a verdade) afirmou que os militares agiram de forma correta, antes mesmo de qualquer investigação sobre o episódio.

Leiam:  Militares garantem que não irão combater criminalidade , publicada no dia 3 de janeiro no jornal Estado de S.Paulo.

 

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 06/03/2003 | Seção: Def Yuri

O Rio de Janeiro mais uma vez é palco de uma grande insurreição que, ao contrário do que alguns românticos apregoam, não tem nada a ver com os ideários de paz, justiça e, muito menos, liberdade. A população carioca vive subjugada e amplamente humilhada, à mercê de todo os tipos de ações, não importando quem são os agentes, pois o resultado final sempre é o medo, terror e o desrespeito. Estes se apresentam através de incêndios, explosões, tiros, abusos de poder, roubos, extorsões, excessos… Esse método de propaganda do terror já se tornou bastante conhecido e realmente traz muito resultado, atendendo em cheio a diferentes anseios. Tanto dos que perpetraram os atos dessa semana quanto de seus “concorrentes oficiais”, que a essas alturas certamente já planejaram uma campanha emergencial, com algum nome do tipo Rio Seguro, Rio Total, Segurança Total.

Vocês sabem, esta iniciativa, mesmo escondida sob o manto da sensação de segurança transmitida, também atingirá em cheio a população, principalmente a menos abonada, que “pagará o pato” pelas ações cometidas pelos traidores do povo. “Traidores do Povo” – não existe termo melhor para definir uma horda que, em troca de algum agrado, vai às ruas para destruir o que é vital para os seus iguais, que almejam trabalhar dignamente, e que apesar das inúmeras dificuldades lutam e batalham por uma sobrevivência honesta. São os Josés e Marias, as primeiras vítimas. Estes para sempre ficarão estigmatizados! Por que os “Traidores do Povo” não se insurgem espontaneamente contra todos os que lhe oprimem? Que oprimem os seus iguais? Na hora de participar democraticamente estes vendem os seus votos, por qualquer “caraminguá”, ou pelo prato de R$ 1,00, ou ainda o trocam por Cheques-cidadãos (quando votam…).

O pior de tudo é saber que pseudo-pensadores acham essas ações como algo maravilhoso. Chegam inclusive a confundi-las com algumas revoluções populares que ocorreram no século passado. Esses merdas pensam isso por não estarem no fogo (ainda), não estarem na alça de mira. Estamos em meio a um jogo de cartas marcadas onde se quer fazer muito barulho. Mas será que se quer morrer? Será que é a guerra mesmo que os opressores querem? Penso que não. Estes cenários de tensão e medo fazem parte do cotidiano do Rio de Janeiro, e não existe distinção de classes e zonas.

O medo é o sentimento mais democrático e igualitário. Tenho pena de muitos teleguiados que participam dessas orquestrações. Só se esquecem que, quando a “pica” entrar, não vai ter ninguém para ajudar, sequer para pagar um advogado. Só os buchas ficarão no fogo, assinando vários artigos e se transformando em vítimas de uma justiça “equivocada” e quase sempre tendenciosa que terminará por enviá-los aos depósitos de gente, local onde não se recupera! E os outros continuarão nos seus devaneios, obcecados pelo poder. Tanta disposição jogada fora…

 

Os nossos verdadeiros inimigos estão no espelho. Eu nasci nessa terra e aqui pretendo desaparecer. Tenho vergonha e nojo que as revoltas não atendam às vontades do povo por melhorias na qualidade de vida e na luta por direitos. São apenas encenações para pressionar e chamar a atenção dos poderosos (sócios, mentores?) oficialmente falando. Ou mesmo para tirar alguma situação da evidência momentânea – alguém se lembra das acusações que implicaram o ex-governador no caso das propinas? Estou de saco cheio de tudo isso, estou de saco cheio dessa merda de cativeiro em que vivemos. Até quando seremos reféns? Que se fodam os interesses! Que se fodam os diferentes lados da opressão! Que se fodam os desgraçados (“Desgraçados” ) que são os grandes acionistas dessa merda! Que se fodam!

Quanto aos meios de comunicação, será que eles realmente noticiaram tudo? Será que cumpriram (cumprem) o seu papel, em todos os sentidos? Por que não vemos a mesma mobilização ocorrida durante o episódio do jornalista Tim Lopes? Será que vai haver pressão por justiça? Afinal, os inocentes que foram atingidos não merecem a mesma atenção? E as vitimas diárias dessas atrocidades? Não são dignas de respeito? Como diz nossa Constituição Cidadã: “Art. 1º. Todos são iguais perante a lei.” (Quase todos.) Já que vivenciamos uma seqüência de governos estaduais comprometidos e de federais omissos, quanto sangue inocente terá que ser derramado para que se tome alguma providência? 

Algumas pessoas ficaram revoltadas com as declarações do secretário de Segurança, que disse “Nosso bloco está na rua e, se tiver que ter um conflito armado, que tenha. Se alguém tiver que morrer por isso, que morra. Nós vamos partir para dentro”(sic). Quem sou eu para julgar essa declaração? O secretário só deveria se lembrar que o bloco dele, assim como os outros blocos já se encontram em ação, em um intenso desfile, que só faz aumentar os nomes nos obituários. Também penso que essa declaração só foi proferida por encontrar eco nas ruas. Por encontrar eco nos que sofrem barbaramente.

Quem convive nesta cidade sabe o quão contraditório é a realidade. Gostaria de saber (e que me respondam os intelectualóides): Qual a diferença dessas declarações para as ações realizadas na prática, onde a população é vitima das mais diferentes formas de violência? Por que não vejo e não ouço nenhum filho da puta defendendo o lado da parcela majoritária da população? Ficam apenas tentando rotular se o discurso é de direita ou de esquerda. Reacionário ou revolucionário – vão se fuder! É tudo a mesma merda.

Torço para que o povo de uma maneira geral não continue sendo tratado como criminoso, agora se os criminosos de carteirinha que também fazem parte dessa população resolverem entrar em confronto com o bloco do secretário – Que estes assumam as conseqüências pelos seus atos, e sejam homens. Não colocando inocentes como escudo!

Por que não vi nenhuma organização de Direitos Humanos (eu tenho legitimidade para falar isso) comparecendo ao enterro do taxista covardemente executado durante os incidentes da segunda-feira (bom, execução já é uma covardia!), nem apoiando as vítimas queimadas dentro dos ônibus que foram incendiados? Devemos rever ou interpretar corretamente o que são os Direitos Universais do Homem – estes devem valer para todos aqueles que compõem essa sociedade necrosada e falida. Estes devem ser imparciais e não cúmplices das perversidades. Devem ser a solução e não a perpetuação dos erros.

Os Direitos Humanos foram deturpados durante o governo militar, onde era associado ao banditismo e/ou aos opositores do regime. O pior é que nos dias de hoje muitos ativistas e organizações reforçam essa associação através de atos impensados (?). Que acabam por criar uma repulsa justamente nos que mais precisam de ajuda e apoio – a nossa população. Respeito diferentes pensamentos, mas peço que parem com esses discursos piegas, que só servem para ocultar um dos lados da história ou para maquiar com flores onde só existem espinhos. Parem com essa demagogia e hipocrisia. Mostrem que o conhecimento não diminuiu suas qualidades morais. E lembro que o próprio povo também se encontra na condição de culpado, de cúmplice. Mas, mesmo assim, deve ter seus pedidos por socorro ouvidos e atendidos.

Se a maioria da população almeja a mudança através da guerra, se for isso mesmo, então vamos juntos nos preparar e desferir um ataque ininterrupto contra todos os que nos oprimem. Vamos buscar a nossa alforria. Ainda somos escravos de um mesmo sistema opressor. Já faz 500 anos e só mudaram os nomes dos feitores, a ideologia é a mesma. Antes era S/A (sociedade anônima), agora S/C (sociedade conhecida). Antes nos vendiam, hoje nos envenenam, nos matam e nos oprimem. Será que somos vítimas de um genocídio meticulosamente planejado? Sabemos quem nos oprime, então vamos nos livrar das amarras do silêncio e botar para fuder. Que se dane se do outro lado estão as nossas réplicas! Não se prendam nisso. A condição deles é de capitães do mato, ou melhor, traidores do povo.

 

Certamente muitos estão se perguntando: E as armas? Como conseguiremos ter êxito? Porra, nós temos as pedras! Lembram a Intifada? Estas libertaram meia Palestina da ocupação israelense com seu armamento moderno. Também temos outro tipo de pedra: o REP. Esse pode causar estragos divulgando informações que propiciem a transformação. Se bem que, às vezes, este é compartilhado pelos seguidores dos nossos algozes que propagam inúmeras baboseiras. Mas, e daí? O que estamos esperando? Pedradas neles! Estão com medo de morrer? Isso faz parte, esperei uma vida inteira por esse dia: o dia em que veria todos os opressores oficiais (ou não) capitularem, perante o povo. Agora, se a maioria da população optar por uma mudança pacífica, neste caso, digo que devemos estar ainda mais atentos às “entrelinhas” e que através das informações obtidas nas letras de REP, possamos avançar mantendo sempre viva a nossa esperança por um mundo melhor. Assim se lapidará uma consciência forte e cidadã, aglutinando os que estão cansados de sofrer, cansados das injustiças, enfim, cansados de todas essas merdas que assolam a nossa cidade.

Precisamos de soluções e não simples paliativos, como a transferência do “Excelentíssimo Sr. Luiz Fernando (Beira-mar) da Costa” para São Paulo, ou iniciativas politiqueiras que visam atenuar a descrença do povo com relação às “políticas de segurança pública”. A devassa deve ser completa nos que oprimem, incluem-se aí: Executivo, Legislativo, Judiciário, Polícias, tráficos (armas, drogas, influência), forças armadas, empresariado, corporações de mídia, determinadas religiões, determinadas manifestações culturais… enfim todos que possam compor e gerenciar o chamado crime organizado!

 

Este foi o meu desabafo, que é reconhecido por muitos camaradas aos quais muito considero, e que lamento perderem seu tempo de vida útil reforçando os mais diferentes “focos de opressão”. Não almejando o caminho de volta ou mesmo parando para (re)pensar a (nossa) revolta. A tolerância destes para com as minhas idéias e posicionamentos reforça a esperança que algo mude, e apesar das grandes divergências ainda não somos inimigos! E seguirei de cabeça erguida esbravejando pelos que se fodem, e não pelos que só fodem!

Com exceção de umas três pessoas, eu pergunto: por que o silêncio perturbador no Hip Hop carioca? Por que o silêncio na ala pretensamente engajada e articulada? Será que a situação retratada não atinge os conscientes adeptos dessa cultura? Será que estamos limitados ao blá,blá,blá artístico? Será que ninguém mais vai colocar a cara? Mesmo assim ainda acredito que somos a diferença. Que somos um dos caminhos para a mudança!

Então, 

-  Paz – para a parte do povo que quer paz!

-  Justiça – que esta alcance todos os filhos da puta que oprimem o povo, sem distinção! 

-  Liberdade – apenas para a população que labuta de sol a sol, ou que busca incansavelmente o direito de sobreviver. 

-  Fé – devemos mantê-la a qualquer custo! Só resistimos graças a ela, independente da crença.
- Sofrimento – que este cesse.

- Educação e Informação – para que o povo não fique sujeito a manipulações e orquestrações.

“Que os subjugados de hoje possam, num futuro próximo, ver o desaparecimento de todos os seus algozes, juntamente com seus ideários.”

                                                                                                                     Def Yuri

CIDADE SEM LEI

Apanho o microfone e ele está municiado. Pra se falar do Rio tem que se estar preparado.
E não pense que estou arredio. Apenas digo que sua vida aqui está por um fio.
E é bom, é bom você notar: Por acaso já viu a cor do nosso mar? De azul, ele ficou vermelho.
O jornal “O povo” é o nosso mais fiel espelho. A cidade violenta, violenta cidade.
Somos prisioneiros entre prédios e grades. Aqui existe diferença entre o certo e as ações.
Balneários do sol, mulheres e contradições. Aqui existem milícias fortemente armadas
que impõem o terror com a caveira e suas rajadas.
E eu não sei se essa é a solução, porque eu não sei de que lado eles estão.
Tem homens citados como marginais. O que eles fazem pro povo o governo nunca faz.
Homens bem treinados que formam a polícia, alguns preferem se corromper do que lutar pela justiça.
Isso apenas mostra aquilo que eu já sei: Moramos no Rio, uma cidade sem lei.
(…)

Trecho da música: Cidade Sem Lei.
Autoria: Def Yuri/ Ryo Radikal Repz.
Parte integrante do CD Hip Hop Pelo Rio.

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 27/02/2003 | Seção: Def Yuri

 

Boicote!

Maio 20, 2008

Nos últimos dias tenho observado em grupos de discussão do Hip Hop na Internet uma grande repercussão sobre o boicote promovido por artistas e ativistas do Hip Hop estadunidense contra uma grande companhia de refrigerantes. Após a mesma vetar a exibição das peças publicitárias estreladas pelo rapper Ludacris, sob alegação que o mesmo tem músicas com palavrões. Passada cerca de uma semana, esse episódio ainda está fervendo, apesar de a companhia ter se disposto a abrir o cofre para projetos sociais realizados nos guetos. Muitos querem, além disso, a exibição das propagandas vetadas.

Aqui no Brasil, uniu-se esse fato aos boicotes propostos contra produtos de origem estadunidense, como resposta e forma de se dizer não à guerra impetrada pelo Grande Satã (George W. Bush) à sua cópia e semelhança (Saddam Hussein). É bom lembrar que ambos são da mesma escola. E a maior vítima é, como sempre, o povo. Lembro que um dos primeiros e-mails que recebi foi do camarada Paulo Sheetara. Ele trazia essa discussão de boicote para o nosso universo. Confesso que a idéia de boicotar produtos estadunidenses é bastante interessante, apesar das dificuldades ocasionadas pela globalização, digo, colonização que nos entope com os mesmos sem dó nem piedade, nos transformando em verdadeiros zombies (criaturas sem alma e errantes) do American Way of Life. Afinal, sem sombra de dúvidas, tenho a impressão de estar vivendo em um protetorado e não em uma nação “soberana”.

Acompanhem o meu raciocínio. Imaginem que o(s) Hip Hop(s) aqui do Brasil resolvesse se unir por um período, um dia que seja. Pensem que, nesse dia, todas as festas deixassem de tocar rep estadunidense, que os nomes das festas fossem em português, que o MC, se tornasse EME CÊ. O DJ fosse apenas DÊ JOTA. Que as lojas retirassem todos os grandes nomes estadunidenses das vitrines e prateleiras acabando por não comercializá-los. Que as rádios seguissem esse exemplo. Que as camisas e adereços tão comuns ficassem na gaveta. Que os Low Riders, sonho de consumo de muitos, não saíssem das garagens, possibilitando assim a volta à realidade da maioria, ao mundo real com os ônibus lotados, lotações calorentas, trens, engarrafamentos… Que a EME TEVÊ só exibisse clipes nacionais ou de países não alinhados com o verdadeiro eixo do mal (EUA e Grã-Bretanha) e sua obsessão pela guerra. Que as gírias gringas e ou terminologias fossem momentaneamente esquecidas, assim como as grifes importadas que não nos trazem nada de útil, nem de crescimento social. Que os portais e páginas da Internet retirassem a visibilidade dos gringos e suas iniciativas. Para quem ainda não sabe o Brasil representa um dos maiores públicos consumidores de Hip Hop em todo o mundo.

Enfim, que o Hip Hop brasileiro fosse só ele por alguns instantes. Será que conseguiríamos andar com as nossas próprias pernas, sem precisar de muletas para legitimar as nossas correrias? Será que isso é possível?
Sei que isso pode parecer xiita ou uma viagem, e que não modificaria o cenário de pré-guerra, digo, de guerra iminente. Porém, penso que seria vital para que todos os adeptos dessa(s) cultura(s) pudessem refletir. Quem sabe assim passaríamos a dar mais valor às nossas correrias, aos nossos ideais. Já são 20 anos de Hip Hop brasileiro e muito da cultura e história do nosso povo e do Brasil foram resgatadas. Verdadeiras odisséias antropológicas foram feitas e disseminadas através de rimas, tintas, sons, imagens e ritmos, trazendo de volta e/ou oferecendo a auto-estima há muito perdida, e a periferia ganhou voz e visibilidade. Lembrando aqui – periferia da sociedade, não a geográfica. Então a minha sugestão é essa: 24 horas dizendo não! Vamos ver se somos fortes na prática, ou é apenas fantasia.

“Sabem por que os EUA têm certeza da existência de armas proibidas no Iraque? Não? É porque eles guardam as notas fiscais…”

Dica:
www.vermelho.org.br , nesta página vocês poderão encontrar artigos do Paulo Sheetara, Tom e muitos outros camaradas. Todas as visões oriundas do Hip Hop são importantes para o nosso auto-conhecimento.

Notas relacionadas:
Fonte: Bocada-Forte

Grupo de hip hop quer fazer boicote contra Pepsi (05/02/03)
Comunidade do hip hop entra em acordo com a Pepsi (12/02/03)

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 21/02/2003 | Seção: Def Yuri

 

Capitães do mato

Maio 20, 2008

Me lembro que aqui no Rio no início dos anos 1990 (e em outros lugares do Brasil era igual), nós que fazíamos rep, éramos movidos por uma forte indignação e raiva, somadas às experiências do dia a dia e à forte influência do (re)conhecimento de Malcolm X. Nesse período a autobiografia desse expoente negro se constituiu no livro predileto de muitos. Todos esses ingredientes deram vida a verdadeiras bombas que eram acionadas através de rimas e discursos, e um dos nossos principais alvos era a polícia e principalmente os policiais negros, os quais víamos como autênticos capitães do mato oprimindo os seus iguais e propagando o racismo do “sistema opressor”.

 

Essa comparação com os antigos capitães do mato foi inevitável, a sede por justiça, direitos e a raiva nos cegou momentaneamente. Só víamos um lado das coisas e só aceitávamos a nossa versão. É impressionante que passado tanto tempo, ainda nos dias de hoje se encontrem um grande número de cegos no Hip Hop. A indignação e a raiva continuam, mas graças aos deuses assimilei somente o lado positivo desses sentimentos, o que me fez recobrar a visão, e esta foi ficando cada vez mais isenta e imparcial. Percebi que, apesar de alguns equívocos continuarem a acontecer, existem policiais que não se encaixam nesse perfil (são raros, mas existem). Também pude constatar que o termo capitães do mato abrangia mais pessoas. Todos aqueles que envenenam o seu povo, que levam o ódio para os seus iguais, a desgraça (leia Desgraçados )  e a opressão, que lucram com o genocídio do negro no Brasil, que incentivam a perpetuação dessas atrocidades através de músicas, filmes, vídeos ou de outros meios – esses são os verdadeiros capitães do mato modernos.

Tem um trecho de uma música do grupo Rappa que diz ”Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, é verdade. Porém, o estigma do navio negreiro também está em cada baseado de maconha, em cada carreira de cocaína, em cada uma dessas siglas oficiais ou não que estão aí para aterrorizar, aprisionar e fazer a sangria da nossa população. Em cada uma dessas iniciativas eu percebo a essência e o combustível que alimenta o nosso genocídio, e essa praga é uma realidade. Ter a capacidade de discernir sobre o problema são outros quinhentos. Muitos não querem a mudança e sim a manutenção da tragédia para que possam continuar com a sua vil encenação. Pois é sabido que a nossa dor é rentável, e muitos lucram de inúmeras maneiras. E as dores da maioria não são ouvidas, e se são, não servem para despertar um desejo coletivo por mudança.

 

Até quando viveremos à mercê dos capitães do mato modernos? Quando as redes de interesses serão desmascaradas? Os capitães do mato têm forte influência no nosso dia-a-dia, mas ninguém assume… Nós não podemos ser reféns de nós mesmos. Os quilombos do passado que resistiam bravamente, nos dias de hoje são apenas campos de concentração entorpecidos pelo medo ou pelas necessidades, as chibatas se transformaram em cassetetes, o gira-mundo e os grilhões se transformaram em microondas. E as revoltas do passado, que buscavam a conquista da liberdade? Estas estão deturpadas, será que ocorreriam espontaneamente nos dias de hoje? Será que elas teriam o mesmo objetivo do passado ou seriam apenas usadas para algum jogo de cena orquestrado? O sofrimento é tão intenso como no passado e não cessa.

 

O opressor de hoje tem múltiplas cores. Não me venham com desculpas sociológicas e romantismo, pois os adeptos dessa merda de opressão almejam apenas a manutenção do seu reino, mesmo que seja de fachada. E nas sombras estamos nós, os “herdeiros da escravidão”. As nossas mazelas devem ser denunciadas com o intuito de reverter esse quadro, não usadas objetivando o lucro fácil. Não quero estabelecer uma ditadura em que todos devem fazer algo de útil para todo mundo, apenas almejo que a percepção dos problemas seja ampliada e soluções apresentadas. Observem a diferença, entre épocas. Os “capitães” de hoje foram criados conosco, convivem no dia a dia e compartilham muitas coisas.

 

Às vezes fico pensando que não teríamos problema nenhum em viver num regime de exceção. Pois a grande maioria só se rebelaria caso tivesse seus entretenimentos e religiosidades vetadas, talvez assim poderiam se dar conta que o espelho se transformou no nosso maior algoz, que nos separa das mais diferente formas. É uma reprodução do que aconteceu na Mãe África, fronteiras são criadas, famílias separadas, o ódio entre nós é insuflado e a conseqüência é a nossa autodestruição. E repito uma citação de Malcolm X usada no meu artigo passado: “Por todos os meios necessários”.

 

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 13/02/2003 | Seção: Def Yuri 

Um dos aspectos que considero mais importantes no meu “proceder” é a capacidade de cortar a própria carne. Para quem não sabe o que é isso, cortar a própria carne é ter a coragem de expor fatos ou situações relacionadas ao seu grupo social, sem medo de ser mal interpretado e ciente de que é melhor contribuir do que se omitir, maquiar ou perpetuar os equívocos. Nos dias atuais, por incrível que possa parecer, a cena Hip Hop do Rio de Janeiro continua em processo de consolidação. Vinte anos se passaram e eu não sei se mantemos a esperança ou assumimos o fracasso. Aqui sobrevivemos de ciclos e poucos conseguem viver ou sobreviver. Definitivamente faço parte das exceções.
O ciclo ao qual me refiro é um período em que ocorre um verdadeiro bombardeio e, num piscar de olhos, a cidade é tomada por festas, shows, programas de rádio, ativismo de garganta ou orquestrado… e logo depois o marasmo (um filme que sempre se repete). De cada ciclo desses saem e sobressaem uns dois ou três indivíduos que, independente da vertente H2, dão continuidade às movimentações e se alinham a outros abnegados, construindo assim a resistência na prática.
Por isso valorizo cada iniciativa em prol do Hip Hop e sempre procuro comparecer ou incentivar os que resistem de coração. Porém, os problemas do Hip Hop no Rio de Janeiro já foram detectados e detalhadamente mapeados. Cabe aos “insurretos de laboratório”, digo, “plantão”, compartilharem a boa vontade de pensar sugestões para mudanças efetivas e na prática. Vamos produzir. As discussões só são importantes se nos levarem a algum lugar… mesmo que seja para o inferno! Os anjos já devem nos odiar por terem seu sexo discutido até a exaustão.

Não pensem que sou o sabichão, o professor. Sou apenas um indivíduo que dedicou mais da metade da vida a essa cultura passando por inúmeras etapas e dificuldades. “Sobrevivente de várias batalhas e aprovado em vários testes”, como diz o camarada X (leia-se ÉKIS) na música Trilogia Humana, do Relato Bíblico (DF). E mesmo quando o sentimento de jogar tudo para o alto era muito forte, eu resisti e não desisti.
E sigo mostrando o orgulho de ser oriundo do Hip Hop. Isso está estampado em mim e na minha alma, por toda a minha passagem por esse plano. A cada passo por mim dado, lembro dos que se foram, dos que tiveram que abortar os seus sonhos, dos que ficaram pelo caminho. São estes, que somados à obstinação e à esperança de uma tão almejada mudança, os combustíveis para as minhas movimentações. É notório que muitos agem e se movem pelo modismo, vêem o Hip Hop como algo novo e ignoram a nossa história de derrotas e vitórias. Mesmo assim penso que esses também sejam necessários, mas a compreensão disso tudo é vital para uma movimentação isenta. Além da má informação, temos três outros fatores que colaboram para o caos – ansiedade, comodismo e (falta de) responsabilidade.

Muitos se acostumaram mal – hoje tudo se tem na mão. Gostaria que o gosto do pão amassado pelo tinhoso fosse compartilhado por todos. Quem sabe, assim, dariam valor e teriam orgulho da sua própria identidade. Nós não precisamos de pútridas. Não entendeu? Tudo bem. Nós não precisamos de filhos da puta pestilentos infiltrados para nos dizer o que fazer, com seus conceitos e interesses.
Os omissos do meio devem ter coragem de assumir as suas deficiências e se alinharem para que todos consigam construir uma cultura que permaneça firme e seja considerada agente de transformação. O Hip Hop não é um reles movimento, é sim uma cultura oriunda de um segmento da sociedade civil. O Hip Hop deve ter o mesmo peso das igrejas, partidos políticos ou outros grupos sociais importantes. Quem sabe num futuro próximo poderemos dizer que definitivamente somos todos parte de um segmento da sociedade civil organizada.

Digo isso pois já estou de saco cheio de ouvir que o “Movimento Hip Hop” apóia isso ou aquilo, este ou aquele. O coletivo de adeptos da cultura Hip Hop não apóia ninguém pois não está organizado para tal, e até o momento não existe(m) indivíduo(s) com poder de deliberar nada em nome, e nem de aglutinar o(s) Hip Hop(s) como um todo à sua volta. Cada indivíduo deve ser respeitado como tal e carregar as suas convicções, não podemos continuar propagando a mentira e uma pseudo-unidade. Ainda sob os efeitos de Porto Alegre e do manifesto que recebi segunda-feira do meu camarada DJ KSK, digo o seguinte – devemos interagir com todos os segmentos da sociedade, porém não devemos ser contaminados por parasitas e/ou criaturas que visam apenas se locupletar. E estes se apresentam aos montes (deve ter acabado o período de incubação). O caso do KSK foi a prova de que vários alertas dados anteriormente tinham fundamento, ele mesmo era parte de uma corrente que almejava uma “mistura” político-partidária com o Hip Hop. Batalhou para caramba e o que ganhou? Uma marca de pé na bunda! Outro exemplo é o programa Hip Hop Sul do camarada Nezzo. Com a mudança de governo do Rio Grande do Sul esta grande iniciativa se viu em apuros de acabar pois, até então, não era vista como um braço do H2 e sim como um informe publicitário do antigo governo.

Essa é a prova de que não devemos confundir nossas convicções político-partidárias, clubísticas, religiosas e etc. com a militância Hip Hop. E como dizia Malcolm X – “por todos os meios necessários” este deve ser o antídoto para a contaminação. Devemos estar preparados e atentos às “entrelinhas”. Chega de criarmos um reino de fantasia onde somos os fodões, os mais inteligentes e astutos, onde a ostentação fútil é mais importante do que é conquistado com trabalho suado. Somos cidadãos iguais aos outros – com o diferencial da cultura Hip Hop. No mais enfrentamos as mesmas dificuldades, então vamos lutar na prática e os que querem nos separar, saibam que as cabeças fracas são facilmente conduzidas. Já nós, os Fedayins (leia “Estilo Fedayin” )… Somos a essência e os alicerces do Hip Hop brasileiro.
Eu gostaria de compartilhar algumas dúvidas com vocês, leitores. Penso que todas as entidades “oriundas do Hip Hop” deveriam abrir a sua “caixa preta” e prestar contas das suas atividades. Falo em relação ao Rio, mas a sugestão vale para todo o Brasil. Todos que são adeptos dessa cultura têm o direito de saber o que está sendo feito em nome do(s) Hip Hop(s). Imaginem que, mais dia ou menos dia, se descobre que uma dessas entidades do meio é utilizada para lavagem de dinheiro ou mesmo se transformaram em ralos para o dinheiro público. Não quero nem imaginar o estrago que uma descoberta dessas causaria, principalmente para as pessoas idealistas e que lutam por essa cultura de coração. Imaginem a decepção…
Uma grande maioria não pode ter sua honra arranhada por uma meia dúzia de três, então as partes citadas devem disponibilizar essas informações. Vai que as autoridades competentes e o Ministério Público levantem algumas suspeitas? Muitos devem se libertar do medo ou da ignorância e utilizar o senso crítico. A ingenuidade não combina com o discurso do “movimento” e o questionamento ao sistema só tem valia partindo de quem tem as mãos limpas!

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 06/02/2003 | Seção: Def Yuri

Porto Alegre 2003

Maio 20, 2008

Mais uma vez parti para a capital gaúcha com os objetivos de vivenciar o clima proporcionado pelo Fórum Social Mundial, participar do lançamento do Trocando Idéia 2003 e observar o Fórum Brasileiro de Hip Hop – o primeiro realizado no Rio Grande do Sul. Friso isso pois já ocorreram iniciativas de caráter nacional em outros estados. Aqui mesmo no Rio de Janeiro tivemos um encontro desses no ano de 1996 e contou com a participação de camaradas de todo o Brasil, como o Lamartine, GOG, Poeta Urbano entre tantos outros.

 

Chegando em Porto Alegre a responsabilidade falou muito mais alto. Lógico, como prometido anteriormente, não pude fugir da minha missão, não poderia deixar de comparecer e mostrar para velhos e novos camaradas que o Rio de Janeiro não estava sendo devidamente representado. Falo isso pois, para quem não sabe, a terminologia “carioca” é utilizada para definir fatos referentes aos limites da cidade do Rio. Por exemplo, um fórum de Hip Hop em Petrópolis seria chamado Fórum Petropolitano de Hip Hop, e por assim vai. Parece que a educação sucateada fez vítimas, pois quando se fala no estado do Rio de Janeiro, devemos utilizar o termo “fluminense” e não “carioca”. No estado do Rio de Janeiro, além do município homônimo, temos cidades como Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo, Campos, Macaé, Volta Redonda, Angra dos Reis, Valença, entre outras, que têm uma movimentação Hip Hop. Enquanto os indivíduos dessas cidades e de outras não forem convidados ou mesmo tiverem acesso às informações, mesmo que deturpadas, não se pode falar sobre a participação efetiva de todo o Hip Hop fluminense nos fóruns brasileiros de Hip Hop. No atual momento pode-se citar apenas cidades que compõem a Baixada Fluminense.

 

Ao participar do Fórum Brasileiro de Hip Hop tive o intuito de procurar legitimá-lo já que, como dito anteriormente, a cidade do Rio de Janeiro ainda não estava sendo contemplada pois não tinha representantes devidamente legitimados. Essa é a realidade e as informações não podem ser deturpadas ou conduzidas equivocadamente. Como disse o Edu em sua coluna no Hip Hop Ativo – Pouquíssimas pessoas de outros Estados conhecem os pioneiros do Hip Hop no Rio…sendo assim os intercâmbios são feitos com pessoas que não conhecem as necessidades da cultura no Rio. Perfeito. Os passos devem ser dados um de cada vez: aprendendo a história, identificando os problemas, pensando em soluções. Pular essas etapas é no mínimo estranho. Subentende-se que haja alguma orquestração.

 

Eu até tentei participar da “primeira (?)” reunião do Fórum Carioca realizada ano passado em Nova Iguaçu e que tinha como objetivo elaborar propostas para o encontro nacional. Porém, ao perceber o desenrolar de uma condução equivocada e ver que minhas dúvidas não foram sendo elucidadas optei por não me fazer presente, mesmo assim não deixei de acompanhar e indiretamente participar dos preparativos e discussões em diferentes partes do Brasil. O Fórum Brasileiro levou muitas pessoas de diversas partes até a escola Paula Soares, situada no centro de Porto Alegre. Posso dizer que havia inúmeras vertentes que estavam prontas para interagir. Foi muito importante encontrar: Gil BV, Lamartine (primeiro a homenagear o rapper Sabotage), Ghoez, Nino Brown, Fox, Fabiana Menini, Nezzo, Amarelo, PX, Kall, El Tosh, Patrícia e André (Bocada-Forte), Lica, Maninho, Tom, Cela, Pixote (que puxou uma homenagem emocionante ao rapper gaúcho Bocão, morto recentemente em decorrência do vírus HIV), Paulo Shetara, MC Flor do Gueto, Guiné, Carla Zhammp, Mancha, Noise D, P Júnior, Matheus e tantos outros que, citados aqui, contemplariam uma lista com cerca de trezentos participantes.

 

Apesar das considerações e de algumas discordâncias, acredito ser muito importante uma atividade como essa que visa a melhor compreensão do Hip Hop, digo de parte do Hip Hop brasileiro. Penso que a responsabilidade de ser representante de um estado vai além de votar ou de emitir algum parecer nos encontros. Cito por exemplo as dificuldades que vários jovens participantes ou não passaram ao término do Fórum Brasileiro de Hip Hop e do Fórum Social Mundial. Por motivos dos mais variados foram abandonados e ficaram ao Deus dará, à mercê da própria sorte em Porto Alegre. Sem alimentação, abrigo ou transporte. Surge o sentimento de impotência em ver como é complicado não poder ajudar ou conseguir ajuda para todos. É nesse momento que as pessoas que articulam os seus estados ou que puxam para si a responsabilidade de serem “legítimos” representantes deveriam se fazer presentes, não para salvar e sim para prestar algum tipo de apoio no que fosse necessário, mostrando algum tipo de solidariedade e respeito.

 

Pontos esses que deveriam ser traços fortes na construção de uma cultura Hip Hop forte, uma cultura que deve almejar e saber interpretar a responsabilidade social. Penso e deixo como sugestão que todos os participantes de fóruns como esses deveriam ter um número telefônico de emergência na cidade em que o mesmo se realiza e isso valeria para outros indivíduos do Hip Hop que estivessem na cidade no mesmo período. Esse cadastro é importante pois nós sabemos que num momento de dificuldade nem todos no meio lidam serenamente com esses problemas. Imaginem – alguém com a cabeça mais fraca e movido pelo desespero no intuito de voltar para casa pode até cometer um ilícito. Existem também possibilidades relacionadas à saúde e à própria polícia.

 

Num próximo encontro entendo que os organizadores devam “comunicar” a todas instituições de governo e outras organizações que respaldem, que tragam o reconhecimento de que algo importante não só para o Hip Hop mas também para o conjunto da sociedade esteja acontecendo. O norte desses encontros tem e deve ser encontrado o mais rapidamente, senão a empolgação e a aglutinação podem se perder. Os passos têm que ser dados e a articulação tem que aumentar ainda mais. Se não tivermos movimentação, o excesso de “conversa” não adiantará de nada. O primeiro passo é a criação de uma rede para troca de experiências e informações relacionadas – penso que este passo já esteja sendo dado com a pronta divulgação e o envio da lista com todos os que foram nesse encontro, e também que participaram, de alguma forma (seja na presença às reuniões, seja na mera divulgação dos eventos) da construção deste.

 

Nós não devemos nos iludir com redes normativas, disciplinárias ou policialescas que só servem para monitorar e conduzir o comportamento alheio, não podemos ser uma cópia de exemplos arcaicos, ineficazes e em alguns casos até medíocres. Devo lembrar que a consciência não se ganha – se conquista. E isso ocorre através da informação. Vejam a divulgação dessas iniciativas – nem todas as pessoas de um país continental como o Brasil dispõem de acesso aos benefícios da Internet, muitas até nem sabem ler! Então é necessário a utilização de outros meios que atinjam todos aqueles que querem participar dessas iniciativas.

 

Em Porto Alegre tive contato com várias pessoas do meio que não sabiam da existência do fórum de Hip Hop, e outros que estavam apenas interessados nas apresentações artísticas. Portanto, de uma maneira ou de outra, a divulgação deve chegar. Mesmo sendo difícil em termos estruturais as atividades devem ser muito bem pensadas e organizadas, para que o objetivo não seja perdido e os participantes não se desmotivem ao constatar que estão em um carrossel repleto de discursos confusos que visam atender aos anseios de diferentes correntes político-partidárias. Penso que é primordial nos apegarmos ao que nos une, e o que nos une é o Hip Hop. A partir daí pensaremos no que nos separa.

 

A compreensão disso é vital para o fortalecimento desta cultura. A avaliação desse encontro deve ser imparcial e apontar todos os acertos e principalmente as falhas para que o próximo encontro seja ainda mais produtivo e positivo. E para que o próximo encontro, a ser realizado (a princípio) em Goiânia, seja a contento, os pontos positivos e, principalmente, os negativos, devem ser muito bem analisados, refletidos e solucionados, procurando melhorar os acertos e evitar repetir falhas graves.

 

Mesmo compartilhando de uma linha de pensamento que tem restrições à “burrocrácia” que domina as reuniões e os fóruns, pois estes parecem encontros político-partidários e de sindicatos que no final das contas não levam e nunca nos levaram a lugar nenhum, eu apóio iniciativas como essa pois penso que para muitos essa experiência seja muito benéfica, já que reforça o sentimento de pertencimento, interação e a oxigenação de idéias.

 

Com isso, evitamos concretamente o monopólio de idéias e a manipulação total de informações que são importantes para a cultura Hip Hop como um todo. Lembrando que os participantes do Fórum Brasileiro de Hip Hop representam uma pequena parcela de todo o universo Hip Hop brasileiro.

“Asé para os que lutam e resistem na prática”

Autor: Def Yuri – Publicado no www.vivafavela.com.br | 31/01/2003 | Seção: Def Yuri